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Temos agora, em direto na emissão da Rádio Observador, Germano de Sousa, dos Laboratórios. Germano de Sousa, muito boa tarde. Obrigado por se ter juntado a esta emissão.
Viva, boa tarde. Como está? Está bom. Muito obrigado.
Igualmente, muito bem. Germano de Sousa, têm sido apontados atrasos nos testes dos laboratórios privados. A que se devem esses atrasos?
Nos testes dos laboratórios privados, nos testes dos laboratórios do Estado. Esses atrasos devem-se naturalmente à dificuldade, por vezes, que há de encontrar os reagentes necessários para fazer os testes com a rapidez que nós fazemos. Não se esqueça que, tal como a senhora ministra fez o favor de dizer, nós somos parceiros do Estado nesta terrível luta que estamos a travar todos contra o vírus, o SARS-CoV-2. No meu caso, eu sou, como sabe, médico patologista clínico, os meus laboratórios fazem à volta de quase 1800, 1900 e em breve iremos caminhar, mais tarde, daqui a uma semana, se tudo correr bem, porque entretanto consegui arranjar ligações dentro da Europa a quem produz reagentes que precisamos, vamos avançar para muito mais, provavelmente 4 mil ou até mais por dia. Simplesmente, estamos aqui num período difícil, em que, por exemplo, de um momento para o outro, encomendas que tínhamos feito a companhias que as produziam na América, os Estados Unidos não deixaram sair uns 20 mil, 30 mil testes de extração, só da parte da extração, porque há duas partes, a parte da extração, e não os deixaram chegar cá.
E qual tem sido a alternativa?
A alternativa é: há aparelhos automáticos que ajudam na extração, que a tornam um bocadinho mais rápida. Ora, qual tem sido a alternativa? Foi criar as equipes de técnicos que estão a trabalhar 24 em 24 horas, no meu caso, quatro. E que tentam, e mais não é possível também, que nós temos que ter câmaras de segurança, temos que ter isso tudo. Então todas as câmaras de segurança que eu tenho estão a trabalhar 24 em 24 horas para despachar. Obviamente, não conseguimos ultrapassar o número de que já referi há pouco. E nós estamos invadidos por pedidos de todo o lado, nomeadamente, não só os que vêm da ARS, mas, por exemplo, lares que precisam de fazer. E a gente tenta chegar a todos, mas chega uma altura que, por vezes, as coisas são difíceis. Ainda por cima, quando um outro aparelho de extração, por exemplo, no meu caso, se avariou e tive ontem todo o dia os técnicos e engenheiros à volta dele para finalmente esta manhã, tê-los resolvido. Portanto, ter resolvido o problema. É um problema que nos aflige a nós, que nos aflige grandemente, porque nós, como recordo, estamos a aguentar, como disse a senhora ministra, e bem, 47% dos testes que se fazem no país. Queremos ir muito mais além. No meu caso, eu estou com certeza a resolver o problema muito em breve, para poder aceitar todas as pessoas que precisam, que os médicos, os meus colegas clínicos entenderem que vale a pena fazer naquele ou naquele doente.
Germano de Sousa, qual é a sua expectativa em relação ao regresso à normalidade? Dentro de quantos dias ou quantas semanas?
Nos testes?
Nos testes.
Eu espero, sinceramente, que até ao fim da semana. Repare, nós hoje, neste momento, não temos o atraso que vocês dizem. Esses cinco dias para nós nunca existiram. Agora estamos a recuperar aquilo que tínhamos atrasado? Estamos, já estamos, conseguimos recuperar e amanhã ou depois já estamos completamente a dar resultados.
Germano de Sousa, uma pessoa que faça o teste, quanto tempo é que demora a obter o resultado?
Vamos a ver, se eu tivesse só o meu cliente, ou o meu doente, perdão! Eu hoje entrava, eu fazia o resultado e daqui a sete horas, seis horas, tinha o resultado. Só que os aparelhos, eu tenho várias plataformas, mas todos têm uma capacidade determinada. Eu só posso meter 96 testes num dos aparelhos, no outro só posso meter 48, no outro só posso meter de cada vez. E quando não tenho extração, embora eu tenha gente dedicadíssima, que em turnos conseguem preparar a extração do RNA para meter nesses aparelhos. Os aparelhos têm as suas limitações que nós, de qualquer maneira, que eu nunca consigo dar, em boa verdade, antes das 24 horas. Eu fico muito contente até às 5h. E desde o período que te falei, deves falar completamente, levei mais um dia, levei e infelizmente tive que chegar às 48 horas.
Está neste momento a demorar 48 horas?
Neste momento, ainda estou a demorar 48, às vezes um pouco mais, um pouco menos. Agora, espero em breve voltar ao meu ritmo habitual das 24, 36 horas ou até menos.
Esse é um valor abaixo daquilo que a ministra da Saúde disse que ontem era o ideal. Ontem a ministra da Saúde falou em três dias, está-me a dizer que em dois dias consegue ter os resultados.
Agora, não. Eu tive um período mau estes últimos três dias, foi terrível, porque eu não tinha nada a que me agarrar. Felizmente, estou neste momento a conseguir neutralizar esse período e em breve volto ao meu ritmo normal, que são os tais dois dias, dois dias e meio.
Como é que tem sido a coordenação? Há pouco estava a falar nos testes a lares. Como é que tem sido a coordenação com a Direção-Geral da Saúde? Diz que não tem mãos a medir. A Direção-Geral de Saúde está a pedir mais do que aquilo que a resposta.
A Direção-Geral da Saúde não pede diretamente, de modo nenhum. Quem pede são os centros de saúde e as unidades de saúde familiares que pedem para os doentes que atendem e que, em juízo clínico, consideram que têm que fazer o teste. Esses pedem todos. Os lares, desde os lares de misericórdia aos lares que têm a ver com a Segurança Social, etc., também naturalmente pedem. E isso é outra rubrica, não é da Direção-Geral de Saúde. E nós, dentro do que foi possível, vamos atendendo, às vezes com as nossas deficiências, porque também não temos para dar. E quando não temos para dar, o que é que havemos de fazer? Vamos aos casos mais urgentes, vamos resolver este ou aquele ponto mais urgente, tentamos perceber onde é que há maiores problemas, mas creio que no começo da outra semana estamos a conseguir ir muito mais além. Essa é a minha esperança, é tudo isso que estamos a desenvolver, com ligações com produtores europeus, que naturalmente há mais fluididade entre nós propriamente do que entre Estados Unidos da América e Europa.
Germano Sousa, sabe me dizer quantos testes já foram feitos pelos laboratórios privados até o momento?
Creio que já foram feitos, não vou gerar esse número, rondava os 80 mil ou coisa assim parecida.
E quanto é que custa um teste?
Eu não vou gerar. Isso depende. O teste, neste momento, anda já por volta dos €100, mais ou menos. Mas há um preço para o seguro, há um preço para a IRS, etc., que é mais baixo. Enfim, é neste mix que se faz. Digamos que a média seria, por exemplo, €100.
Falou há pouco da falta de reagentes que tem sentido. Uma das questões que se tem falado nos últimos dias, e muito profusamente, é o fato de haver muita especulação em torno dos materiais relacionados com a Covid-19. Sente que há especulação do mercado em relação aos produtos com os quais os laboratórios trabalham?
Em relação aos testes, obviamente que quando não há as coisas, nem é só cá, que na produção quando não tem, e há países como a Turquia e outros que pagam tudo para ter os testes. Naturalmente que nós somos um bocado prejudicados quando, por exemplo, no caso dos produtores chineses ou outros quaisquer, eles têm escoamento sempre, diariamente, para tudo o que produzem. E depois, claro, naturalmente, quem lhes pagar pronto. Sei de uma história de uma encomenda que estava completamente feita para vir para aqui para um país europeu, que chegou lá alguém com uma mala cheia de dinheiro e pôs a mala em cima das coisas e os testes foram desviados quando já estavam-
Na pista dentro do avião. Sim, mas isso nós já sabemos. Gostava de saber a realidade portuguesa. Está a pagar o material médico e de laboratório ao mesmo preço hoje que pagava a semana passada?
Não. Eu vou lhe dar uma ideia para você perceber como os custos estão a aumentar. Eu vou lhe dar uma ideia de uma coisa mais simples que é a zaragatoa. Zaragatoa é uma haste de plástico que tem na ponta uma bolazinha de acron e que nós metemos na pessoa até ir à nasofaringe, digamos, fazer a colheita das secreções que podem ou não podem eventualmente conter o vírus. Essa zaragatoa, antes de começar a crise, eu comprava a €0,20. Sabe quanto é que eu pago agora pela zaragatoa? €2,34. E não se encontram, e é milagre encontrá-las.
E isso está a criar dificuldades aos laboratórios?
Claro que sim. Como é que eu posso fazer os testes se não tiver o produto que diz corretamente e com as zaragatoas indicadas?
E isso está a refletir-se no preço que os laboratórios estão a cobrar?
Os laboratórios não estão a cobrar, a gente fez um acordo com a ACSS, portanto, a Administração dos Cuidados de Saúde, o ministério, em que se viu o mínimo dos mínimos que a gente poderia cobrar. Um teste não é o reagente. O teste é o reagente, é a plataforma tecnológica, é tudo, desde a eletricidade até a água que se gasta, e acima de tudo, o pessoal técnico que trabalha 24 horas e que tem que ser pago, que tem que comer todos os dias e que trabalha com esforço enorme, que tem que ser pago em horas extraordinárias. Isso é o médico que vê, e é o especialista em biologia molecular que vê, é o médico que dá o OK final. Sabe que quando a gente colhe um doente, o doente entra, por exemplo, no meu circuito, que tive que criar um circuito específico, por exemplo, o meu laboratório é em Natal, no qual os doentes suspeitos de coronavírus ou que vão fazer um teste para isso, não contactam com os outros doentes, que também têm doentes normais que continuam a ser necessários, sem ser atendidos. Esse doente entra, é-lhe dada logo uma máscara, esse doente entra, fica numa sala de espera que foi reservada exclusivamente para doentes com Covid e com capacidade de estarem separados uns dos outros, porque a sala é muito grande, se for aí 100 metros quadrados, estarem separados uns dos outros, um metro e meio, dois metros, para não haver contaminação entre eles. Tenho os técnicos que se vestem com EPIs. EPIs é o equipamento de proteção individual, da cabeça aos pés, que vão atender o senhor A que está doente, vão para uma sala de colheitas, que são duas salas que eu tenho reservadas só para Covid. O doente entra, fez-se a zaragatoa e depois o doente sai, vai à sua vida e nós mandamos alguém, a equipe de limpeza e esterilização, esterilizar a sala, enquanto usamos a outra. E o técnico pega no fatinho que utilizou de proteção, deita-o fora, porque pode eventualmente ter sido contaminado pelo doente que entrou enquanto estava a fazer a colheita e naturalmente há riscos de contaminar o seguinte, por um azar. Então deita-o fora, torna a vestir outro equipamento de proteção individual e vai fazer a colheita ao outro doente a seguir. Isto repete-se infinitamente o dia inteiro. Um equipamento de proteção individual, aparentemente, é caro. A gente gasta tanto, mas anda sempre num conjunto de €4, €5. Além dos óculos, que podem ser recuperáveis. Isto é tudo.
É complexo.
É muito complexo.
Obrigado.
Muito complexo.