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Em directo está agora connosco, neste jornal, o bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues. Convidámo-lo para comentar também os números deste estudo, que é apresentado por esta entidade da Comissão Europeia. Muito boa tarde, Francisco Miranda Rodrigues. Começo por lhe perguntar de uma forma global se fica ou não surpreendido com estes números e depois também em maior detalhe com os números e com esta subida do caso português.
Eu não posso dizer que fique surpreendido. Antes de mais, há que dizer que o que está aqui em causa, quando se fala de solidão, nós estamos a falar de uma perceção que as pessoas que o relatam. É uma perceção subjetiva, que tem em conta a diferença entre aquilo que as pessoas desejariam que fossem as suas relações, a sua rede de relações, e aquilo que acabam por considerar que têm. E depois, isso é vivido negativamente e com insatisfação. E que o maior problema decorre não de que nós nos possamos sentir desta forma de vez em quando, quem é que não sente essa solidão de vez em quando, mas sim, a solidão mais crónica. E provavelmente aquilo que está a acontecer aqui, perante aquilo que tem sido a situação pandémica, é o já se poder constatar efeitos desta solidão mais crónica, que particularmente neste caso, acaba por aparecer mais destacada, com crescimento mais acentuado nos jovens adultos.
Mas isso tem que ver também com uma questão de expectativas?
Sim, claramente está em causa uma expectativa, é uma perceção e, portanto, isso vai acabar por variar de acordo com a expectativa. É uma perceção com base em expectativas, de facto. Agora, o que nós sabemos também é que jovens adultos estão perante, habitualmente, determinadas tarefas que esta pandemia pôs em causa, por exemplo, tarefas da autonomização. A ida, no caso daqueles que vão para a universidade ou daqueles que começam a trabalhar, ou daqueles que vão viver para fora de casa, começam um processo nesse sentido, ou de um processo de relacionamento a dois. São processos que muitas vezes ficaram adiados e que, portanto, acabam por se refletir também nesta situação. Depois também há outra coisa que o estudo diz: é que estes efeitos não são exatamente iguais para todos, variam particularmente com as condições económicas.
E já agora, nesse âmbito das condições económicas, o que é que, de forma mais pormenorizada, nos diz este estudo? Quem tem condições económicas e socioeconómicas mais frágeis acaba por sentir mais a solidão ou o contrário?
É uma vulnerabilidade quando não se pode recorrer a melhores condições do ponto de vista socioeconómico, e portanto, sofre-se mais.
A questão, por exemplo, de não se ter um computador em casa com uma ligação à internet para partilhar uma chamada de vídeo online, por exemplo, pode, de alguma forma, aumentar também essa perceção de solidão num determinado momento?
Poder, pode. Nós não temos dados que nos apontem para tantos detalhes, mas a verdade é que pode, a partir do momento em que uma das coisas que nós devemos fazer nesta situação, e aliás, a Ordem dos Psicólogos até foi uma das recomendações que fez, é que o isolamento físico não tinha que querer dizer isolamento social. Portanto, o distanciamento físico não tinha que querer dizer distanciamento social. E por isso, o estar em contato mesmo que mais online, mais à distância, seria uma forma de atenuar isto. Agora, também se sabe, e o estudo também aponta para isso, nós sabemos que existe um impacto muito específico daquilo que é o relacionamento face a face. E portanto, o relacionamento face a face é algo que é importante retomar rapidamente. Para além de que existem outros determinantes que são muito importantes. Falámos aqui desta questão socioeconómica e, portanto, coisas como a pobreza existente ou a precariedade, nomeadamente os mais jovens, o acesso ao trabalho o mais rapidamente possível, certamente que atenuaria, é algo em que se encontra alguma correlação, para além de coisas como a literacia, mais uma vez, o nós percebermos o que é que está a passar conosco nesta matéria em termos de literacia de saúde psicológica e, portanto, perceber o que é que estamos a sentir, o que é que podemos esperar destas situações, é importante. A educação em si e o desenvolvimento das competências socioemocionais que fazem de nós, ou podem fazer de nós, mais resilientes ao longo da vida a situações como esta que estamos agora a passar. O tal acesso à saúde, de uma forma geral, se nós temos acesso a meios que nos podem dar um apoio quando estamos mais vulneráveis, isso também melhora a nossa situação num contexto destes. E volto ao ponto de partida, a questão do contato social. Nós precisamos, de facto, desse contato social, preferencialmente face a face, e mesmo que tenhamos que estar perante determinados cuidados sanitários, é importante que se possam restabelecer o mais rapidamente possível estas relações, porque a sua ausência deixa marcas. E a solidão tem consequências graves se se vier a transformar, de facto, em termos de solidão mais crónica, porque a solidão em si pode matar.