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Tarde de terça-feira na Rádio Observador. Iniciou-se em Itália a segunda semana de prova do Giro d'Italia, da Volta à Itália, liderada pelo português Afonso Eun Alio. O ciclista de 24 anos da Bahrain Victorious conseguiu superar mais um dia com a camisola cor-de-rosa, mas desta vez a diferença para o segundo posto é de apenas 27 segundos. O Afonso esteve durante muitos anos no pelotão nacional, não só na equipa do Feirense, também na equipa da Anicolor Q8, mas antes disso, antes de passar para o pelotão sénior, esteve na equipa de juniores do Sport Ciclismo São João de Ver. É com essa equipa, e neste caso, com o respectivo presidente, que eu vou falar nesta tarde. É Fernando Vasco Costa, fundador e o atual presidente deste clube de ciclismo. Mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. Muito diretamente: o que é que tem o Afonso que outros não têm?
O Afonso tem uma particularidade, é o muito querer. É um ciclista muito humilde, com muita vontade de conseguir chegar ao topo do ciclismo mundial. Enquanto estava cá em Portugal, a ambição dele era chegar a uma equipa profissional, quando estava na questão de juniores. Conseguiu e não para. Ele quer e tem aquela força de vontade que origina que ele realmente tenha esses resultados tão relevantes para a modalidade e, neste caso, para o ciclismo português.
E essas características que agora elencou já destacavam o Afonso nesta altura, nesta idade de juniores?
Sim, sem dúvida. O Afonso aparece no ciclismo, bem como quem diz, integre a nossa estrutura, sem qualquer tipo de experiência a nível de estrada. Ele vinha mais de prazer e de lazer no BTT, sem qualquer tipo de responsabilidade. Quando entra na vertente de estrada, é lógico que inicialmente teve as dificuldades que qualquer um dos jovens tem, que é a integração, é conseguir entrar no pelotão nacional, enquanto que no BTT normalmente os ciclistas já andam individualizados, embora façam parte de uma equipa, mas quase toda a corrida andam a correr com eles próprios. No ciclismo tem outro saber, tem que lidar com um pelotão que muitas vezes é de 100, 120, 130 e muitas vezes as dificuldades que eles têm é conseguir chegar lá à frente. Quem vem atrás não tem a experiência, que era o caso do Alio. Ele teve um primeiro ano que não teve grandes resultados desportivos. Foi um primeiro ano de experiência, onde ele aprendeu realmente a integrar-se e estar nas corridas. A partir daí, no segundo ano, já acabou por ter alguns resultados desportivos. Não foram nada de muito relevante, mas já se notava que ele realmente estava a evoluir e que ia conseguir chegar onde ele pretendia. Depois, nos escalões de sub 23, já fica integrado. Precisamente nesse ano fizemos uma parceria com a equipa profissional do Feirense. Nós estávamos a trabalhar a formação, o Feirense estava a trabalhar o profissionalismo e no sub 23 ele já fica integrado na equipa do Feirense. Por aí foi evoluindo sempre até conseguir estar onde está.
E esteve concretamente creio que quatro a cinco temporadas no Feirense, onde numa delas conseguiu envergar a camisola amarela numa chegada à torre, quase como é a etapa mais mítica da Volta a Portugal. Apesar de não ter vencido essa etapa, consegue vestir a camisola amarela nessa etapa e ainda esteve pelo menos várias tiradas com a liderança da prova da Volta a Portugal em bicicleta. Pergunto-lhe, tendo em conta esse facto, se a liderança de uma prova, de uma equipa, de um conjunto, se nunca foi estranho para aquilo que é a sabedoria, o dia a dia do Afonso.
Não, porque eu acho que estranho nunca foi, embora tenha parecido um tanto quanto de surpresa. Ele sequer não estava a contar com esse tipo de enfrentar uma liderança e tão jovem e ainda com tão pouca experiência.
Mas sente-se à vontade com a liderança?
Sim, sem dúvida. Isso é uma das vantagens dele, é ele não embandeirar em ar, como se costuma dizer, ser humilde e lutar até às últimas forças que tem normalmente. É o que está a acontecer no Giro. Hoje vimos, é lógico que ele não é nenhum especialista no contra relógio, mas hoje lutou precisamente para que consiga estar mais alguns dias ou mais algum tempo na liderança, porque é a vontade dele. Ele nesse aspeto não tem limites nos esforços, ele vai até a última gota. E no Feirense, quando ele lidera a Volta a Portugal, com uma equipa que não era nada, e ele não era o líder, não era aquele que ia, em princípio, liderar o projeto ou liderar com a ambição de ganhar a Volta, essa função era o Carvalho. Mas ele pela maneira de ser dele e pela maneira de correr dele, acaba por liderar e lutar até aos limites da sua força, na tentativa de ganhar, nesse caso, a Volta a Portugal, que ainda ele era muito jovem.
E falou agora dessa etapa, desta décima etapa, um contra relógio de cerca de 42 quilómetros. Como já sabíamos, o Afonso não era nenhum especialista nesta modalidade do ciclismo, mas acima de tudo manteve a camisola cor-de-rosa, pelo menos por 27 segundos, em relação a um dos tubarões do ciclismo mundial, o Jonas Vingegaard. Eu pergunto-lhe muito diretamente, até porque já ouvimos vários comentadores, vários especialistas e pessoas que conhecem o Afonso a delimitar um objetivo, top cinco, top três, top 10. Eu pergunto-lhe a esta altura, Fernando, qual é para si o objetivo realista para o Afonso neste Giro d'Italia?
O objetivo, de certeza absoluta, é ganhar a Volta à Itália. Pela maneira que tem de luta, como eu disse, ele luta sempre até às últimas. É lógico que sim, mas temos de ser realistas. O Alio nunca vai dizer que ele não possa vir a conseguir uma vitória dessa grandeza, porque ele tem condições para isso, mas é muito jovem.
Mas vai chegar o tempo onde ele pode, neste caso, ameaçar verdadeiramente uma conquista de uma grande volta, na sua opinião.
Sim, na minha opinião sim, até porque como ainda fez poucos contra relógio, ele não tem a experiência nem tecnicamente de gerir o seu esforço num contra relógio desta dimensão e com estas características e à beira desses grandes tubarões que têm outra experiência e têm outro saber. Mas com a experiência que ele vai adquirindo com as suas dificuldades, estou convencido que ele não vai parar por aqui. Ele é um bom ciclista, é um ciclista muito humilde, ciclista que sabe preparar-se e enquadrar os seus objetivos. E se lhe derem novas oportunidades, de certeza absoluta que ele vai estar no topo do ciclismo mundial.
Fernando, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista à Rádio Observador. Afonso Eun Alio é líder e mantém-se líder do Giro d'Italia, mais 27 segundos que o segundo classificado, um ciclista de apenas 24 anos, originário da Figueira da Foz, que esteve muito tempo no pelotão nacional, em concreto no Sport Ciclismo São João de Ver. Mais uma vez, muito obrigado.