Quem diria? De um dia para o outro (e estou a ser literal: foi mesmo de um dia para o outro) a pátria descobriu, boquiaberta, que António José Seguro é um génio político. Antes de o nosso amado Presidente elevar a voz e esticar o dedo acusador, o país estava perdido nas trevas, na violência e na desorientação, dividido entre as tendas e os bastões. Nos bairros, não havia casas; nas carteiras, não havia dinheiro; nas ruas, não havia tranquilidade. Até que, elevando-se aos céus como um anjo, António José Seguro assumiu, para usar a expressão de um dos seus apoiantes, o “comando” do problema da habitação. Indignadíssimo, perguntou: “Porque é que os partidos não se entendem? Custa alguma coisa sentarem-se e encontrarem soluções?”

São perguntas boas — se forem feitas por uma criança de 12 anos numa crise de pré-adolescência. Mas um político que tem experiência suficiente para chegar ao Palácio de Belém devia saber a resposta de cor. É simples: os partidos não se entendem porque têm opiniões diferentes sobre a melhor forma de resolver os problemas, nomeadamente o da habitação. E custa sentarem-se porque as cadeiras ainda não têm o poder mágico de apagar as divergências. Por exemplo: o PS quer algum tipo de tecto às rendas para proteger os inquilinos; o PSD acha que qualquer tipo de tecto às rendas irá assustar os senhorios; e o Chega acha que sim, acha que não e acha que antes pelo contrário porque é tudo uma VERGONHA.

Mesmo assim, António José Seguro insistiu: os partidos tinham mesmo de se entender, tinham mesmo de se sentar e tinham mesmo de encontrar soluções. Perante esta caturrice presidencial, Luís Montenegro repetiu o seu exercício preferido em momentos de impasse: convocou os jornalistas para a residência oficial do primeiro-ministro às oito da noite. Aparentemente, estava a capitular: o chefe do governo informou o país de que tinha falado com os líderes do Chega e do PS sobre habitação e que os iria receber para continuar este diálogo profícuo. Os apoiantes do Presidente exultaram: os mesquinhos líderes partidários estavam a vergar-se à sabedoria e à liderança do Palácio de Belém. O plano de António José Seguro era brilhante.

Mais ou menos: o plano de António José Seguro pode ser brilhante para o Presidente, pode ser brilhante para o PSD e pode ser brilhante para o Chega. Mas, decididamente, não é brilhante para o PS. Os socialistas não eram colocados numa posição tão frágil desde que, em 2024, decidiram, num acesso de febre, eleger Pedro Nuno Santos como líder.

O “diálogo” imposto pelo Presidente da República aos partidos tem dois enormes problemas para o PS. O primeiro é que, numa negociação entre o governo e um partido, as posições de força de cada um são sempre assimétricas. É o governo quem faz o convite, é o governo quem toma a iniciativa, é o governo quem define os tempos e, no limite, é o governo quem decide. O segundo problema é que o “diálogo” presidencial não é feito a dois — é feito a três. Ou seja: inclui o Chega. Aquilo que António José Seguro exigiu foi um processo que, pela sua própria natureza, dispensa e derruba as “linhas vermelhas” com as quais o PS queria isolar o Chega. Perante isto, ou José Luís Carneiro se distanciava do Presidente ou aceitava que não é possível chegar a acordos de regime sem a participação do partido que quer derrubar o regime. Dessa forma, o PS foi forçado a reconhecer que o partido mais à direita do sistema pode escolher uma cadeira, sentar-se à mesa e beber um chá com todos os outros.

Isto fez-me lembrar uma história antiga. Em 1978, Mário Soares descobriu uma maneira hábil de formar o segundo governo da democracia: tentando sacudir a pressão do então Presidente Eanes e do PSD, assinou um acordo político com o CDS. Ao saber disto, Francisco Sá Carneiro ficou pesadamente preocupado: ali, à frente dele, estava a concretização da “teoria das duas bossas”. Essa tese tinha saído da cabeça fervilhante do centrista Adelino Amaro da Costa. Segundo aquele fundador do CDS, a melhor forma de dividir e destruir o PSD era através do método das duas bossas do camelo. A bossa da esquerda era o PS; a bossa da direita era o CDS; e no meio, esmagado entre as duas, ficaria o PSD, sem rota de fuga ou caminho de crescimento. Sá Carneiro partilhou as suas ansiedades com Vasco Pulido Valente, mas ele tranquilizou-o: na verdade, aquilo era ótimo para o PSD. Depois de o PS colocar o CDS no governo, ninguém podia continuar a dizer que os centristas eram “fascistas”. Consumado esse banho lustral, o PSD poderia no futuro aliar-se ao CDS sem medo de fantasmas — e, de facto, no ano seguinte, desfeito o segundo governo de Mário Soares, seria formada a primeira AD, que juntou o PSD e o CDS.

Confirma-se: António José Seguro é um génio político e tem um plano brilhante.