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Uma carta aberta do investigador português André Dias. É doutorado em Modulação de Doenças Pulmonares pela Universidade de Tromsø, na Noruega. Defende que a taxa de letalidade deste coronavírus é muito inferior ao estimado e que, por isso, o risco é também muito baixo. André Dias explica que todos os modelos desenvolvidos para estimar as possíveis consequências da Covid-19 eram de caráter especulativo e sabe-se agora, diz, acabaram por estar baseados em erros grosseiros. Este investigador pede ao Presidente da República que levante todas as restrições, porque entende que deixaram de ser necessárias do ponto de vista sanitário. André Dias está agora em direto ao telefone. Bom dia. Em que se baseia para dizer que este vírus não é tão letal nem tão perigoso como está a ser dito?
Essencialmente nos novos testes, portanto, nos testes de anticorpos que têm sido feitos nas últimas semanas e que relatam um aumento muito significativo do número de infectados sobre aqueles que conhecíamos com os testes que tínhamos feito. Portanto, há relatórios agora de aumentos do número de infectados de 50 a 85 vezes mais do que conhecíamos. E isto atira os cálculos de letalidade, portanto, de mortos sobre o número de infectados, para valores muito próximos ou equivalentes a muitas outras doenças que temos que lidar todos os dias.
Portanto, está a dizer que este coronavírus tem um impacto e uma gravidade semelhante, por exemplo, à gripe sazonal? São comparáveis estes valores?
Sim, os valores são comparáveis, os efeitos clínicos não são comparáveis. O Covid tem efeitos clínicos mais graves, mas esses efeitos clínicos devem ser tratados no âmbito clínico, portanto, no âmbito do hospital. O exemplo talvez melhor é muito equivalente, o risco é mais baixo do que a tuberculose.
André Dias, explique-me então por que a Organização Mundial de Saúde não tem este entendimento e continua a lançar este alerta. Está a fazer mal as contas?
A Organização Mundial de Saúde tem um histórico de lançar os dados nos surtos iniciais, durante as fases iniciais das doenças. Lança dados que sabe terem muito ruído, mas nunca anuncia, nunca divulga explicitamente e acima de tudo, esse ruído e essa incerteza. Portanto, a Organização Mundial de Saúde continua a lançar dados sobre os quais sabemos não serem definitivos, sobre os quais sabemos haver muito ruído e muita incerteza, mas não menciona essa incerteza.
Mas a intenção é lançar ruído? A intenção da Organização Mundial de Saúde é lançar ruído?
Não. Eu estou a falar de ruído estatístico. Estou a falar de características dos testes de vírus que têm uma janela temporal e que gera ruído em termos estatísticos, gera incerteza em termos estatísticos. E essa incerteza é conhecida por quem faz os testes e por quem trabalha estes números. Infelizmente, a Organização Mundial de Saúde não divulga essa incerteza junto com os números da letalidade e dia.
Então como é que me pode explicar o que aconteceu, por exemplo, e ainda está a acontecer em Itália, o caso de Bérgamo é exemplar, mas com os números que vemos acontecer no estado de Nova Iorque, no Brasil, em Espanha, não são números muito superiores ao de uma gripe normal ou mesmo à tuberculose?
Não. O número de mortes que nós temos na Europa, eu não conheço os números americanos ao detalhe, nunca estudei os números americanos porque é após a Europa e o meu foco sempre foi na Europa. Na Europa, nós temos monitorização da mortalidade e neste problema, a dimensão essencial é a mortalidade, quantas pessoas é que estão a morrer. E na Europa existe monitorização em quase todos os países da mortalidade. Em 2014, por exemplo, a monitorização da mortalidade detetou um excesso de mortes. Portanto, durante o inverno, houve sensivelmente 217 mil mortes em excesso sobre aquilo que é considerada a mortalidade base ou a mortalidade expectável. O coronavírus, ao dia de sábado, na mesma região, tinha sido atribuído aproximadamente 110 mil mortos atribuído ao coronavírus. Portanto, a grandeza da mortalidade em excesso que está a acontecer é bastante abaixo daquela que pode ser atribuída à gripe ou que podia ser atribuída à gripe em 2014. Os números de mortalidade direta pela Covid estão muito longe disso. Os números estão ainda longe, por exemplo, de 2017. Esses 110 mil, na área de influência do EuroMOMO, nos países que reportam então a mortalidade a esse sistema, estes 110 mil estão abaixo de 2017, em que sensivelmente 150 mil podem ser atribuídos à gripe.
Mas isto não está a acontecer porque a Europa optou por fortes medidas de confinamento e se estivéssemos todos a trabalhar como estivemos nesses anos que está aqui a pôr como referência, os números não seriam maiores e mais dramáticos?
Não creio. A evolução das curvas de infectados e de mortos na Europa segue um padrão muito mais próximo dos surtos de gripe do que um padrão esperado dessas medidas. Essencialmente, toda a evolução na Europa é muito semelhante, independentemente de quando e quais medidas cada país implementou Há países que forçaram por lei toda a gente a ficar em casa, a fechar todos os serviços. Há países que apenas o recomendaram, há países que não fizeram medidas nenhumas relevantes, não chegaram a fechar nada.
André Dias, mas muitos desses países que optaram por ter uma estratégia diferente, como o Reino Unido ou como a Suécia, acabaram por recuar e acabaram por voltar a defender o isolamento social. Isto não significa que os países acabaram todos por tomar a mesma estratégia com ritmos diferentes?
Não. A Suécia nunca recuou em medida nenhuma significativa. A estratégia da Suécia hoje é semelhante à estratégia da Suécia no início. Continua apenas a haver recomendações de distanciamento social. Nem sequer é possível na Suécia, a lei sueca não permite sequer o confinamento das pessoas.
E parece que a Suécia é o país que tem tido o comportamento mais interessante e mais exemplar no combate à Covid-19.
Talvez o mais interessante e o mais conhecido, mas há outros países. Há países bálticos que não adotaram sequer medidas de confinamento, nem recomendadas. E o essencial daqui é que a evolução é igual em praticamente todos estes países. Os picos aconteceram todos sensivelmente na mesma altura e, portanto, são independentes ou parecem ser independentes de quando e quais as medidas que foram tomadas. Parece haver um fator externo muito mais forte, que está a ditar a evolução da doença, muito mais forte do que as próprias medidas que nós humanos tomamos. E esse fator provavelmente é a primavera. Os vírus são muito sensíveis. Os vírus pulmonares e os vírus genericamente são muito sensíveis à luz solar. A luz solar e os raios ultravioleta são capazes de destruir os vírus pulmonares. O contágio é quase sempre ou exclusivamente feito no exterior ou no ambiente, é mais fácil dizer no ambiente. Portanto, o vírus tem que passar pelo ambiente para contagiar uma nova pessoa e nesse passo de contágio está exposto ao ambiente, está exposto à luz solar muitas vezes. E portanto, o aumento do número de horas de sol tem o potencial muito grande para reduzir a infecção, para reduzir o contágio. E esse parece ser o fator determinante na evolução da doença na Europa, muito mais forte ou aparentemente muito mais forte do que as medidas de confinamento elas próprias.
E então, como é que olha para a perspectiva de uma segunda vaga que possa acontecer passado este período de primavera e de verão? Terá um impacto semelhante ao que tive esta primeira vaga do início do ano?
Não. A probabilidade do número de infectados ser muito maior do que nós pensamos é real e será possível, eu diria mesmo provável, seguindo a opinião de um epidemiologista sueco. Será muito provável ou será provável que uma boa maioria de nós já tenha sido infectada e que já estejamos de alguma forma imunes. É provável que o vírus regresse. O mais provável é que o vírus regresse no caldeirão dos vírus de gripe, que regresse como mais uma estirpe de vírus de gripe, que agora circule durante o nosso verão, circule no Hemisfério Sul, no inverno deles, do Hemisfério Sul, e que depois regresse no próximo inverno com todos os outros vírus que causam aquilo que genericamente chamamos gripe. Tinha perguntado sobre o impacto. O impacto poderá ser maior, poderá haver mais infecções especificamente por este vírus detectável, que seja uma porcentagem detectável, mas isso também acontece com os outros vírus, incluindo alguns corona, que causam aquilo que nós genericamente chamamos gripe. E alguns anos, há um pico de determinados vírus que causam mais infecção do que os outros. Isso pode acontecer. É provável que aconteça que ele regresse e cause mais infecções, mas na generalidade, estou convencido que não fará um pico de mortalidade além daquilo que estamos habituados no inverno.
O André Dias tem hoje uma carta aberta dirigida ao Presidente da República a pedir o levantamento das medidas sanitárias, mas a reconhecer também que a população tem medo. Como é que sugere que se possa regressar a uma vida mais ou menos normal?
Esse medo é real. Quase tudo o que nos aconteceu terá sido, acima de tudo, causado por esse medo, por reação, ação e reação sobre esse medo. Devíamos ter reconhecido desde o primeiro dia que o medo era real, sempre existiu e o medo é um motor muito forte da nossa capacidade de decisão. E, portanto, tanto as decisões que foram tomadas, foram influenciadas fortemente por esse medo. E agora, na abertura, temos que ter também noção que esse medo existe e temos de saber lidar muito bem com ele. A abertura deve ser faseada, ainda que eu afirme que o risco é o que é e que está dentro daquele risco que lidamos todos os dias. Não advogo que se levantem todas as medidas imediatamente e deve ser faseado E a primeira medida que devia ser tomada era a abertura das creches e das escolas primárias. Não se deve começar com as escolas secundárias. Primeiro, porque as crianças abaixo de nove anos não têm risco. O número de casos de complicações em crianças abaixo de nove anos é absolutamente irrelevante em termos estatísticos. E, portanto, devíamos começar com essas crianças, porque são importantes na criação de imunidade e porque não têm risco nenhum associado. Ironicamente, o que o governo está a propor de abrir as escolas secundárias é um grupo onde já existe algum risco. Esse risco, é o que é, é irrisório, mas já existe nesse grupo de idades. E, portanto, faz sentido começar com as crianças mais jovens, porque elas também são uma peça fundamental para criarmos ainda mais imunidade na população. As crianças nesse grupo de idades abaixo dos nove anos, por exemplo, vão ser infectadas, mas não vão ter sintomas. Vão ter uma infecção muito leve, muito rápida e, portanto, vão se tornar imunes. O risco de infectarem outras pessoas é baixo. Existe esse risco, mas podemos pedir ainda mais um pouco de contenção dessas crianças relativamente aos seus avós, às pessoas que estão em grupos de elevado risco, mas começar com elas, porque elas vão ficar imunes muito rapidamente. E depois de serem imunes, são destruidores, são heróis antivírus, que vão andar a destruir os vírus que existem no ambiente e que já não vão estar disponíveis para infectar mais ninguém. E além disso, o efeito social é que a retoma da atividade econômica dos empregos vai depender dessas crianças terem cuidado ou terem creches, terem escola primária. Os pais não vão poder trabalhar de forma significativa enquanto tiverem crianças de seis, sete, oito anos em casa. Portanto, do ponto de vista da abertura próxima, faz mais sentido abrir as creches, abrir as escolas primárias e adiar as escolas secundárias para mais tarde.