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Fizeram uma pequena análise do que foi o efeito da denúncia do Chega, de que a comitiva teria sido recebida com tiros. Apesar de haver um fact-checking a seguir, isso não retrocede o que aconteceu.
Sim. Começando pelo princípio, nós estamos a fazer este trabalho em conjunto com a Lusa para analisar aquilo que acontece nas redes sociais a propósito das eleições e dentro disso, também vamos focar na desinformação e nos episódios de desinformação. E é nesse contexto que surge isso, porque o que aconteceu foi que houve aquele episódio que foi prontamente, quase imediatamente, divulgado nas redes sociais por vários pontos. Depois foi também noticiado por alguns meios de comunicação social, depois foi desmentido pelo comando da PSP da região e depois foi noticiado esse desmentido. Portanto, há aqui todo um processo e todas estas fases do processo têm repercussões nas redes sociais. O que nós fizemos foi tentar medir o impacto das publicações que foram feitas em cada uma das partes. E a conclusão principal, que é a que está nesse despacho que a Lusa deve ter divulgado, é que o alcance daquilo que foi exposto antes do desmentido é superior ao alcance daquilo que foi exposto depois do desmentido, pelo menos até à altura que nós deixámos de coletar os dados. Mas isso, como eu ia dizer há pouco, é um fenómeno que não é novo, ou seja, é muito frequente os casos de desinformação terem muito impacto antes de serem denunciados ou serem desmentidos, e acabarem por ter menos impacto do que tiveram anteriormente, depois que foram desmentidos. É uma característica conhecida da desinformação, que tem sido detetada em muitas outras situações, não só nesta.
De certa forma, apesar de haver este desmentir e até um fact-checking, ele não é o suficiente para colmatar a primeira impressão que as pessoas ficam, que é daquela desinformação.
A única coisa, e isto é importante dizer até do ponto de vista de precaução científica, que nós podemos medir é se as pessoas contactaram ou não com o conteúdo, ou seja, se prestaram atenção ou não, se o viram ou não o viram, se contactaram com ele. Agora, que efeito é que isso tem nas pessoas, nós não conseguimos medir. E essa é a parte mais complicada. Portanto, o que nós podemos dizer é que de facto teve mais alcance nesse sentido, ou seja, foi visto por mais gente, houve mais pessoas a prestar-lhe atenção enquanto era uma informação não desmentida do que depois de ser desmentida. Isso é o que podemos retirar dessa análise, deste caso desinformativo em particular. O que nós sublinhamos também no estudo, e isso deve ser dito, porque você não perguntou, mas acho que está lá escrito, é que em grande parte foram contas e indivíduos ligados ao partido Chega, o que estava em causa durante o episódio, que mais contribuíram para a divulgação da situação enquanto ela não foi desmentida. Isso é uma coisa a ter em conta. Outra coisa que é ter em conta também, já agora, só para esclarecer tudo e não ficar nada por dizer, é que também houve um contributo, embora residual, dos meios de comunicação social que noticiaram antes do desmentido, mesmo que tenham noticiado depois do desmentido. Houve alguns meios de comunicação social que noticiaram antes do desmentido e depois do desmentido. Isto também é muito frequente em termos de desinformação, ou seja, os meios de comunicação social publicarem imediatamente alguma coisa sobre um determinado episódio, que depois se vem a saber que foi desmentido, mas o primeiro efeito daquela divulgação já foi feito. Isto também aconteceu aqui, embora com um impacto bastante menor daquele impacto que tiveram, por exemplo, as contas ligadas ao partido Chega, as contas coletivas e individuais ligadas ao partido Chega. Foram aquelas que tiveram mais impacto na divulgação da parte desinformativa.
Já não é a primeira vez que o Media Lab desenvolve estes estudos que acompanham um pouco que efeitos é que as redes têm durante as eleições, até porque nos últimos anos temos assistido a vários atos eleitorais. Não é uma amostra completa e a campanha está a começar hoje, mas sentiu uma diferença na presença das redes sociais a nível político?
Eu primeiro queria esclarecer que não é sequer uma amostra, ou seja, nem completa, nem incompleta. Não é um critério amostral que está aqui em causa. Nós apenas podemos observar aquilo que são as reações das pessoas que decidem reagir. Nem todas estão em todas as redes sociais, primeiro de tudo, e mesmo as que estão nas redes sociais, nós estamos a observar, nem todas reagem. Nós não podemos tomar as reações nas redes sociais como um indicador se as pessoas gostam ou não gostam do conteúdo, se tendem a votar ou não votar naquele partido, gostam ou não gostam daquele partido. Não é uma amostra representativa, nem sequer é uma amostra que está aqui em causa. Ou seja, é apenas os conteúdos que mereceram mais ou menos atenção por parte das pessoas. Isso é que está aqui em causa. E é a única coisa que podemos medir, portanto, eu queria só fazer este disclaimer metodológico, porque é importante. Agora, em termos de mudanças, nós de facto fazemos este tipo de análises já há muito tempo, ou seja, em quase todas as eleições temos feito, sempre com uma metodologia que não é igual, mas é semelhante, digamos assim, que é exatamente olhar para o alcance em termos de quantas pessoas terão visto um determinado conteúdo ou quantas pessoas terão contactado com ele, ou seja, tendo tido uma interação com esse conteúdo, um like, um comentário, uma partilha. Ou seja, que signifique que as pessoas prestaram atenção ao conteúdo. Essa tem sido a metodologia que temos usado em quase todas as eleições E que reproduziu-se nesta eleição novamente. Neste caso, uma das coisas que notámos, de facto, e temos escrito isso já em algumas partes dos relatórios, foi uma diminuição da importância do Facebook em termos da atenção que as pessoas prestam aos conteúdos políticos nessa plataforma, e um aumento da atenção que as pessoas dão aos conteúdos políticos no Instagram e no TikTok. Sendo que no TikTok ainda poucos políticos portugueses apostam. Por isso, a rede que neste momento, ou nesta eleição até o momento, tem estado a dar mais importância ou mais alcance aos candidatos políticos, e que os tem estado a dar mais atenção aos seus conteúdos, tem sido de facto o Instagram. E isso é uma diferença em relação a edições anteriores em que o Facebook tendia a ser dominante desse ponto de vista.
Até em relação às eleições de 2022?
Sim, em relação a quase todas as que nós monitorizámos antes, mesmo as de 2022, em que o Facebook ainda era uma rede bastante importante em termos de atenção. O que se nota agora no Facebook, pode ser em parte desinteresse das pessoas pela plataforma, como pode ser em parte influência do algoritmo do Facebook privilegiar menos os conteúdos noticiosos, os conteúdos políticos, pode acontecer também. Nós temos noção que isso poderá ter acontecido. O efeito é que os conteúdos políticos têm menos relevância no Facebook e, portanto, são menos vistos, logo as pessoas prestam-lhes menos atenção. Isso pode ser porque as pessoas não gostam desse tipo de conteúdos no Facebook, preferem outro tipo de conteúdos, ou porque o algoritmo do Facebook mostra menos esse tipo de conteúdos. As duas coisas são possíveis, mas temos notado, de facto, essa diferença. A questão do Instagram tem muito a ver com o facto de, mesmo para outro tipo de conteúdo não político, o Instagram ser uma rede que normalmente tem aquilo que nós chamamos taxas de interação superiores ao Facebook, e isso acaba por beneficiar todos os conteúdos que lá estão, incluindo os conteúdos políticos.