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Parece ter uma relação, desde logo pelo tipo de explosivo que foi encontrado, ou o tipo de pacote que foi encontrado, que era um pacote com dispositivo incendiário, que parece ser em tudo semelhante. Está ainda a ser analisado pelos serviços especiais investigativos da polícia espanhola, mas parece em tudo ser semelhante àqueles que foram encontrados tanto nas instalações da fábrica de armamento instalada em Saragoça, das quais partiu grande parte do armamento que foi vendido à Ucrânia, nomeadamente armas antitanque, e aquela que foi encontrada, aliás, que explodiu e que chegou a ferir um diplomata ou um trabalhador da embaixada ucraniana em Madrid. Portanto, o dispositivo parece ser semelhante, número um. Número dois, é na mesma altura. Número três, por onde foi enviado, dá-nos a entender que faz parte de um padrão, porque esta base aérea em Torrejón tem várias coisas, tem também um campo aéreo civil, etc., mas lá dentro está o SatCen, ou o Centro de Satélites e de Análise de Dados de Satélites da União Europeia, que é essencialmente um conjunto de edifícios e de instituições que analisa as informações estratégicas de satélite da União Europeia e dá apoio a questões como missões humanitárias, proteção de infraestrutura crítica, análise das capacidades militares de outros países, busca por armas de destruição maciça e vigilância de segurança em geral, portanto, surveillance. E sendo um equipamento estratégico da União Europeia, do qual têm saído análises de satélite em apoio à NATO e em apoio ao que os aliados da União Europeia estão a fazer em relação à Ucrânia, partilhando até informações de satélite em tempo real, tanto os americanos como a União Europeia, faz sentido que esta bomba faça parte do mesmo padrão.
E que significado é que isto pode ter? Esta situação, de repente, em dois dias acontece três vezes. O que isto pode significar?
Bem, nós não temos ainda, obviamente, toda a informação, isso levará algum tempo. A boa notícia é que pelo menos um, eventualmente dois destes dispositivos foram encontrados sem terem explodido, ou seja, vai permitir uma análise forense do próprio dispositivo, e isso torna normalmente mais fácil descobrir quem está por trás da tentativa bombista. O que me parece importante entender é que não me parece, enfim, ou outros especialistas em segurança mais especializados nessa área poderão dizer melhor, mas não me parece que isto tenha sido o trabalho de um ator estatal, como por exemplo, os serviços de segurança de um país, nomeadamente a Rússia, mas poderia ser outro país. Parece muito mais o trabalho de alguém que não sendo um amador, porque conseguiu fazer três destes pacotes e enviá-los sem que eles explodissem antes de chegarem ao alvo, não é qualquer amador que consegue fazer. Portanto, alguém que claramente tem algum treino ou alguma experiência nisto, mas que não é diretamente o ataque de um Estado. E isso é uma questão preocupante, porque à partida, alguém que tivesse conhecimento de qual foi a fábrica de armamento cujo equipamento específico foi enviado para a Ucrânia e que tivesse conhecimento de onde estava situado o Centro de Análise de Informações Estratégicas de Satélite da União Europeia, indica algum trabalho de investigação, indica algum conhecimento, indica alguma experiência, alguma capacidade de planeamento. Portanto, o que nós podemos estar a ver é algum tipo de ator não estatal, individual ou em grupo, que ou está extraordinariamente radicalizado e pronto pra utilização da violência para chamar a atenção contra a participação da Espanha, neste caso em particular, tanto nas operações da NATO como nas operações da União Europeia em apoio à Ucrânia, e isso é grave, seja que alguém tenha sido radicalizado ou instruído para o fazer por alguém próximo do Kremlin. Não vejo muitos mais atores estratégicos que tivessem interesse em solicitar ou apoiar, ou inspirar este tipo de ataques, todos eles relacionados à Ucrânia, do que atores presentes no conflito. Portanto, ou alguém que esteja do lado das forças independentistas e separatistas na Ucrânia, que já estão em guerra com o governo central desde 2014, ou alguém próximo dos serviços de informações ou dos serviços militares russos, ou então, e isso é mais grave, alguém que nós temos visto uma radicalização muito grande online, muitas vezes ajudada por propaganda russa e operações de desinformação russa nas redes sociais em relação à guerra da Ucrânia. E nós temos visto alguns movimentos de franja nacionais em alguns países serem mais vulneráveis a essas ações de propaganda e estarem particularmente exercitados contra a Ucrânia e o apoio europeu e da NATO à Ucrânia. Dito isso, passar do nível retórico e de protesto extremamente duro nas redes sociais para este tipo de violência e para um tipo de violência planeada E bem executado até agora. É preocupante e é por isso que está a ser levado com a maior das seriedades pelos serviços de informações espanhóis e tenho a certeza que estão em coordenação com outros serviços espanhóis nacionais e com os serviços de informações estratégicas da própria União Europeia.
A última questão que tinha para lhe colocar é: sendo episódios que estão a acontecer próximos de Portugal, há motivos de preocupação também para os portugueses?
Como eu disse, há sempre motivos de preocupação se nós virmos franjas e movimentos sociais menos representativos, mas que estão bastante radicalizados em termos do discurso nas redes sociais, a fazerem este tipo de ações ou potencialmente a participarem neste tipo de ações. Sempre que nós vemos a utilização de violência política num país democrático, é preocupante. Pode haver um efeito de contágio, de um tipo destas ações ser circulado nas redes sociais como tendo sido algum tipo de sucesso e isso ser imitado. Isso é possível, temos isso em vários tipos de violência. Agora, assim uma ameaça que me pareça importante para Portugal e para os portugueses, não, até porque nós não temos tanta participação direta e facilmente identificável no apoio à Ucrânia. A única agência europeia que nós temos é a Agência de Segurança Marítima em Lisboa, que não tem uma participação direta neste conflito, nem é tão interveniente como este centro de informações estratégicas por satélite da União Europeia, que tem sido importante no papel da União Europeia e da NATO em apoiar a Ucrânia. Portanto, desse ponto de vista, não tendo nós uma fábrica de armamentos que esteja a fornecer diretamente as Forças Armadas ucranianas em larga escala. É possível que do ponto de vista das embaixadas, nomeadamente as ucranianas, mas neste momento perdeu-se o efeito surpresa. Aliás, todas as embaixadas ucranianas na Europa aumentaram os seus níveis de segurança e, portanto, é duvidoso que este tipo de ataque possa chegar aos seus objetivos novamente, e mesmo este foi razoavelmente ineficaz. Ou seja, foi eficaz no sentido de quem tentou chamar a atenção e ter cobertura mediática, e ter conseguido pelo menos que passasse um dos dispositivos que ferisse pelo menos uma pessoa, o que é trágico, mas não teve toda a eficácia que poderia ter tido, em larga medida graças à vigilância e aos sistemas de segurança que nós já temos em relação ao terrorismo na Europa em geral, não em relação a esta questão em particular. Portanto, não me parece que de facto num país pacífico como Portugal, onde haja menos alvos diretamente identificáveis e agora sem o efeito surpresa e com o nível de segurança e de alerta mais elevado, estejamos particularmente em risco em Portugal, não.