Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Daniel Pineau, obrigado por se juntar a nós. A primeira pergunta que lhe coloco é: o que é que vai acontecer a partir de agora?
Essa é uma resposta difícil dar, porque eu creio que ninguém, nem sequer os Talibã, que supostamente têm as rédeas do poder de fato na mão e que têm um contingente de forças que, dizem eles, querem assegurar a segurança na capital, em Cabul, sabe o que é que vai acontecer. Era previsível, devo dizer, esse tipo de ataque. Os Talibã e o Estado Islâmico no Khorasan, mesmo que não tivesse havido a tal intenção dos Talibã durante os acordos que se firmaram com os Estados Unidos, nomeadamente o acordo de paz com a administração Trump, e agora os acordos que têm a ver com a tomada de Cabul e o aeroporto, mesmo que eles não tivessem dito que não iam deixar haver santuário para grupos terroristas externos no Afeganistão, ainda assim, a sua relação seria muito complicada, porque ambos disputam basicamente um projeto político. O Estado Islâmico no Afeganistão não acredita que os Talibã são radicais suficientes, acha-os razoavelmente conservadores, acha-os comprometidos com alguns aspectos da comunidade internacional e, portanto, não quer ter nada a ver com eles e já fez uma série de ataques bastante letais, até diria eu, mais letais para os civis afegãos e em áreas urbanas, com maior impacto do que os Talibã nos últimos quatro a cinco anos. E os Talibã, assim que tomaram poder, aliás, ainda antes de entrarem em Cabul, quando chegaram à prisão de Pul-e-Charkhi, a infame prisão de Pul-e-Charkhi, onde quase todos os presos políticos e todos os presos acusados de terrorismo estavam, donde tinha já havido várias fugas e uma série de abusos de direitos humanos, etc. Quando lá chegaram os Talibã, como eu dizia, mataram o comandante mais sênior do Estado Islâmico na província do Khorasan, que estava lá preso. E isso já tinha sido alvo de condenação por parte do grupo Estado Islâmico, que tinha dito que ia haver algum tipo de vingança. Temos agora a noção que eventualmente as forças Talibã partilharam alguma informação com a inteligência da comunidade internacional em Cabul, no terreno, em relação a isto, e foi por isso que houve aquele aviso. Agora, o que é que vai acontecer? Eu não sei exatamente o que é que vai acontecer. Podemos esperar mais ataques do Estado Islâmico, que está a aproveitar este período de confusão, de transição, de incerteza, de colapso das forças governamentais, inclusive da polícia e dos serviços de inteligência que operavam a partir de Cabul, sobretudo, para recrutar mais e para planear mais ataques. Que vai haver um recrudescimento de atividade deste grupo, isso é óbvio. Se os Talibã vão ser capazes de fazer alguma coisa em relação a eles ou não, não é tão óbvio. E sobretudo, nós não temos a certeza do que é que vai acontecer aos civis afegãos que são apanhados nesta tempestade de violências estruturais. Já estão com problemas climáticos graves, com seca, com 3,5 milhões de pessoas internamente deslocadas, já estão com uma enorme incerteza sobre os seus empregos, sobre a economia, sobre o formato do governo, sobre as promessas que devemos ter o maior ceticismo, que foram feitas por Talibã em relação a alguma moderação na forma de governo e um governo negociado. No meio de tudo isto, adiciona-se mais um problema para os civis afegãos, que estão neste momento a enfrentar uma crise humanitária de grandes proporções.
Daniel Pineau, entretanto nós sabemos que Boris Johnson já reuniu ou vai reunir o gabinete de crise para avaliar esta situação. Joe Biden também. Faço-lhe a mesma pergunta que fazia há pouco ao tenente general Garcia Leandro: acredita que estes ataques podem ser um ponto de viragem para se inverter o processo de evacuações e para se voltar a intensificar a presença militar estrangeira no Afeganistão?
Infelizmente, eu creio que não há esse tipo de intenção por parte da comunidade internacional. Há dois problemas aqui. Um é que há falta de vontade política e moral de uma série de países, sejam eles membros da NATO, da União Europeia, sejam os Estados Unidos, etc, para fazerem algo desse gênero, ou seja, para cometerem novamente forças militares que estão a retirar, até por razões logísticas. Essas forças, entretanto, já começaram a retirada há bastante tempo, já foram retirados uma série de meios de apoio logístico a essas forças, portanto, para reinserir forças, teria que ser necessário voltar a trazer tudo, isso leva algum tempo, a projeção de poder estratégico leva algum tempo. Não estou a ver isso acontecer. Do ponto de vista dos Estados Unidos, não estou mesmo a ver isso acontecer, pelo menos não neste momento imediato. Do ponto de vista dos outros países da NATO, quanto muito vai desacelerar a saída dos últimos contingentes militares, mas eles são residuais. Não estou a ver vontade política e moral nas capitais ocidentais para algo desse gênero. Agora, também não estou a ver como é que vamos poder ignorar o assunto. No fundo, o que poderá acontecer é tentar usar isto como uma forma de leverage, de peso, de força contra Talibã e dizer: "O acordo que temos convosco que temos estado a respeitar até agora, está baseado na premissa que os Talibã são capazes, conforme nos prometeram, de impedir que o Afeganistão seja um santuário para grupos terroristas. A partir do momento em que há grupos terroristas a fazerem vários ataques, então se calhar nós temos que reconsiderar o acordo". Claro que os Talibã não têm nenhum interesse em que isto aconteça, mas não têm nenhum interesse em dar espaço ao Estado Islâmico. Portanto, eu imagino que as represálias por parte dos Talibã vão ser bastante fortes. Isso preocupa-me, porque se há coisa que nós deveríamos estar a tentar era que o Afeganistão não resvalasse novamente para uma guerra civil de alta intensidade. Entre a ideia de que a Aliança do Norte, no Vale do Panjshir, vai recomeçar e vai tentar lutar contra o poder Talibã, a ideia de que os próprios Talibã vão fazer represálias contra o Estado Islâmico no Coração, na província do Coração, e que essa parte do Estado Islâmico vai continuar a fazer ataques desses, no fundo, isso tudo preocupa muito do ponto de vista da catástrofe humanitária que já se anuncia e dos civis afegãos, que é uma perspectiva que eu acho que não é suficientemente acautelada do ponto de vista da decisão política e militar de defesa dos países ocidentais. Ou seja, estamos demasiado focados na evacuação dos civis, que é de facto muito importante. É de facto muito complexa. Está a ocorrer a um passo bastante acelerado e em condições muito difíceis, como nós estamos a ver, mas isso não pode ser a única coisa em que nos estamos a focar.
Entretanto, tu achas que essa evacuação, que já é muito difícil, fica muito mais difícil a partir de agora?
Fica obviamente mais difícil, não há forma de passar à volta disso, até porque nós estamos a ver as últimas notícias que eu tenho, e espero que não se confirme, e espero que a tendência pare, é que, por exemplo, os militares turcos, que são um contingente de tropas da NATO, que estava presente a segurar o perímetro interno do aeroporto de Kabul, estão a começar a retirar mais cedo. Isso torna as coisas ainda mais difíceis. No entanto, devo dizer que eu li, já em dois ou três sítios, que tanto o aeroporto de Mazar-i-Sharif, a cidade estrategicamente mais importante no norte do Afeganistão, como o aeroporto da cidade de Kandahar, ambas tomadas pelos Talibã, estavam a reabrir, embora não em capacidade completa. Se isso for o caso, seja porque há forças estrangeiras, seja porque os Talibã têm algum tipo de acordo com as autoridades locais para que elas continuem a operar estes pequenos aeroportos regionais, isso vai-se tornar importantíssimo, não só para a evacuação de afegãos civis, de mulheres e crianças, e ainda de alguns nacionais estrangeiros que restem, mas também para a entrada de ajuda humanitária.
De ajuda.
Que neste momento já vai ser importante, mas no inverno que se vizinha vai ser absolutamente essencial.