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Em 2018 convocou 300 jovens para participarem numa reunião pré-sinodal. Chamou jovens católicos, mas também de outras confissões cristãs e de outras religiões e até não crentes. Entre os convocados, três eram portugueses e agora está aqui conosco em direto um desses jovens portugueses, o agora seminarista Tomás Virtuoso, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco nesta edição das 15h. Tomás, bem-vindo. O que foi exatamente esta reunião pré-sinodal e de que maneira expressa o protagonismo que Francisco queria dar aos mais jovens?
Olá, boa tarde, muito obrigado pelo vosso convite. Foi já há muitos anos, mas esta reunião pré-sinodal, na altura, foi um grande vejo que o Papa teve de, antes do Sínodo, onde os bispos se reuniam a falar sobre este tema dos jovens, de ouvir 300 jovens das várias partes do mundo que trouxessem a sua experiência concreta daquilo que na sua vida a Igreja já tinha de presença, de alegria, de sentido, da possibilidade de conhecer Jesus, mas também aquilo que iam sentindo, lugares onde a Igreja precisava de chegar, coisas que a Igreja ainda precisava de ter mais em atenção. E por isso foi uma experiência extraordinária de conhecimento de jovens do mundo inteiro, onde o Papa também nos foi ouvindo e que depois teve repercussões em várias coisas nos anos a seguir.
Conversou há dois anos com o Papa Francisco, aqui em Lisboa, na Universidade Católica Portuguesa. Esta constante inclusão dos jovens em momentos de grande visibilidade mostrava um papa a pensar numa igreja virada para o futuro, quando vemos, por exemplo, a religião muçulmana a aumentar exponencialmente o catolicismo. No entanto, é importante chamar os jovens a ver aqui uma forma de incluí-los no futuro da Igreja Católica?
Sim, como dizia, foi uma conversa um bocadinho pública, porque de facto tive a oportunidade de trocar uma palavra de circunstância com o Papa, mas foi a grande graça que tive, a grande alegria de poder falar ao Papa diante de toda aquela gente. E no fundo, esta certeza sempre, que o Papa, como todos os papas, mas o Papa Francisco, um papa para este tempo também, foi podendo dar de que Jesus continua a ser relevante para os jovens de hoje. Das coisas mais marcantes para mim, que hoje estou no seminário exatamente também porque creio que o Papa Francisco teve um papel importante no caminho que Jesus foi fazendo comigo, de me agarrar o coração completamente, de tal forma que desejo hoje ser padre e entregar a minha vida toda à Igreja. Foi muito um documento que o Papa escreveu e que foi sendo muito citado nestes tempos, que é "Cristo Vive", onde o Papa escreveu uma carta a cada um dos jovens católicos e não só, mas onde falava exatamente disto, de que Cristo, de que Jesus continua a ser sempre, em cada tempo, a resposta às inquietações mais profundas dos corações humanos e, sobretudo, dos corações do futuro, dos jovens. E, portanto, claramente que aí o Papa foi até hoje a resposta que a Igreja também foi tendo, de dizer que de facto Jesus continua a ser aquilo que os jovens mais necessitam. E o Papa marcou a nossa juventude também por isso, porque nunca deixou de dizer, sempre com o seu modo muito próprio, mas verdadeiramente apaixonado, coração latino apaixonado, que Jesus era aquilo que os jovens andavam à procura.
Tomás, se bem percebi, o Papa Francisco teve de alguma forma influência na sua decisão de entrar para o seminário?
Sim, porque vou ser sincero, houve várias coisas que, não o Papa diretamente, mas a Igreja, por meio do Papa, me foram pedindo, que me foram cativando cada vez mais o coração. Foram circunstâncias, eu não acredito que tenha sido fruto do acaso. Acho que foi a forma como Deus foi conduzindo a minha história e foi também muito pela mão do Papa, coisas que o Papa foi pondo, até a decisão de trazer as jornadas para Portugal. Claro, não tenho a pretensão nenhuma do Papa conhecer-me ou conhecer a minha história, nada disso, mas a certeza de que também Deus foi, por meio daquilo que o Papa foi sugerindo à Igreja, também foi tocando o meu coração e trazendo ao meu coração este sentido que possivelmente Jesus queria mesmo que eu entregasse a minha vida toda. E por isso, como devem imaginar, para mim o dia hoje é um dia de tristeza, porque morre um pai.
Era o que eu lhe ia perguntar. Que sentimentos lhe despertaram quando tomou conhecimento da morte do Papa Francisco?
Sim, olhe, é o sentimento mais humano possível, da tristeza de um pai que parte, mas da certeza profunda de que Deus quer dizer alguma coisa com ter levado o Papa praticamente no dia da Páscoa, nestes dias em que celebramos nós cristãos os dias maiores em que celebramos a Páscoa, esta certeza de que o Papa teve um papel histórico neste tempo, de que a Igreja continua a ser hoje, apesar de todas as dificuldades, continua a ser hoje relevante para o mundo, que tem hoje uma palavra de sentido a dar ao mundo. E por isso é também uma alegria, uma alegria profunda. Com certeza que não é uma alegria superficial. Estamos tristes com a morte do Papa, mas é uma alegria profunda saber que tudo isto tem um sentido muito maior e de que a entrega que o Papa ainda ontem revelou. Deixe-me só partilhar isto, que eu achei mesmo bonito, profético, que a última coisa que o Papa fez foi depois de não sei quantos meses, sem quase praticamente conseguir falar, em que o vimos a lutar pela vida. Ontem vem, dá a benção "urbi et orbi" a todo mundo, a toda a gente, a todas as pessoas. Fala ao povo, anuncia a grande alegria da ressurreição, depois passa no meio do seu povo, abençoa crianças, abençoa velhos, abençoa doentes, abençoa e depois recolhe-se e morre. Quer dizer, eu acho que se tivéssemos escrito uma forma mais bonita do Papa ter morrido, era difícil. E, portanto, para mim, é a tristeza alegre de quem sabe que isto não acaba aqui, que também foi isso que o Papa sempre nos disse, essa profunda fé na vida eterna. E, portanto, olhe, também é um testemunho de alegria que eu queria deixar.