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Junta-se agora a nós, em direto nesta edição das 11h, Lúcia Leite, presidenta da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros e enfermeira especialista no núcleo de partos do Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga. Bom dia, bem-vinda e obrigado pela disponibilidade, Lúcia Leite. Começo por lhe perguntar se está preocupada com estes constrangimentos. Apesar da mudança de governo, continuam a fazer-se sentir esses mesmos constrangimentos nas urgências obstétricas dos diferentes hospitais de norte a sul do país. É motivo de preocupação?

O motivo de preocupação já é antigo e tem a ver com a política que se vai passando à volta das maternidades. Nós continuamos a ter uma política medicocêntrica e numa lógica de patologia. Eu posso lhe dizer que Portugal está nos 10 países com maior taxa de cesariana. E também é muito estranho que, de facto, nós temos vindo a diminuir o número de partos, aumentar o número de obstetras. Eu posso lhe dizer que, em 20 anos, temos mais 480 obstetras do que tínhamos e temos menos 35 mil partos, à volta disso. Portanto, é incompreensível. Eu que sou especialista desde 1990, é incompreensível que se continue a encerrar serviços. O que está aqui em causa são os critérios que levam ao encerramento dos serviços. Tem a ver com as equipas-tipo, que têm sido sempre reforçadas por parte da Ordem dos Médicos, tem a ver com a má gestão em período de férias. Eu gostava de fazer algumas perguntas, do tipo: quantos obstetras é que estão de férias neste mês de agosto? Desde quando é que há cinco anos era aceitável que um conselho de administração fechasse um serviço de urgência? Quando nós não temos quatro profissionais, trabalhamos com três. É assim que trabalham os enfermeiros também, nunca abandonam os doentes, nem fecham os serviços porque falta um enfermeiro. Não era suposto que a política fosse esta. O que nós temos neste momento é um negócio, que só vai aumentar, porque o objetivo é, de facto, que haja uma falência do SNS na resposta. Depois tratamos todas as grávidas como se fossem patológicas. Eu posso lhe dizer que os países nórdicos têm uma taxa de cesariana de 16% e de certeza que as grávidas portuguesas não são mais doentes do que as grávidas da Noruega, ou da Holanda, ou da Finlândia. Portanto, o que está aqui em causa, façam as perguntas certas, perguntem quantas pessoas estão, de facto, a trabalhar e quantas foram de férias e que planeamento é que foi feito nas férias.

Portanto, há aqui um problema de gestão.

Não é só um problema de gestão.

O que sugere é que boa parte dos médicos obstetras do país tiraram férias todos na mesma altura.

Também. Mas isto não é um problema de agora.

E esse é o problema de planeamento a que fazia referência.

Nós, neste momento, estamos a olhar para a obstetrícia como se todas as grávidas fossem doentes e todas as grávidas precisassem de cuidados de mais alto nível de complexidade, o que não é verdade. A maior parte dos países trata o trabalho de parto e a gravidez como sendo um processo normal e fisiológico. É acompanhado por enfermeiros em muitos países da Europa que têm estas boas taxas, são acompanhados por enfermeiros e encaminhados sempre que há desvios àquilo que é normal. Nós, neste momento, estamos a deixar os enfermeiros de fora da resolução do problema. Continuamos a ter a visão medicocêntrica e a visão de que o SNS falhando, a privada supre. Isto virou um negócio.

Aquilo que me diz é que há um rácio, um número mínimo de médicos que têm que assegurar os diferentes serviços de obstetrícia e, porventura, não seria necessário tantos médicos para assegurar esses serviços. Poderia envolver-se mais os enfermeiros na constituição dessas equipas.

Eu posso lhe dizer que eu trabalhei anos e anos numa maternidade, e não recomendo que se volte a essa realidade, onde trabalhava apenas com um obstetra, mas só fazíamos baixo risco. Nós, neste momento, não precisamos de tratar todas as situações com equipas-tipo e altamente reforçadas. Nós temos é que ter níveis de cuidados diferenciados, encaminhar as grávidas de acordo com a sua situação de saúde para as unidades certas. E isso é que vai reduzir as taxas de cesariana e isso é que vai reduzir as intervenções. Eu não sei se a maior parte das pessoas tem noção que nós, neste momento, temos em Portugal mais de 50% dos partos intervencionados. Que se pensarmos, por exemplo, na privada, onde já se fazem mais de 15% dos partos deste país, 84% implicam cesarianas ou intervenções. É disto que nós estamos a falar. Se nós focarmos as equipas para estarem preparadas para estas intervenções, especificamente para estas intervenções, nós vamos tratar como patológicas todas as grávidas.

Fica claro.

Esse é que é o problema mais sério. E deixe-me só alertar para uma outra coisa, que eu acho que os jornalistas se deviam preocupar, que é: quando estão urgências abertas, há reforço de equipa médica. Por exemplo, eu fiquei a saber a semana passada que o Barreiro Montijo, quando está aberto, reforça a sua equipa médica em mais quatro médicos. Pergunto: por que é que em vez de estar aberto um dia para dar resposta a um grande volume de grávidas, não está aberto mais dias para dar resposta às suas, sem precisar sobrecarregar mais ninguém? É preciso fazer as perguntas certas e neste momento eu acho que não estão a fazer as perguntas certas.