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O país foi afetado nesta segunda-feira por uma grande falha de energia, um apagão que deixou milhões de consumidores sem energia elétrica nas suas casas, também sem rede. Um caso inusitado, inédito e para o qual ainda não foram encontradas respostas claras. A esta altura, o foco está não só na forma como podemos evitar que isto volte a acontecer, mas também na forma como podemos vir a mitigar as consequências de um novo apagão ou uma situação semelhante. É aqui que pode entrar a inteligência artificial. Pergunto-lhe então de que forma a inteligência artificial pode ajudar em comunicações em massa neste tipo de situações?
Sim, na realidade, ela pode ajudar nas duas vertentes, quer na preventiva, quer no antes e no depois. Portanto, aqui podemos ver uma lógica de IA que está a monitorizar todas as infraestruturas e conseguir encontrar padrões que fujam ao normal, portanto, situações que possam indicar um potencial problema, neste caso, na linha. Seguramente que houveram alterações de tensão, alterações de voltagem, não sei. Eu não sou técnico nesse aspecto, mas na Automattic temos clientes que usam isto, incluindo na mesma montagem, porque estão a monitorizar as máquinas todas pela metria e quando algum evento foge do padrão, a máquina lança um alerta. E isso também pode ser um falso positivo, como pode ser, digamos, um positivo. Portanto, podemos atuar aqui e há nas duas vertentes. Claro que a primeira requer um trabalho maior de treinar a IA para ela perceber os padrões, o que é normal, o que é anormal. No lado depois, digamos, reativo, ela pode ser usada para automatizar ou otimizar uma série de processos. Por exemplo, na segunda-feira, foi muito catastrófico, ficamos todos sem comunicações, portanto não havia muito como comunicar com a população. Mas efetivamente, o que acontece normalmente é que existe um grande fluxo depois de contactos, pedidos de assistência, dúvidas, quando é que eu vou ter a energia, etc. O que nós fazemos aqui, e onde a Automattic é mais especialista neste caso, é criar soluções de automação ou otimização que permitam responder automaticamente a este tipo de solicitações. Portanto, ela pode ser desde esclarecer dúvidas relacionadas com a origem do problema, pode ser numa lógica de agendar uma intervenção, pode ser de esclarecer dúvidas. Há aqui um sem número de cenários onde podemos aplicar IA, é claro.
Foi muito falada a questão de uma mensagem da Proteção Civil a tranquilizar os portugueses, a informar os portugueses do que estava a acontecer. Com o recurso à inteligência artificial, seria mais fácil o envio dessa mensagem ou continuaria a haver constrangimentos?
Não, é tudo uma questão de escalabilidade. O que acontece é: eu se tenho uma equipa humana, eu tenho uma capacidade de execução de um número de tarefas limitado ao número de pessoas que tenho, é o que é. E escalar essas equipas é extremamente difícil. Nós com a IA conseguimos ter uma escalabilidade virtualmente ilimitada. É uma questão de disponibilizar hardware. Isto hoje em dia está tudo muito elástico do ponto de vista de recursos na cloud. Portanto, eu conseguiria ter, e consigo, já é um facto, já é provado, ter uma capacidade de comunicação digamos, quase ilimitada. Ou seja, virtualmente eu podia ter esse tipo de entidades a comunicar massivamente para a população quase em geral.
Há algum país ou há países que tenham recurso à inteligência artificial nesse tipo de situações?
Isto está a ser aplicado, eu diria, quase globalmente. Eu sei que há sistemas desses. A França diz ter, a Alemanha também diz ter, sistemas já implementados que estão constantemente a monitorizar este tipo de infraestruturas para detetar os tais desvios do padrão, portanto, situações que eventualmente possam ser anómalas e requeiram atenção. Eu diria, e falo destes dois exemplos, mas estou seguro que existem muitos outros países que estão também a monitorizar as suas infraestruturas com IA para serem proativos e não reativos.
E acredita que há em Portugal capacidade para se implementar esse recurso?
Sem dúvida, até porque nós temos uma situação bastante favorável, temos tudo centralizado. A ENEDIS e a REN, portanto a REN é alta tensão, a ENEDIS é a parte mais capilar, detêm o controle da linha. Nem estamos a falar aqui de uma fragmentação por diferentes entidades. Aqui está centralizado, é muito mais fácil ou seria muito mais fácil implementar estes tipos de sistemas. Vou repetir, isto não é mágico, a IA não é só por eu colocar IA que a IA automaticamente vai detetar este tipo de situações. É preciso treinar, é preciso ter aqui um período de monitorização das redes para que os algoritmos possam aprender o que é normal e o que não é normal, mas quanto mais cedo começarmos, mais rápido vamos ter soluções em funcionamento.
Isso a ser implementado seria gerido por que entidade? Proteção Civil, seria gerido pelo governo, entidade independente?
Eu acho que quem está melhor colocado para isso é quem gere a rede. Agora, qual seria o processo depois do ponto de vista de integração ou comunicação com as entidades que também devem estar ao corrente, como a Proteção Civil, INEM, etc.? Eu diria que seria um processo que devia ser estabelecido, mas quem devia correr este tipo de sistemas, de algoritmos, seria as próprias entidades que gerem as infraestruturas, portanto, RN e ENEDIS. Não estou a ver uma entidade externa a gerir isto, acho que seria estranho.
De que forma a inteligência artificial conseguiria identificar essas falhas? Não sei se consegue explicar.
Sim, tentar tocar aqui um pouco por miúdos, que é o costume da "Engenharia Popular". Isto são algoritmos matemáticos. Na realidade, não há aqui uma inteligência por si. O que acontece é que é passado um conjunto de informação vasto à máquina, os tais dados de treino, que se chamam de dados de treino, em que a máquina começa a saber o que é que é normal, o que é que é uma amostra normal e uma amostra não normal. E depois entram aqui algoritmos matemáticos probabilísticos, ou seja, quando entra o sinal, o sinal entra de uma certa forma, que a máquina sabe interpretar, obviamente, vai passar pelos algoritmos e no final vai sair uma previsão do que é que será aquele sinal, se é bom ou se é mau. E este algoritmo trabalha com porcentagem, vai dar no final uma probabilidade de ele ser bom ou ser mau e é isso que depois é usado. Não há aqui uma inteligência por si, nesse sentido, não é uma inteligência humana, mas existe uma aproximação probabilística daquela amostra ser boa ou ser má, ou qual for a classificação que tem que sair dali. É assim que funciona, é pura matemática e probabilidade.
Claro. Identificada essa falha, que processo é que se segue?
A partir daí despoletam-se processos mais ou menos determinísticos, em que mediante aquela saída, imaginar que zero é uma falha ou perto de um é bom e perto de zero é uma amostra que tem que ser analisada. A partir dali, faz-se o processo mais ou menos determinístico máquina de informar quem tem que informar, quer fazer uma chamada telefónica, quer enviar um e-mail, quer enviar um alerta dentro de um sistema RP, um sistema de software que é constantemente monitorizado. E estas entidades como a RNE e a EDP têm centros de controle muito avançados, seria muito fácil integrar este tipo de alarmística também nas suas consolas. Mas diria que aqui o segredo estaria neste tal modelo de IA que iria classificar e estar ativamente à escuta na rede, dos vários parâmetros que a rede é suposto ter e com isto espoletar esses tais fluxos de alerta quando as regras acontecerem