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O que está a acontecer nas creches é que, principalmente nesta última semana, têm vindo a aumentar cada vez mais os casos de Covid entre crianças mais jovens, que antes não acontecia tanto. Crianças pequenas, estamos a falar mesmo de crianças em creche, com um ano e dois anos. E as respetivas equipas pedagógicas, educadoras e auxiliares também estão a ficar infetadas com esta situação, com o Covid. E o que acontece é que realmente se torna difícil manter salas abertas quando a equipa, as duas pessoas, estão em isolamento e provavelmente mais casos ainda dentro da instituição podem estar em isolamento. Ou seja, gerir salas desta maneira está-se a tornar muito difícil. As instituições estão a recorrer a vários meios. Posso dizer que há muitas que estão a optar por distribuir os alunos que não estão infetados e que podem continuar a frequentar as creches e jardins de infância, estão a distribuí-los por outras salas, coisa que se pode fazer, por exemplo, a nível do jardim de infância, que são crianças com três, quatro e cinco anos, porque a própria lei permite juntar crianças de três, quatro e cinco anos, mas coisa que já não pode acontecer, por exemplo, a nível das creches, porque a própria legislação também não permite que se junte, por exemplo, um bebê que está no berçário com crianças de um ano ou dois anos. De todo, isso não é possível, não é viável. E aqui começam também já as grandes dificuldades a nível da creche. Como é que nós gerimos uma situação em que o educador e auxiliar não podem estar na sala porque estão em isolamento? O que nós fazemos com estas crianças? Uma das situações que muitas instituições estão a tentar resolver é a contratação de mais pessoas para as instituições para realmente fazer face às pessoas que estão a faltar.
E está a ser fácil?
Está a ser dificílimo. Aliás, nós nunca imaginámos como está a ser difícil. As pessoas que estão desempregadas, novamente, claro, são essas que nós vamos recorrer, geralmente não querem interromper, e também é compreensível, o fundo de desemprego por sete dias, porque repare, um isolamento neste momento, normalmente é por sete dias. E quando nós contratamos alguém para substituir alguém que está doente, será pelo tempo em que a pessoa está ausente. E atualmente está a ser extremamente difícil conseguir profissionais, sejam auxiliares, sejam educadores ou professores, que venham trabalhar para uma instituição por sete dias. Nós não podemos prometer mais tempo, porque nós não sabemos se é mais. E as pessoas não querem realmente dar baixa do seu fundo de desemprego, de suspender o subsídio de desemprego, porque depois para reativar demora muito tempo, às vezes está um mês até conseguirem reativar o fundo de desemprego. E as pessoas não querem, não aceitam por tão pouco tempo. Por isso, a esse nível de procura, nós temos grandes dificuldades neste momento em conseguir profissionais no mercado que queiram vir trabalhar conosco por estes períodos tão curtos.
E há creches que estejam nesta altura em risco de fechar ou mesmo que já tenham fechado, ou não?
Nós temos conhecimento de creches que já fecharam algumas salas. A instituição inteira, não. Não temos conhecimento que tivessem fechado instituições por completo. Há sempre salas que se conseguem manter abertas, mas há outras salas que não se conseguem manter abertas por esta situação. E temos relatos de norte a sul do país. Posso dizer que nós temos informação de instituições aqui perto de Lisboa, Odivelas, Oeiras, no Seixal. Temos informações também lá de cima do norte, na zona de Gondomar, do Porto, instituições que realmente estão a começar a fechar as salas porque não conseguem arranjar pessoal, recursos humanos, para conseguirem realmente manter as salas abertas e ficarem com as crianças em segurança. E isso realmente está a ser uma grande dificuldade. E é por essa razão que nós temos estado a pedir ao governo, à Segurança Social, neste caso em concreto, que é a tutela das creches, que realmente nos apoie neste sentido. Até porque já existe uma solução atualmente, que foi implementada logo no início, no primeiro confinamento, pelo governo. Foi criada uma portaria, a Portaria 82-C, que criou uma medida específica de apoio ao reforço de emergência de equipamentos sociais, que são as creches, e de saúde, porque se entendeu que com estas situações do Covid, das infecções e dos isolamentos, começaram a escassar os recursos dentro destes equipamentos, sejam de saúde, sejam os sociais, as chamadas creches. Só que infelizmente este apoio foi exclusivo para instituições públicas e instituições particulares do setor solidário. Não abrangeu as instituições particulares que não têm financiamento do Estado. Essas ficaram de fora e por isso essas não têm a possibilidade de recorrer a este apoio para contratar pessoas adicionais. Ou seja, a ideia é ter pessoas de reserva, ter mais uma ou duas pessoas dentro da instituição que pudesse, nestas alturas críticas, funcionar como uma solução e apoiar as salas que estão desprotegidas neste momento. E estamos a falar de um apoio que é apenas por um a três meses, ou seja, é um apoio muito limitado no tempo. É um apoio que realmente serve só para resolver uma situação pontual, que é aquela que nós estamos a viver agora, até porque a expectativa que nós temos é que realmente o pico dentro de algumas semanas acabe e comece realmente a descer e que a situação comece a voltar a normalizar. Por isso, neste momento em que a situação está-se a complicar muito, era extremamente importante que esse apoio, que já existe, já está legislado, já está a funcionar, é uma ferramenta que já existe, pudesse ser alargada também às instituições particulares que não têm financiamento do Estado, mas que vivem exatamente as mesmas situações e que vão ter repercussões, naturalmente, nas crianças e nas famílias se tiverem que fechar as salas.
E agora, vocês fazem esta carta aberta. Para já, há alguma resposta por parte da tutela? Já foram contactados? Há alguma situação?
Não, não fomos contactados. Esta carta aberta só é aberta por uma razão, é porque nós estamos em maré de eleições. Agora as atenções, o foco, naturalmente, está todo virado para as eleições e temos muito receio, muito medo, que realmente não sejamos ouvidos e que não deem atenção a esta situação, que é uma situação urgente e precisa de uma atenção imediata. E essa é a nossa grande preocupação e por isso é que fizemos uma carta aberta, além de termos também contactado as instâncias da tutela. Estamos a fazer uma carta aberta precisamente para tornar conhecido, público, para esta situação ficar bem conhecida e alguém realmente se interessar por resolver esta situação, porque isto está a afetar realmente muitas pessoas e estamos a falar de famílias, de crianças e até as entidades patronais, que acabam por ter uma taxa de absentismo mais elevada se as famílias, os pais tiverem que faltar ao trabalho.