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No fundo, o que o vosso comunicado diz é que estas medidas de restrição estão a fazer pior, não é?

Bom dia, obrigado pela oportunidade. Realmente, é preciso esclarecer que o retalho, em geral, tem defendido sempre a saúde pública com medidas, impondo restrições, cumprindo todas as indicações da Direção-Geral de Saúde. Agora, para nós, torna-se cada vez mais difícil, também com o aproximar do Natal e com a vida que as pessoas têm durante a semana, manter a serenidade com os horários que temos tido ao fim de semana e com as longas filas de espera que, naturalmente, as restrições dos horários ao sábado e ao domingo têm imposto. Nós temos tido o cuidado e temos aplicado todas as garantias de que são cumpridos os rácios dentro das lojas. O rácio, neste momento, de cinco pessoas por 100 metros quadrados não tem paralelo na Europa. E aliado à restrição horária, está a incentivar aglomerados de pessoas à porta dos espaços comerciais. E é isso que nós, definitivamente, com este comunicado, estamos a dizer. É que não faz sentido continuar com estas restrições horárias e manter um rácio de cinco pessoas por 100 metros quadrados, porque tudo isto só está a convidar à existência de aglomerados de pessoas, longas filas, longas esperas à porta dos espaços comerciais, quando lá dentro há segurança, há distância, há cumprimento das regras, há higienização dos equipamentos e há uma regulação que podia perfeitamente acomodar um rácio diferente. Temos a certeza e sabemos que noutros países como Espanha, como França, que têm sido muito restritivos, mas nunca têm limitado, por exemplo, o retalho da compra dos bens essenciais, e têm o rácio que é o dobro de Portugal. Nós conseguimos manter as pessoas dentro das lojas em segurança, o que não conseguimos é garantir que os aglomerados de pessoas à porta dos espaços comerciais sejam em segurança, porque aí nós não controlamos. E é por isso este nosso grito de alerta para, na semana anterior ao Natal, e com a perspetiva da semana anterior à passagem de ano, que mesmo com as limitações dos encontros de Natal, que nós respeitamos, não conseguimos entender esta conjugação de limitação de horários, limitação de um rácio dentro da loja e, se quiser, não podemos deixar também de dizer que já não faz qualquer sentido a limitação da venda de álcool depois das 20h. Num país onde as pessoas, de facto, têm tentado cumprir as indicações do governo e que o retalho tem sido um aliado do governo para o cumprimento das regras, ter estes três fatores ainda em vigor desta maneira, é um convite para que não haja, de facto, saúde pública que aguente este tipo de medidas. Apelamos para que haja uma revisão imediata dos horários, uma revisão imediata do rácio do número de pessoas em loja e uma abolição definitiva de uma medida que não tem qualquer interesse para a saúde pública, pelo contrário, só tem conduzido ao constrangimento, que é a proibição da venda de álcool depois das 20h.

Esta questão do rácio do número de pessoas nas lojas não é uma questão nova. Já se tem falado nisto, de que Portugal tem um rácio mais baixo em comparação com outros países da Europa. Este pedido já vem sendo feito ao longo dos últimos meses. Nunca houve abertura da parte da DGS, nem do governo, para rever este número?

Olhe, nós temos insistido com o governo nesta matéria. A verdade é que em setembro, numa reunião do Conselho de Ministros, este assunto estava em cima da mesa e nós tínhamos indicações muito claras de que ia ser revisto, precisamente para evitar os aglomerados de pessoas à porta dos espaços comerciais, mas aparentemente, no Conselho de Ministros de setembro, houve um volte face e houve uma decisão política de não alterar este rácio. Nós não entendemos esta mudança.

Não houve justificação para isso?

Não há justificação. E mais, nas interações que temos tido com a Direção-Geral de Saúde, foi-nos reconhecido que realmente o rácio não fazia sentido e que a Direção-Geral de Saúde estaria na disponibilidade de dar um parecer positivo para o aumento do rácio, caso fosse questionada. Nós temos tido várias interações com o governo, com quem nós temos colaborado imenso, e particularmente com o Ministério da Economia, que tem sido bastante sensível aos nossos argumentos, mas achamos que a decisão está, provavelmente, no senhor primeiro-ministro, que nós respeitamos, mas apelamos para que tenha um conhecimento mais específico do que se está a passar para poder agir E para poder alterar essa sua percepção. É importante, toda a gente está a verificar isso durante os fins de semana. Toda a gente percebe que durante a semana as limitações da própria vida das pessoas e este temporal que tem assolado Portugal, também é impeditivo de as pessoas concretizarem as suas compras durante a semana. E, portanto, esta conjugação destes três factores está a provocar mais constrangimentos do que soluções no combate à pandemia. O retalho, quer o retalho alimentar, quer o retalho especializado, têm sido exemplares no combate à pandemia, no cumprimento das regras, na antecipação até de muitas das regras que a Direção-Geral de Saúde tem vindo a sugerir. E, portanto, não entendemos porque os espaços comerciais são espaços livres do vírus e da Covid. Todas as indicações e todos os estudos científicos têm referido isso. Eu não sei quantas mais reuniões do Infarmed serão precisas para esclarecer o poder político sobre a necessidade de fazer estas alterações e de acomodar o equilíbrio entre a saúde pública e a economia, porque estamos, de facto, a prejudicar muitos empregos com este tipo de medidas e que não contribuem definitivamente para a melhoria da saúde pública. Antes, neste momento, tal como estão, estão a prejudicar a saúde pública com os aglomerados que se estão a juntar à porta dos espaços comerciais, porque as pessoas têm que fazer as suas compras, têm que abastecer as suas casas e se não o conseguem fazer durante a semana, têm que o fazer ao fim de semana. Com estas restrições, torna-se muito difícil, e a uma semana do Natal, continuarmos com as operações como deviam ser: equilibradas, em segurança e com os olhos neste virar de página que é preciso fazer para combater a pandemia.

Pegando nessa questão do desemprego, não sei se têm números em termos de encerramentos, possivelmente, quais são as consequências para este setor? Quais têm sido as consequências destas restrições para o setor?

Olhe, eu não lhe falaria neste momento em desemprego, falaria em não contratação, porque como sabe, no período do Natal há uma procura enorme por trabalho, que é crescido nesta altura do Natal, e a maioria das empresas com estas restrições, sobretudo ao fim de semana, não conseguiram organizar-se para contratar mais pessoas e têm tido muitas dificuldades para organizar o próprio trabalho e a própria gestão dos colaboradores, que com duas tardes do fim de semana sem operações, facilmente se percebe os constrangimentos que isso trouxe em termos de contratações, em termos de gestão dos horários de trabalho. Nós queremos manter e queremos crescer em todas as áreas do setor do retalho, quer do alimentar, quer do especializado, mas a verdade é que tardamos em recuperar e em termos as operações equilibradas, de modo a que possamos sair desta crise e levantarmo-nos e manter o nível de criação de emprego que temos mantido nos últimos anos. Estamos a falar de um setor que representa mais de 130 mil colaboradores. Temos tido todos os anos, nos últimos quatro anos, crescimento líquido de emprego. Eu temo que este ano os números não sejam tão favoráveis, mas aguardamos serenamente e o que vamos é fazer tudo para manter os postos de trabalho, mesmo nestas condições difíceis para toda a gente.