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Partimos para a análise. Neste jornal das 20h, junta-se a nós em direto Luís Tomé, especialista em Relações Internacionais, diretor do Observatório de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Boa noite, professor Luís Tomé. Parece estar cada vez mais iminente esta incursão por parte das forças israelitas na Faixa de Gaza. O que podemos esperar das próximas horas? O pior está mesmo para vir?

Olá, boa noite. Sim, eu creio que obviamente o pior está para vir. Não estou certo de que quando o primeiro-ministro Netanyahu diz que a próxima fase vem aí, seja necessariamente a grande incursão terrestre na Faixa de Gaza, veremos. A acontecer, o início será provavelmente durante a noite, mas antes disso, Israel vai ter que convencer a população do país e do mundo de que fez o possível para resgatar os reféns israelitas e de outros países. Há pouco, os próprios israelitas anunciaram o número de 126 reféns que o Hamas teria cativos em Gaza, a que se somam israelitas, a que somam um número impreciso de reféns de outras nacionalidades. Mas também disse que o Hamas é só o início. E depois temos declarações, quer do ministro israelita, quer do presidente do Conselho de Segurança Nacional, que dão indícios de que, de facto, há um objetivo na operação que Israel vai desencadear de ocupar uma parcela do território da Faixa de Gaza, falam mesmo numa Faixa de Gaza mais pequena e até tem uma frase, o ministro israelita, do objetivo claro para todos de que quem começa uma guerra contra Israel deve perder território. Mas há outras frentes. Nós temos visto tensão crescente e confrontos com o Hezbollah em território libanês. Nós vemos, aliás, ameaças do Irão a utilizar a expressão do próprio líder do Hamas, Haniyeh, cujo paradeiro é incerto, mas provavelmente não está na Faixa de Gaza, a dizer não apenas que os habitantes da Faixa de Gaza nunca vão abandonar a região, mas também a dizer que o Hezbollah tem o dedo no gatilho caso Israel insista nessa incursão. E, portanto, Israel pode confrontar-se com duas frentes, desde logo, de guerra a norte, contra o Hezbollah no Líbano e depois na Faixa de Gaza. Razão, aliás, pela qual nós vimos o primeiro-ministro Netanyahu a visitar os militares na frente de Gaza e o ministro da Defesa israelita a visitar os militares na frente Líbano-Hezbollah.

Eu ia lhe perguntar num ponto mais técnico, mais prático, o que é que podemos esperar deste possível ataque que, como ouvimos já aqui, o porta-voz do exército israelita diz que pode surgir em breve, nas próximas horas, talvez. Como é que pode surgir este ataque, a tal incursão terrestre?

Aquilo que nós percebemos é que há uma campanha primeira aérea, que tem estado em curso e que se vai intensificar. E depois há notícias várias de grupos de operações especiais de israelitas, soldados israelitas, que vão tentando identificar locais, alvos do Hamas, infraestruturas e reféns. E eu creio que é nesta fase que estamos, isto é, antes de uma invasão em larga escala do território pelas forças israelitas, há incursões cirúrgicas de grupos de operações especiais e esperam os israelitas, espera grande parte da comunidade internacional, que quando começar a ocorrer, o avanço seja relativamente lento, porque o que pretendem é que parte substancial da população civil, que nós consideramos civil, portanto não militantes do Hamas, recue para sul. Agora nós também sabemos que, e Israel aliás acusa disso o Hamas, o Hamas tem todo o interesse, está a fazer múltiplos esforços para impedir que a população saia da zona norte, como Israel tem reivindicado, tem feito ultimato nesse sentido, porque obviamente-

Poderá querer daqui o Hamas potenciar e aumentar o número de vítimas civis, será também esse o interesse deste grupo?

Não temos dúvidas, desde sempre nós percebemos que o Hamas utiliza como escudo a população palestiniana. Isso aliás ajuda a justificar por que Israel nunca quis fazer uma incursão terrestre na Faixa de Gaza desde que saiu do território, apesar dos múltiplos confrontos e ataques que vêm do Hamas, da Faixa de Gaza contra Israel. E por outro lado, agora tem uma outra cartada que também lhe serve de trunfo e que lhe serve de escudo, que são os reféns. O governo, as autoridades políticas e militares de Israel estão sob grande pressão também por causa dos reféns. E isto levanta inúmeros dilemas. A operação eu creio que vai ocorrer gradualmente, mas tem que acautelar estas duas dimensões. Não pode perder o apoio internacional, nem passar a imagem de que o faz indistintamente numa mortandade indiscriminada entre civis, destruindo simplesmente tudo à sua frente e que não fez o possível, o que poderia fazer, para resgatar os reféns. Aliás, Israel orgulha-se inclusivamente de às vezes fazer cedências muito difíceis para resgatar reféns, que enfim, o Hamas foi fazendo. Nós sabemos das trocas de prisioneiros, que são sempre em grande quantidade os libertados palestinianos nas prisões israelitas a troco de reféns que o Hamas foi fazendo. Agora Por maioria de razão.

Luís Tomé, a minha próxima pergunta era precisamente um ponto que tocou e apelo à sua capacidade, porque infelizmente o nosso tempo não é muito neste jornal. Como é que devemos também olhar para a resposta da comunidade internacional, nomeadamente Estados Unidos e Comissão Europeia, nos últimos dias? Tem sido suficiente para evitar este ataque e travar estas hostilidades?

É difícil saber até que ponto é que a pressão é o que está a travar o avanço de Israel. Eu acho que Israel tem dúvidas, porque não tem totalmente definida a forma de o fazer, mas obviamente há aqui uma grande pressão internacional. A pressão é tão grande que hoje mesmo o secretário de Estado Blinken conversou com o homólogo chinês para tentar evitar a escalada para outros países. E isso é noticiado e é assumido, porque há aqui riscos, de facto, não só de uma catástrofe que pode ocorrer na Faixa de Gaza se não forem acautelados certos aspetos, mas de uma escalada para outras frentes que envolveria outros países.

Uma extensão do conflito a outros territórios, uma questão que tem sido bastante debatida esta semana.

E até levantamento de outras populações que neste contexto do Egito à Jordânia podem ser instigadas a levantar-se, além dos fatores de insegurança em muitos países, como vemos alguns atentados e ameaças da Europa aos Estados Unidos vêm ocorrendo, porque infelizmente, para muitas agendas discretas ou discretas, têm propositadamente feito a confusão entre o que é o Hamas enquanto grupo terrorista e aquilo que é a Palestina e o conjunto da comunidade palestiniana. Essa diferença tem que ser estabelecida e o primeiro a estabelecer essa diferença deve ser exatamente Israel na forma agora de continuar a sua retaliação contra o ataque terrorista que sofreu.

Obrigado, Luís Tomé, especialista em Relações Internacionais, diretor do Observatório de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Estivemos nos últimos minutos a analisar os últimos desenvolvimentos deste conflito no Médio Oriente. Agradeço ao professor Luís Tomé pela disponibilidade em ter estado em direto conosco neste jornal das 20:00.