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Agora em direto neste jornal das 20:00 da Rádio Observador, o consultor político, especialista em comunicação, Luís Paixão Martins. Ele que foi o responsável pela campanha que levou à maioria absoluta de António Costa. Luís Paixão Martins, bom dia. Obrigada pela disponibilidade. Sabemos como a política portuguesa surpreende. Será que Marcelo Rebelo de Sousa poderá estar neste momento a considerar a hipótese de não convocar eleições antecipadas? Parece-lhe que é um cenário possível?
Sim, neste momento há um grande dilema perante o presidente da República, se é confirmar que o nosso calendário político é determinado por uma operação da Procuradoria-Geral da República ou se espera para outro momento. Esses dois cenários são completamente viáveis. Segundo me dizem, há uma lista de nomes que foi proposta ao presidente da República com possíveis aquilo a que podemos chamar senadores, pessoas de uma geração dos 60, 70, 50 anos, e que esse cenário pode ser considerado em vez de haver imediatamente eleições. O presidente da República tinha scenarizado recentemente a sua preocupação com a possibilidade de nós irmos iniciar um conjunto de ciclos curtos da vida política e, de facto, a convocatória de eleições antecipadas desta maneira tão inopinada poderá confirmar essa teoria em relação à qual ele estava preocupado.
Como é que Marcelo pode aferir, e o Luís Paixão Martins é a pessoa que tem mais falado da forma como as sondagens nos mostram muito pouco sobre aquilo que pode ser o futuro. Como é que um presidente da República pode avaliar, nomeadamente, a duração dos ciclos políticos? Será indo comer um gelado ou passeando pelas ruas da cidade?
É capaz disso. O que acontece com as sondagens é que neste momento é completamente imprevisível o desfecho de um resultado eleitoral.
E tudo o que temos visto, as sondagens não nos mostram nada do que é a realidade atual.
Mesmo quando em situações normais, é difícil que o façam. Neste caso, agora, por exemplo, nem sequer se sabe quem são os candidatos. No caso, por exemplo, do Partido Socialista. No caso do PSD, Luís Montenegro, naturalmente, apareceu ontem já com a sua disponibilidade para ser primeiro-ministro. Mas aí, de qualquer forma, a preocupação do presidente da República deve ser a de que havendo eleições em cima de um processo como este, a votação do Chega será exponenciada e, portanto, inclusive pode haver uma proximidade de resultados entre o Chega e o PSD. No caso da esquerda, no caso do Partido Socialista, neste momento o Partido Socialista perdeu o seu maior ativo, de longe. Não há qualquer comparação entre António Costa, do ponto de vista de ativo político, e um eventual seu sucessor. E portanto, é de bom senso. Aliás, já aconteceu no passado com o presidente Jorge Sampaio, dar a possibilidade aos partidos de se reorganizarem em relação a este facto que, presumo eu, ninguém estaria à espera. As sondagens não só têm algumas dificuldades normais, mas neste caso, nem sequer podemos avaliar qual será a dinâmica dos próximos meses em relação ao movimento dos cidadãos, dos eleitores.
Há algum sucessor óbvio de António Costa? É Pedro Nuno Santos.
Sim, Pedro Nuno Santos é aquilo a que nós costumamos chamar o sucessor natural do partido, da organização. E desse ponto de vista, penso que não haverá alternativas em relação a isso. Conheço pessoas do Partido Socialista que podiam ser alternativas com mérito a Pedro Nuno Santos, que, no entanto, não querem ser o apoio. Portanto, a vida partidária traz-nos algumas surpresas, mas eu penso que a organização, o partido, está alinhada com a posição de Pedro Nuno Santos. O problema aí, como é evidente, é que Pedro Nuno Santos não é um herdeiro político de António Costa, ou seja, não há uma transferência, não só a nível pessoal, mas a nível político. Pedro Nuno Santos procurou sempre desviar-se da linha geral do partido, com posições um pouco mais à esquerda, abrangendo correntes de opinião diferentes daquelas que António Costa seguia. Nesse ponto de vista, Fernando Medina teria sido o sucessor mais natural para António Costa, aquilo a que podemos chamar o delfim, como foi na Câmara Municipal de Lisboa, mas penso que a sua derrota eleitoral em Lisboa, se ele tinha alguma hipótese de concitar o apoio dos eleitores dentro do Partido Socialista, que a sua derrota eleitoral em Lisboa, mesmo depois do bom desempenho que tem feito como Ministro das Finanças, o excluiu.
E nesse caso, Francisco Assis pode ter um perfil mais abrangente?
Aí nem consigo perceber. Sinceramente, nem consigo perceber essa alternativa, porque penso que é completamente um exercício individual de uma qualquer pessoa que lhe apeteceu indicar esse nome. Não estou a ver que haja aí qualquer ligação à realidade nessa proposta.
Luís Paixão Martins, referiu-se a António Costa como um ativo político. Hoje, António Costa não será mais um ativo tóxico?
Não, de maneira nenhuma. Há ali uma diferença muito grande. Há um comunicado assinado pelo gabinete de imprensa da Procuradoria-Geral da República, que tem um parágrafo que é, aliás, bastante dúbio. Ambíguo, os próprios tempos verbais não jogam bem uns com os outros, em que aparentemente o que se diz é que há uma referência feita por outras pessoas relativamente a um possível envolvimento de António Costa Perante isso, António Costa não podia fazer algo diferente do que demitir-se. O tempo irá mostrar se há alguma coisa de concreto em relação a ele, mas ainda ontem tivemos o exemplo de Eduardo Cabrita, cuja carreira política foi destruída e a reputação prejudicada por causa de um movimento relacionado com uma investigação, um acidente, um incidente. E ainda ontem soubemos que o Ministério Público nem sequer o iria levar a julgamento, nem sequer iria propor que ele fosse levado a julgamento. Portanto, temos um histórico infeliz de dias de vitória da Procuradoria Geral da República que se transformam em anos e anos de pesadelos, em que o desfecho é muito diferente daquele que parece ser no primeiro dia.
A relação do PS com a justiça não é fácil ao longo dos tempos. Parece que esta narrativa da teoria da cabala pode regressar. Ouvi-ma quando Ferro Rodrigues era líder do PS e houve o caso Casa Pia.
A teoria da conspiração não é a minha especialidade. Portanto, tenho dificuldade em acompanhar teorias da cabala. De qualquer forma, tem havido, de facto, uma sucessão de episódios do sistema judicial contra o Partido Socialista em momentos de grande dramatismo, inclusive. Eu, por acaso, no sábado passado, estive a jantar com o doutor Rui Rio, e o doutor Rui Rio disse-me que uma das mágoas que levava das suas frustrações enquanto foi dirigente político nacional, foi de não ter conseguido fazer uma reforma do sistema de justiça, porque ele acha que o sistema de justiça tem autonomia a mais. E que o doutor António Costa, que é o responsável, no fundo, por ele não ter conseguido, porque o doutor António Costa sempre manteve uma posição de dar a maior autonomia possível ao sistema de justiça. Nesse ponto de vista, se isto é um ataque do sistema de justiça ao Partido Socialista, ele é feito exatamente frente à pessoa que mais tem procurado defender a autonomia do sistema de justiça. Digamos que, neste momento, não só o doutor Ferro Rodrigues, mas também o engenheiro José Sócrates, certamente estão com um sorriso amarelo perante aquilo que está a acontecer ao doutor António Costa.
E António Costa, na sua opinião e por aquilo que conhece até do mundo político, tem futuro ainda? Ainda pode ter ambições políticas?
Eu penso que o doutor António Costa, neste momento, não está a pensar nisso. Só para estarmos sintonizados com isso. Eu acho que ele tem a possibilidade de um regresso à vida política, se assim o entender, quer a nível das instituições portuguesas, quer a nível das instituições europeias. Isso tem sido falado. Ele negou sempre esses cenários, até porque o calendário não o ajudava. Nem para o cargo de presidente do Conselho Europeu, porque ele tinha o mandato até 2026 como primeiro-ministro, nem para a candidatura de Presidente da República. Em relação à situação de Presidente da República, ele próprio diz que não pensa nisso, e diz já depois deste caso ter sido desencadeado. Portanto, não é uma suposição enquanto era primeiro-ministro, é já uma afirmação depois de ter sido primeiro-ministro. Portanto, eu penso que o tempo nos dirá se podemos contar com ele ou não. Ele tem ali, de qualquer forma, uma questão, se você quiser, Carla, pessoal, que é o facto de toda a vida ter sido um político.
Sim, é um político profissional.
A atividade dele é a política, muito raramente, muito episodicamente, é que ele se dedicou à advocacia e portanto sentirá dentro dele um impulso para certamente atividades políticas. Eventualmente, a tal situação a nível da União Europeia será uma hipótese. Isto se nas eleições de junho do próximo ano se confirmar mais ou menos aquele resultado que tem sido um hábito, que é a família de direita vencer as eleições europeias, a família socialista ficar em segundo lugar e haver uma espécie de ticket entre os dois partidos para a formação dos lugares de topo da União Europeia