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Temos agora em direto connosco, nesta edição das 8 horas da Rádio Observador, o embaixador Martins da Cruz, a quem agradeço a disponibilidade para aqui estar connosco e partilhar a sua visão sobre o legado deixado por Mikhail Gorbatchev. Tem lugar reservado na história como uma das personalidades que mais contribuiu para a mudança da história da humanidade. Bom dia, embaixador Martins da Cruz.
Bom dia. Sim, claro. Gorbatchev foi uma das grandes personalidades políticas dos finais do século XX, seguramente. Ele foi, sobretudo, um político realista, que soube ler as condições que havia na altura. E estamos a falar do final dos anos 80, princípio dos anos 90. Nessa altura, não nos podemos esquecer, os Estados Unidos deram um salto tecnológico muito em frente, graças às ações do presidente Ronald Reagan, quando ele lançou a chamada Guerra das Estrelas. E os líderes da União Soviética deram-se conta que estavam, primeiro, tecnologicamente muito atrasados em relação aos Estados Unidos. Em segundo lugar, que a economia estava numa falência total. E em terceiro lugar, que a sociedade marxista-leninista, a sociedade comunista, não funcionava. E Gorbatchev foi um realista que soube ler isto. Se foi ele que acabou com a Guerra Fria, não sei. Eu acho que, de verdade, quem acabou com a Guerra Fria foi a superioridade esmagadora dos Estados Unidos nessa altura. Ele limitou-se a fazer uma leitura realista, mas contribuiu fortemente para isso.
Portanto, em sua opinião, não houve um desejo genuíno de criar laços com Ocidente, antes uma visão pragmática daquilo que era uma desvantagem da então União Soviética face aos Estados Unidos.
Exatamente, em termos geopolíticos, foi isso que aconteceu. Ele, que era comunista desde pequenino, seguramente, soube ser realista e ler a falência do marxismo-leninismo. Isso devemos a ele. Isso sim, muito mais que o fim da Guerra Fria, ter acabado com o mito do comunismo, que se saiba hoje, persiste em Cuba e talvez na Coreia do Norte. Não sei bem se a Coreia do Norte é comunista ou o que é, mas acabou com os regimes marxistas no Leste. Nós não nos podemos esquecer que nessa altura, no final dos anos 80, os jovens na Alemanha, o que nós chamávamos na altura a Alemanha, a República Federal Alemã, ou seja, a nossa Alemanha, não a Alemanha do Leste, a parte ocidental, estavam estacionados mísseis de curto e médio alcance norte-americanos com cargas nucleares para fazer a primeira defesa se a União Soviética avançasse. E nessa altura, as populações jovens desse país, e também às vezes a Inglaterra, faziam desfiles a dizer: "Better red than dead", é melhor ser vermelho do que morto. Nós estamos a nos esquecer do que era a Europa nessa altura. Gorbatchev soube fazer uma leitura realista e acabar com esse estado, mas sobretudo, acabar com o marxismo-leninismo. E isso alterou completamente as condições geopolíticas na Europa. Quanto à Federação Russa de hoje, ela tem, obviamente, através do presidente Putin, o chamado sonho imperial, que não lhe vem só da União Soviética, vem sobretudo de Pedro, o Grande, mas tem uma vantagem, não é marxista-leninista. Acabou o comunismo na Rússia de hoje.
Gorbatchev, pelos olhos do embaixador Martins da Cruz, imagino que na Rússia haja uma boa porcentagem da população que tenha uma visão diferente do papel que Gorbatchev teve para o curso da história.
Seguramente, quem faz a leitura do chamado Império Russo. Nós não nos podemos esquecer que a Rússia é o país com a maior superfície do mundo. É um país que tem 11 fusos horários, tem dezenas e dezenas de etnias, de línguas. São várias nações, é um país muito complexo, mas tem ambições geopolíticas. Já as tinha antes da União Soviética e continuou a tê-las depois da União Soviética.
Muito bem. Agradeço-lhe, embaixador Martins da Cruz, esta sua análise ao papel de Mikhail Gorbatchev, o antigo líder soviético, o último líder da antiga União Soviética, que morreu ontem, aos 91 anos.