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Junta-se a este jornal das 9:00 Francisco Porto Fernandes, o presidente da Federação Académica do Porto. Bom dia, Francisco Porto Fernandes. Obrigada por se juntar a nós. Em primeiro lugar, há este dado impressionante: mais de metade dos universitários estão em burnout. Há muitos a consumir psicotrópicos. Fica surpreendido com o resultado e com as conclusões deste estudo?

Bom dia. Eu fico preocupado, não fico surpreendido. Este estudo vai no sentido, agora com uma amostra muito representativa, do que nós já temos vindo a alertar há muito tempo. Há uma autêntica pandemia silenciosa de saúde mental no ensino superior e temos de agir.

Não consigo perceber. É uma pandemia silenciosa e?

De saúde mental e temos de agir.

E temos de agir. Sim.

Hoje, no ensino superior, há realmente, isto são números, mas nós verificamos todos os dias. A SAP tem uma residência e todos os dias, praticamente, temos casos de ansiedade, de estudantes que necessitam de apoio psicológico, por vezes psiquiátrico, e isto vem de dois fatores. Vem, por um lado, de uma pressão exacerbada, com três, quatro exames na mesma semana, uma carga horária muito acima da média da União Europeia. A FAP, desde 2023, capela uma semana de quatro dias de aulas no ensino superior, com uma redução considerável da carga horária, convergindo para a média europeia. E depois também tem um fator que é muito importante nós falarmos, que é o fator socioeconômico. Estudantes mais carenciados tendem a ter mais problemas de ansiedade, a ter mais problemas do foro da saúde mental, pois têm um estresse acrescido, que é o estresse e a ansiedade de saberem que não podem falhar, porque se falharem, podem perder a oportunidade de estudar no ensino superior e ter uma vida melhor. E isto devia nos preocupar muito, a todos, enquanto sociedade, que é o dinheiro que está no bolso das famílias ainda afeta, e muito, o bem-estar dos estudantes, porque sabem que não têm outra opção e se perderem a bolsa, muito provavelmente, a única solução é mesmo desistirem do ensino superior.

Francisco Porto Fernandes, as instituições do ensino superior têm criado canais de apoio aos estudantes. Eles existem e funcionam de alguma forma?

Eu penso que recentemente, até a questão do cheque psicólogo, o anterior governo, do mesmo partido que agora tomou posse, foi positiva. Ainda assim, nós não podemos habituar as nossas instituições a soluções de recurso e de emergência. Nós temos de aumentar significativamente os quadros de profissionais de saúde nas nossas instituições de ensino superior. E depois temos também de nos deixar só de palavras. Eu digo sempre este exemplo: quando tomei posse a primeira vez na FAP, todos os presidentes de instituições de ensino superior e reitores falaram de saúde mental. Contudo, na semana a seguir, a média de exames na Academia do Porto eram três por semana e os exames começaram a 2 de janeiro, não permitindo aos estudantes, por exemplo, das ilhas, passarem a passagem de ano com as suas famílias. E, portanto, se há um desinvestimento na saúde mental no ensino superior e que precisa realmente de mais investimento, seja por uma estratégia a montante, seja a jusante, há também uma mudança de mentalidade que é necessária e que não custa dinheiro.

O que nos está a dizer é que a questão da saúde mental já entrou no discurso das preocupações, mas não está a passar à prática.

Eu acho que não é praticar as palavras que são ditas por quase todos os responsáveis políticos e de instituições de ensino superior, nós continuarmos a ter 21 a 25 horas de aulas por semana e ser normal ter três, quatro exames numa mesma semana.

Portanto, as medidas que possam ajudar a resolver estes números e a ultrapassá-los passam por isso, horários mais flexíveis, redução da carga de aulas e uma maior dispersão dos exames por um período de tempo mais alargado.

Eu diria que no curto prazo, sim. No médio prazo, penso que é mesmo muito importante nós revermos o nosso sistema de ação social no ensino superior, porque a mim, enquanto presidente da FAP, preocupa-me bastante o fato de os alunos que têm mais problemas de saúde mental serem os mais carenciados. Estamos a falhar enquanto sociedade quando isso acontece.

Há aqui uma distribuição muito desequilibrada, então. Francisco Porto Fernandes, muito obrigada por ter estado em direto conosco. Francisco Porto Fernandes é o presidente da Federação Académica do Porto. Na reação ao estudo conhecido hoje, que mostra que mais de metade dos estudantes universitários apresentam sintomas de burnout e quase metade estão a tomar medicamentos psicotrópicos.