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Pedro Pita Barros é professor na Universidade Nova e especialista em economia da saúde. Pedro, ontem assistimos a grandes ajuntamentos a propósito dos festejos do campeonato do Sporting. A falta de cumprimento das regras de segurança, a falta de distanciamento, a falta do uso de máscara é motivo para o país se preocupar com os efeitos que tudo isto pode vir a ter no contágio de Covid-19?

Em primeiro lugar, os parabéns ao Sporting por ter sido campeão. Eu tenho muitos amigos sportinguistas e eles ficaram contentes por isso. Agora, a parte menos feliz é que sim, nós devemos estar preocupados com o que se passou ontem. Não só porque infringimos todas as regras de distanciamento e de precaução neste tempo de pandemia, como nós sabemos do passado, deste último ano, que este tipo de situações é propiciadora do contágio. Inclusive, existe já alguma sistematização dos estudos da comunidade científica que tentou analisar o que se passou no ano passado e que encontrou efeitos sistemáticos. As pessoas se juntarem para assistir a um jogo de futebol, resulta em um aumento de contágios claramente visível. E isso deve-se não só às pessoas se juntarem dentro do estádio, que aparentemente nem era o efeito maior, mas era todo o trajeto e toda a aglomeração de pessoas que se juntam fora do estádio e no caminho para os estádios que criava o problema. E claramente aqui nós não tivemos pessoas dentro do estádio, mas tivemos uma aglomeração provavelmente pior do que isso, fora do estádio durante muito tempo, de acordo com as imagens que foram divulgadas, sem qualquer cuidado e precauções relativamente ao contágio. Portanto, é de prever que venha a haver algum efeito associado a isto. E vale a pena lembrar que no início da pandemia, o início de contágios em Bergamo, na Itália, que foi a zona mais afetada, e também na zona de Madrid, foram ligados, na altura, à ocorrência dos jogos de futebol. No caso da Itália, aquele que foi entre a equipe de Bergamo e o Valencia da Espanha, que transportou também vírus depois pra Espanha. E também houve um jogo, creio que do Liverpool com o Atlético de Madrid, se não estou enganado. Também foi apontado como tendo sido, na altura, um dos eventos de difusão do vírus, na altura em que não sabíamos muito bem como é que tudo funcionava. Mas claramente, no início do processo, os jogos de futebol e outras aglomerações ficaram associados. E nós ontem tivemos todo o mau exemplo da aglomeração que é propiciadora da difusão do vírus. Portanto, não sei dizer quem é que esteve pior e quem é que poderia ter evitado, mas claramente é algo que vai nos deixar durante os próximos 15 dias com alguma preocupação a ver o que sucede. E se houver realmente contágios, ter medidas drásticas rapidamente para conter e pra não deitar fora todo o esforço que foi desenvolvido desde janeiro em Portugal.

Eu ia lhe perguntar agora relativamente ao que poderia ter sido feito, às precauções. Nós ontem assistimos a uma conferência da PSP já a meio da tarde. Já vários adeptos estavam à porta do estádio, foi colocado um ecrã gigante que também apelou a que os adeptos se juntassem naquele local. O Sporting, não sendo campeão há muitos anos, também já era previsível que as pessoas tivessem muita vontade de ir pra rua. Tendo em conta todos estes fatores, considera que o governo, a Direção Geral da Saúde, devia ter anunciado medidas e regras para o dia dos festejos com mais antecedência, de forma a preparar as pessoas?

Eu não sei se, se houvessem anunciado regras, teria mudado muito. Nós vimos que as pessoas saíram espontaneamente pra rua e juntaram-se também em cafés, provavelmente à volta do estádio, em várias cidades do país. Portanto, tinha que ser algo mais, provavelmente, inés. Na parte do estádio, provavelmente não faria sentido ter lá ecrãs, era claramente um chamariz para as pessoas. Talvez tivesse sido possível organizar-se de outra forma os festejos, mas deixar que aquelas aglomerações ocorressem, claramente não foi uma medida brilhante. Agora, havendo uma aglomeração muito grande de pessoas todas a saírem pra rua de uma forma praticamente incontrolável, não sei muito bem como é que se poderia ter feito de outra forma. Depois de ocorrer, é muito fácil tentar encontrar soluções. Mas claramente falhou o Sporting, que deveria ter pensado também neste problema de saúde associado aos festejos. Falharam as autoridades, no sentido de não conseguir ter um plano que conseguisse evitar a aglomeração e a saída pra rua das pessoas. Falharam as pessoas a desrespeitarem, de uma forma muito clara, as regras. Eu não creio que tenham desrespeitado de propósito na lógica de infringir, mas a euforia do momento criou isso e era previsível que pudesse acontecer.

Agora, uma última pergunta, também olhando aqui pra questão dos adeptos. O fato de não poderem entrar nos estádios há muito tempo. Por exemplo, se fosse aberta uma exceção para que os adeptos pudessem assistir aos jogos com mais regras e mais controle dentro dos estádios, com afastamento e desinfeção e até mesmo a suposta realização de teste à Covid-19, considera que isso poderia atenuar este entusiasmo ou mesmo isso não era capaz de ser controlável?

Permitir alguns adeptos no estádio com regras, provavelmente seria realizável. Mas a questão central que se tinha visto no passado, associada à transmissão com vírus e com jogos de futebol, não tinha tanto a ver com o que se passa dentro do estádio, mas tinha a ver com o que se passa à volta do estádio. Seja no trajeto, seja nas comemorações, seja na confraternização das pessoas, nos períodos pré e pós jogos de futebol. E isso, se as pessoas estivessem dentro do estádio, não mudaria muito radicalmente, provavelmente, o que aconteceu. Portanto, tinha que ter havido é provavelmente a tentativa de ter as pessoas mais distantes do estádio, evitar outras aglomerações. Em vez de ter ecrãs gigantes e cafés abertos repletos de pessoas, ter alguma outra forma das pessoas assistirem em casa ao jogo e ter algum controle. Também para haja algum controle de cada um sobre as condições em que está. Agora, tendo sucedido, creio que o central agora é ter uma monitorização, um acompanhamento muito próximo dos dados e dos casos que venham a aparecer, e atuar muito rapidamente. Pensar no que podia ter sido, acho que não vai resolver. No entanto, tudo o que podemos fazer agora, se houver sinal de algum reacender de contágios por causa deste evento, é atuar rapidamente. Atuar rapidamente e de forma a conter nas zonas onde seja encontrado e tentar parar o mais depressa possível.