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Muito boa tarde, muito obrigado pelo vosso convite. Em primeiro lugar, de facto não vou estar presente. Era minha vontade estar e acho que sou o único responsável por não estar, porque a minha obrigação era saber que hoje havia Conselho Nacional. Mas dada a minha vida pessoal, privada, inclusivamente até por coincidência passei a semana toda em Lisboa. Estava convencido que o Conselho Nacional seria amanhã e não hoje e portanto, vou hoje chegar ao Porto. Mas também porque, por um lapso administrativo que já protestei junto do secretário-geral, pela primeira vez, que eu me lembre, em dezenas de anos, não fui convocado para um lugar de que sou membro nato vitalício. Mas reitero que a culpa é minha. Para todos os efeitos, aquilo que eu iria dizer ao Conselho Nacional e aquilo que eventualmente ainda poderei tentar transmitir por missiva ao senhor presidente do Conselho Nacional, que espero que possa ler aquilo que eu eventualmente consiga enviar, é que o PSD deve realizar as eleições diretas tal qual o doutor Rui Rio indiciou para o dia 4 de dezembro. Isto porque o argumento de que pode haver uma crise política é colocar o PSD na esteira do seguimento das estratégias e dos problemas alheios. Evidentemente, pode haver uma crise política. Eu estou convencido que lá pra diante o doutor António Costa e a Geringonça um ou a Geringonça dois acabarão com mais 0,1%, 0,2% para uma ou outra clientela para resolver o problema. Mas vamos partir do pior cenário, que na democracia nunca é um drama, de o orçamento não passar. Eu parto do pressuposto que o PSD não votará o orçamento, mas eu já não digo nada. Que o orçamento não passar, que haja uma crise política e o senhor Presidente da República tenha que marcar eleições antecipadas. Se isso acontecesse, nessa altura estaríamos em dezembro, as eleições antecipadas nunca seriam antes do limiar da primavera, ou seja, um líder do PSD seria eleito em dezembro. Teria todo o tempo do mundo para se afirmar e afirmar a sua liderança.

Portanto, na sua opinião, os argumentos que Rui Rio utilizou para justificar esta posição em que pede ao Conselho Nacional que pondera essa reflexão sobre a possibilidade de adiamento das diretas do PSD, é algo que não colhe. Como é que considera que será também a posição demais logo manifestada pelos conselheiros? Considera que haverá aqui muitas críticas a esta posição de Rui Rio?

Sinceramente, não faço ideia. Acho que o PSD hoje é um partido muito domesticado, portanto acho imprevisível dizer o que é que vai acontecer. Contudo, deixe-me acrescentar dois argumentos. Primeiro argumento é que se eventualmente fôssemos por este caminho, houvesse uma crise, não havia eleições, as eleições ficavam atiradas para depois das legislativas, significava que o doutor Rui Rio ia, em 2021, construir o grupo parlamentar até 2025. E sabemos que peso tem na estrutura político-partidária, em termos de influência, um grupo parlamentar nos militantes do partido. Portanto, se ia viciar ab initio a eleição que se viesse a verificar lá pra diante. Mas se por acaso, mesmo assim, o doutor Rui Rio fosse a jogo e perdesse as eleições contra um outro candidato, que eu espero convictamente que seja o doutor Paulo Rangel, espero que ele anuncie essa candidatura hoje mesmo, tenho essa expectativa e até que o faça antes do Conselho Nacional.

Isso é já um apoio garantido a Paulo Rangel?

Sem qualquer dúvida. É o meu e de, pelo que tenho visto, de milhares de militantes, de presidentes de câmara, de presidentes distritais. Mas repare, se eventualmente o doutor Paulo Rangel vencesse umas eleições que acontecessem depois das eleições legislativas, o doutor Paulo Rangel estava condenado a ir liderar um grupo parlamentar que não escolheu. Eu já passei por esse calvário como presidente do PSD e sei quanto isso condiciona uma liderança do partido. Eventualmente, até conhecendo do que a casa gasta, o doutor Paulo Rangel nem seria convidado para deputado e, portanto, nem no Parlamento estaria nos próximos quatro anos para defender o PSD e reimpor o PSD. Portanto, eu penso com todo o respeito e sem querer fazer juízos muito fortes de intenção, que é uma chico-espertice para uma perpetuação no lugar, sem ir a votos e sem refrescar aquilo que é uma legitimidade interna, que devia ser refrescada depois destas eleições à tapa.

Luís Filipe Menezes, deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Todos nós testemunhamos aqui já há mais de dois anos, foi em janeiro de 2019, também numa altura difícil para Rui Rio, também num Conselho Nacional, um abraço que de alguma forma foi selando aquilo que eram alguns conflitos antigos entre o próprio Luís Filipe Menezes e Rui Rio. Arrepende-se desse abraço ou foi a história que acabou por mudar a sua opinião e foi a forma como Rui Rio foi gerindo o partido que acabou por mudar a sua opinião em relação ao atual líder do PSD?

Não, de forma nenhuma. A minha opinião é exatamente a mesma opinião que emiti nesse Conselho Nacional. Quer dizer, quando eu acho que o abraço é muito mediático, é muito bonito. O doutor Rui Rio veio cá fora dar e eu veio educadamente Mas o que eu disse nesse Conselho Nacional não é nada diferente do que eu estou a dizer agora. Eu nesse Conselho Nacional disse que estávamos a pouco mais de meio ano de eleições legislativas e que as duas razões de fundo para colocar em causa, naquela moção que estava em cima da mesa, o doutor Rui Rio, era ele ter se comportado mal, com deslealdade nas eleições para a Câmara do Porto e ter sido também bastante desleal, persistentemente desleal, com o primeiro-ministro Passo Coelho e com a sua liderança. Mas que essa matéria tinha sido a matéria central das eleições internas em que enfrentou o doutor Santana Lopes e que os militantes do PSD, ao votarem nele, de uma certa forma, anistiaram temporariamente aquele comportamento. Portanto, se anistiaram temporariamente, era bom que se fosse até uma fase conclusiva, que era o fim de um ciclo eleitoral, para o doutor Rui Rio mostrar o que valia. Eu não tinha muitas dúvidas sobre o que valia, mas para todos os efeitos, eu acho que é assim que devem funcionar os partidos. Foi exatamente isto que eu disse nesse Conselho Nacional.

Luís Menezes, deixe-me perguntar-lhe também outra coisa. Já durante o dia de hoje, em dia de Conselho Nacional do PSD, que está marcado para mais logo à noite, houve também uma reunião do grupo parlamentar do Partido Social-Democrata e alguns deputados presentes, e fontes vão tendo conta disso também ao Observador, manifestaram-se desagradados com a ausência de Rui Rio. Não só pela ausência de Rui Rio desse encontro do grupo parlamentar, à mesma hora mais ou menos em que António Costa, secretário-geral do PS e primeiro-ministro, estava a falar sobre o orçamento do Estado com os deputados do PS, mas também pelo facto de Rui Rio não ter, desde já, avançado com uma posição mais firme em relação ao orçamento do Estado, anunciando um voto contra por parte do PSD. Como é que olha também para estas críticas que vão surgindo dirigidas à direção de Rui Rio?

Eu não tenho conhecimento, não sei quem criticou, nem quais os argumentos que foram invocados, mas o que eu tenho notado nestas últimas semanas, em contactos informais com militantes do partido, é ver uma mudança muito grande. Por exemplo, os presidentes de câmara que, naturalmente, após um sucesso relativo, não foi um grande sucesso, mas um sucesso relativo nas eleições autárquicas, normalmente estão sintonizados com o líder e eu vejo muitos presidentes de câmara a quererem uma alternativa. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa, eu não sei se é mais grave isso, se é mais grave aquilo que eu assisti há dias atrás. De ver um deputado do PSD ser insultado no Parlamento pelo seu primeiro-ministro, de uma forma insolente como eu nunca tinha visto na democracia portuguesa, e não ter havido uma revolta violenta, o que quase seria de abandono do Parlamento por umas horas e de uma tomada de posição do presidente do partido. Portanto, é mais um episódio de uma liderança que está sendo completamente desnorteada.

Luís Menezes, só mesmo para terminar, deixe-me perguntar-lhe uma coisa: o que é que gostava de ouvir por parte do líder do PSD mais logo no Conselho Nacional do partido? E olhando também para aquilo que é o futuro próximo do PSD. Que mensagem poderia deixar, neste caso, Rui Rio, aos conselheiros, aos militantes social-democratas, aos simpatizantes do partido, que pudesse tranquilizar um pouco mais, neste momento, o universo do PSD?

Eu penso que a mensagem que deveria deixar era uma mensagem que só lhe ficava bem, de desprendimento do poder, que era, eu não digo abandonar o lugar, acho que ele tem todo o direito e toda a legitimidade de considerar que pode continuar, se for essa a sua consciência, mas anunciar eleições para o mais rapidamente possível, que estava previsto dia quatro de dezembro, acho perfeitamente aceitável, porque há uma questão que é nuclear em democracia. O refrescamento democrático, a ida às urnas, ouvir os militantes com maior liberdade, numa campanha aberta, é o maior tônus que um partido pode ter. O doutor Rui Rio poderia vencer outra vez? Se vencesse, continuaria o seu rumo. Mas permitir, neste momento, face a esta turbulência, mais do que nunca, o tal refrescamento decorrente da consulta popular é determinante.