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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Nesta edição contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Boa noite. Vamos começar pelos ciberataques que atingiram aplicações de alerta da Ucrânia e da Rússia e que transmitiram às populações falsos avisos sobre ameaças nucleares e químicas, ataques aéreos e até confrontos urbanos. Pergunto-lhe se estamos aqui perante uma nova fase desta guerra e também quem é que poderá ter levado a cabo estes ataques.

Olá, Lara, boa noite e boa noite aos ouvintes da Rádio Observador. Eu não diria tanto uma nova fase, mas diria que é um intensificar ou uma diversificação de estratégia por parte da Rússia, eventualmente, isto sendo o pressuposto que seriam os eventuais perpetradores do ataque, que têm obviamente diversificado as suas formas de ataque e de estratégias de ataque. E portanto, há aqui, para além disso, uma dimensão que vem do facto de a Ucrânia estar neste momento, enfim, refém talvez seja uma palavra demasiado forte, mas de ter ficado fragilizada naquilo que foi o acesso que teve a alguns sistemas de informação da parte americana. Tivemos aquela suspensão do Starlink e isso vem, pondo em evidência, de certa maneira, a fragilidade que a Ucrânia está a enfrentar neste momento, por força de alguma indecisão por parte da administração americana e pela incapacidade que a Europa ainda tem de, certa maneira, substituir aquilo que eram as capacidades americanas de apoio à Ucrânia. E, portanto, esta é uma nova forma de eventualmente provocar o caos na Ucrânia e com isso ter efeitos muito significativos naquilo que é a capacidade de defesa da sua população e de criar dúvida e incerteza sobre a capacidade da Ucrânia de proceder à defesa da sua população e das pessoas que ali residem.

Entretanto, os Estados Unidos apoiam o restabelecimento da venda de gás russo à Europa através da Ucrânia. É uma notícia que é avançada pelo The Wall Street Journal, que acrescenta que esta medida faria parte das negociações destinadas a garantir um cessar-fogo energético antes do inverno. Isto faz parte da agenda de Donald Trump para ir levantando as sanções económicas a Moscovo e também que efeitos é que este restabelecimento poderia ter na Europa?

Essa é a parte dramática de toda a questão e eu julgo que é aquela que também tem levado a uma primeira vaga de insurreição, até mesmo dentro do grupo de apoiantes de Donald Trump. Nós vimos já algumas declarações mais fortes de alguns dirigentes europeus também, que começam a perder a paciência ou, de certa maneira, a capacidade de justificar aquilo que são as ações de Donald Trump e a verem cada vez mais o presidente americano a tomar o partido de uma das partes, e neste caso, invariavelmente, da parte russa. E eu acho que isso é cada vez mais evidente, não só pelo que têm sido as declarações dos seus enviados. Eu recordo mais uma vez que o Witkoff chamou humanista a Vladimir Putin, mas também aquilo que Donald Trump tem reiterado como sendo as consequências para o fim da guerra, honrando sempre a Ucrânia como sendo o principal empecilho a que essa paz seja alcançada e tendo feito esse anúncio, que de facto se se concretizar, tem consequências muito graves, não só do ponto de vista das relações diplomáticas, das relações de confiança entre os dois lados do Atlântico, porque isso obviamente rompe por completo aquilo que é um pacto de aliança entre os dois lados, de fazer um estrangulamento à economia russa e com isso limitar a capacidade de Vladimir Putin de continuar a alimentar a sua indústria militar e a sua máquina de guerra, e por outro lado, porque para além de romper esse pacto, dá meios diretos, sobretudo financeiros, para que Vladimir Putin possa perpetuar a guerra, sobretudo numa altura que é sempre a altura mais delicada do ponto de vista defensivo para a Ucrânia, que é o período de inverno, em que as operações militares são cada vez mais exigentes e mais difíceis, e portanto, permitir que a Rússia recupere economicamente através do alívio destas sanções, tem este duplo impacto e efeito, que eu acho que é absolutamente condenável, e para o qual os líderes europeus não podem continuar a fazer vista grossa e a achar que é só um devaneio passageiro, porque ele se tem tornado cada vez mais sistemático e consistente.

Vamos olhar agora também para o Irão, que propõe um plano para reabrir o Estreito de Hormuz em dois dias, caso os Estados Unidos aceitem as exigências iranianas. Ao fim de vários meses, várias tentativas de negociação, o impasse continua no estreito de Hormuz. Prevê que o cenário se mantenha assim por tempo indeterminado?

É difícil, sobretudo porque nós neste momento estamos perante um cenário que do ponto de vista político pode ser catastrófico para Donald Trump. Nós estamos a pouco menos de 24 horas das eleições intercalares americanas. Eu julgo que pela madrugada de amanhã conheceremos os resultados e teremos a confirmação daquilo que é a expectativa mais provável de que os democratas possam recuperar as duas Câmaras E isto num cenário em que a previsibilidade fosse um fator, em que nós pudéssemos contar com o presidente americano, em quem se pudesse confiar, em quem se pudessem antecipar comportamentos políticos, não seria uma situação desastrosa ou catastrófica. Num cenário em que o presidente Donald Trump passa a haver um contrapeso político, por via do Congresso, das suas ações executivas, podemos estar perante o início de uma nova fase, porque serão ainda dois anos sensivelmente de mandato de Donald Trump, em que ele não se sabe exatamente o que fará, se aceitará as restrições que eventualmente um Congresso dominado pelos democratas poderá impor ou se tentará fazer um double down, uma duplicação de esforços livres em que entra em roda livre e acaba por tomar decisões que são ainda mais difíceis de prever ou que são ainda mais, de certa maneira, fugindo ao padrão daquilo que seria habitual num presidente americano. E isso pode levar a que a reação, e é um pouco isso que Netanyahu também tem tentado insistir, numa fase em que ainda Donald Trump pode fazer isso com a maioria que tem neste momento no Congresso, é intensificar as suas ações militares no Irão antes de que esses resultados sejam confirmados e os novos congressistas entrem em funções no início do próximo ano. Há um cenário que não podemos descartar de que os Estados Unidos intensifiquem a sua ação contra o Irão e possam ter uma ação mais dura e agressiva nos próximos dias.

Para terminar, vamos ainda olhar para Israel. O partido Likud, de Benjamin Netanyahu, pediu à Comissão Central Eleitoral do país o adiamento da certificação das eleições por suspeitas de interferência estrangeira, que terá provocado o aumento da participação da população israelita árabe. O presidente da Comissão rejeitou este pedido. Pergunto-lhe como é que olha para este pedido do partido de Netanyahu.

Eu diria que, para além dessa rejeição da parte da Comissão de Eleições, também foi muito importante ter havido a negação, de forma categórica, por parte do Qatar e dos países que tinham sido acusados por Netanyahu de terem feito qualquer tipo de interferência no ato eleitoral em Israel. Eu acho que isso faz parte de uma estratégia mais ampla do primeiro-ministro israelita em funções, porque os resultados não confirmaram nenhuma nova maioria. Obviamente, o Likud continua a ser o partido mais votado e o bloco liderado por Yair Lapid acaba por ter mais votos e a única possibilidade de formação de um governo acaba por ser se houver uma aceitação da parte dos partidos palestinianos, árabes, numa futura coligação de governo. Como isso é difícil, mesmo no bloco de Yair Lapid, porque do ponto de vista da política externa não há uma diferença assim tão significativa em relação a Netanyahu, eu acho que o primeiro-ministro israelita joga com o calendário e com o arrastar deste processo no tempo, porque a impossibilidade de formação do novo governo tem aqui um efeito duplo. Primeiro, permite-lhe continuar no poder enquanto primeiro-ministro interino e continua a ser o primeiro-ministro em exercício de funções. E segundo, ao fim dos 40 ou 41 dias, não tenho agora de forma precisa, o presidente é obrigado a convocar novas eleições se não houver a formação de uma coligação. E aquilo que Netanyahu conta é que a situação de instabilidade que essas eleições provocaram lhe permita reforçar-se eleitoralmente numa nova eleição, contando também com um fator adicional, que é a mobilização de uma parte da diáspora que se mobilizou para votar nessas eleições em oposição a Netanyahu, terá dificuldade em fazê-lo uma segunda vez. E isso permitirá que os resultados, eventualmente, de uma segunda eleição neste contexto, com estas circunstâncias, possam favorecer o partido Likud e eventualmente voltar a garantir uma nova continuidade no poder por parte de Benjamin Netanyahu.

Chegamos ao final do nosso tempo. Hoje contamos com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. Muito obrigada pela sua análise.

Foi um gosto. Muito obrigado, Lara.

O Gabinete de Guerra fica por aqui e está de regresso amanhã.