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Relativamente a esta estirpe que foi detetada na Madeira, que dizia que não era desejável para Portugal que num momento como este que estamos a atravessar, surgisse também em Portugal uma nova estirpe que possa aumentar o número de infeções por ser mais contagiosa. Agora que chegou à Madeira, olha com alguma preocupação para esta nova estirpe?
Eu na altura, há um princípio, que é quando surgiu a notícia, e agora também já sabemos ainda mais, a cada dia que passa, mais ficamos a saber sobre o comportamento desta nova variante. Não chega a ser uma estirpe, porque estirpe é uma coisa mais forte, que tem características biológicas, nomeadamente por causar doença, muito marcantes. Já temos mais informação e, neste momento, o que nós não queremos, e continuo a afirmar isso, era uma variante que aumentasse significativamente o número de infeções por ser muito mais eficiente na sua transmissão. Mas também na altura disse que os meios de proteção, a máscara e as regras de distanciamento, seriam eficazes para qualquer variante. Dá aqui uma incerteza na comunidade científica ainda, se isto é um fenómeno local de que naquela região do sudeste de Londres, de facto, esta estirpe é predominante por ter sido uma coisa que se chama um founder effect, que foi aquela que surgiu ali e começou a ocupar o nicho, ou se de facto tem uma maior capacidade de infeção. E de facto, as mutações individuais em laboratório, nós sabemos que aumentam a capacidade de reconhecer o receptor celular. Agora, daí a ser mais infecciosa na comunidade, há muitas possibilidades. Uma delas é, por exemplo, provocar infeções assintomáticas. Aquilo que é importante é que não é uma variante que esteja associada a uma maior capacidade de causar doença. Fala-se que dissemina-se mais em crianças, mas mesmo que se disseminate mais em crianças ou nas camadas mais jovens, onde está a provocar a doença. E se calhar há uma razão epidemiológica para o fazer. E nós sabemos também que são as camadas mais jovens onde há mais disseminação da infeção normalmente.
Portanto, o que pode estar a acontecer é que como há mais pessoas assintomáticas, demoram mais tempo a perceber que estão com o vírus e por essa razão há mais transmissão, não tem necessariamente a ver com as características desta variante.
Sim, mas de facto tem havido, durante a evolução desta pandemia, algumas variantes que são mais eficientes a disseminar-se. Não quer dizer que causem maior número de infeções, mas que são mais eficientes a disseminar-se em relação às outras variantes. Como, por exemplo, uma variante que foi muito falada há uns meses atrás, que tinha uma mutação no codão 614.
Por que razão é que esta variante agora está a ser mais falada do que outras anteriormente?
Eu penso que tem a ver com o início das vacinas. Por quê? E é legítimo falar nisso, de certa forma. Por quê? Nós sabemos que as mutações podem afetar as vacinas. E sabemos disso porque todos os anos ouvimos a falar duas vezes por ano, ou pelo menos no hemisfério norte, uma vez por ano, que temos que ser vacinados, que temos que tomar a vacina atualizada porque o vírus da gripe muta. E, portanto, é natural que haja uma associação agora, se há mutações nestes vírus, se elas podem ter um impacto na vacina. Mas este vírus biologicamente não evolui nesse sentido, não é um vírus parecido com o da gripe. É um vírus que quando há uma mutação tão grande que mude a forma da proteína de modo que ela foge a uma possível vacina, a proteína não tem a plasticidade de acomodar essa mutação sem perder alguma função. E, portanto, esses vírus, em princípio, são menos eficientes em infetar, transmitir-se e provocar doença. E, portanto, é pouco provável que esta variante, que é tão boa a disseminar-se e consegue competir com as outras variantes localmente e ocupar o nicho das outras variantes, que seja uma variante que, por causa dessas pequenas mutações que teve na proteína spike, que elas modifiquem estruturalmente a vacina, de modo que as vacinas ou os anticorpos elicitados pela vacina já não funcionem. Até porque as mutações são pontuais e geralmente a resposta de anticorpos que nós fazemos contra a proteína é policlonal. O que isso quer dizer? É para mais do que uma posição da proteína e, portanto, é pouco provável que esta variante tenha impacto na vacina, baseado no conhecimento científico sobre estes coronavírus em particular.
E também a nível de medidas que estamos a adotar, as medidas que adotamos agora para as outras variantes são também válidas para esta, tal como o distanciamento, a máscara, tudo isso. Portanto, esta variante não ultrapassa uma máscara.
Não ultrapassa uma máscara, nem é transmitida agora a quilómetros de distância pelo ar. Ou seja, há a transmissão deste vírus, são as pessoas que transmitem o coronavírus a outras pessoas, da mesma forma que transmitem a gripe. E é preciso haver um contacto próximo, é preciso haver a transmissão de gotículas respiratórias, que são evitadas pelo distanciamento e pelo uso da máscara. Portanto, como disse e muito bem, as medidas funcionam perfeitamente. Mas vamos assumir o pior cenário Vamos assumir que, de facto, esta mutação tinha um impacto na vacina. Uma das coisas fantásticas de estarmos a usar vacinas com uma nova tecnologia, que é a tecnologia de RNA, é que num dia, em poucas horas, podemos corrigir num tubo de ensaio o erro e atualizar a vacina. Depois temos que a produzir, mas é muito mais fácil fazer isso, por exemplo, para esta vacina do coronavírus do que seria para o vírus da gripe. Nós fizemos isso todos os anos para o vírus da gripe. Portanto, em último caso, podia haver aqui um pequeno atraso, até porque estamos a produzir muitas vacinas, temos que as produzir. E podia haver aqui um pequeno problema, mas é um pequeno problema.
Não iria inviabilizar a vacina?
Não, iria inviabilizar o processo, que é o processo de vacinar a população para que, primeiro, se consiga proteger os grupos de risco, porque isso soluciona o problema da pandemia, porque o problema da pandemia é a morte nos grupos de risco. Portanto, se as vacinas forem eficazes no campo, como foram eficazes nos ensaios clínicos, com 95% de eficácia quanto à proteção de doença grave, que é isso que nos preocupa mais, eu diria que vai ser um sucesso tremendo. E depois, o chegar à imunidade do grupo, já temos mais tempo para o fazer e as vacinas também vão ser importantes, mas terão uma importância diferente. E, portanto, não vai, de maneira nenhuma, impactar na nossa capacidade de solucionar esta pandemia, mesmo que tivéssemos que corrigir a vacina. Até porque as próximas vacinas que vêm aí, nomeadamente a da Oxford e a da Janssen, que é da Johnson & Johnson, que são vacinas por adenovírus, também facilmente num tubo de ensaio conseguimos fazer a pequena mutação, a manipulação genética, para corrigir a mutação e produzir as vacinas. Portanto, eu não estou preocupado com esta variante e digo, se for assim tão eficiente como foi a 614, vai-se espalhar por todo o mundo e não há nada a fazer ou que vá fazer para prevenir a sua disseminação.
Antes de terminarmos, perguntava-lhe também se agora com esta nova variante, que também já chegou a Portugal, e com os eventuais aumentos de casos que podem surgir agora com a altura do Natal e também a passagem de ano, é possível que nas primeiras semanas de janeiro se registe um aumento de casos diários?
É muito possível, não pela variante, mas sim pelos contactos que aumentaram. Nós sabemos que sempre que aumentam os contactos, e é impossível aumentar os contactos e as medidas funcionarem 100%. Nós sabemos que às vezes tiramos a máscara, se nos sentamos à mesa e tiramos a máscara. Portanto, mesmo usando a máscara e tentando seguir as regras de distanciamento, sabemos que nessas alturas há sempre mais infecções. Portanto, é expectável que em janeiro haja um aumento de números de infecções todos os dias. Agora, esperemos que não seja um aumento muito grande e que não seja uma terceira vaga. Em relação à variante, eu não estou preocupado com a variante. É óbvio que nós não queremos ter uma variante que aumente o número de casos, e que nós não possamos fazer nada contra isso, mas eu não acho que seja o caso. É preciso ter alguma precaução, alguma vigilância, que é isso que é pedido, é vigiar, mas não é um fenómeno novo. Foi isso que eu quis dizer há umas semanas atrás.
Agradeço os esclarecimentos, Pedro Simas. Agradeço mais uma vez a disponibilidade.