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José Eduardo Agulusa junta-se a este jornal, escritor. Antes de mais, obrigado por esta oportunidade. Esteve atento às palavras de João Lourenço. O povo foi realmente o vencedor destas eleições, como diz o agora presidente angolano?
Este discurso eu estive a ouvir com atenção. Lembra-me muito um filme recente, um filme angolano que se chama "A Nossa Senhora da Loja de Chinês", do Eric Levy, que é um filme inteligentíssimo e muito surpreendente, que está agora a fazer o circuito dos festivais. E nesse filme há uma cena extraordinária, que é uma cena de um discurso de um presidente da República, fictício, naturalmente, na Praça do Touro de Luanda, tendo por audiência uma série de fantoches. Quer dizer, o povo é representado ali por fantoches. E este discurso de João Lourenço parece realmente o pastiche de um discurso de presidente da República fictício. Ou seja, ele promete tudo. Ele promete construir mais hospitais, mais escolas, mais estradas. Agora, curiosamente, não o ouvi nunca falar em combate contra a corrupção. Ele promete lutar pela igualdade de género, promete até lutar contra os efeitos das queimadas tradicionais, mas não falou nunca em combate à corrupção. Promete continuar a investir nas energias renováveis. Ouvi-o até prometer defender os elefantes, os jacarés e os macacos, mas não o ouvi falar, curiosamente, em combate contra a corrupção, que no início do seu primeiro mandato, era o seu principal combate. Também o ouvi falar na sua grande preocupação com uma série de conflitos, desde a Etiópia, Israel com a Palestina, naturalmente a guerra da Ucrânia, mas não o ouvi dizer uma única palavra sobre o terrorismo islâmico em Moçambique, que é um país irmão e que está logo ali ao lado. E não falou nunca em combate contra a corrupção.
José Eduardo Agulusa, indo a essas palavras, dessas promessas, mais apoios sociais, mais investimento, mais atenção aos jovens, investimento nas estruturas do país. Mas depois também há aqui uma promessa, um aumento para os militares. O que é que podemos entender destas promessas?
Podemos entender que ele não conta com o apoio dos militares. Isto é algo que já se sabe bem. As Forças Armadas Angolanas são uma entidade muito complexa, que tem evoluído ao longo dos tempos, mas que tem sabido manter a sua independência. E curiosamente, nestas eleições, verificou-se que nos quartéis, a maioria dos soldados e dos oficiais operacionais, vamos dizer assim, não votaram no MPLA, votaram na UNITA. Portanto, é natural que ele esteja também apreensivo em relação aos militares, às Forças Armadas.
A UNITA, que não marcou presença nesta tomada de posse. Os deputados vão, no entanto, tomar posse amanhã. A UNITA, que venceu em Luanda. José Eduardo Agulusa, entende-se esta ausência do principal líder da oposição, Adalberto da Costa Júnior, nesta tomada de posse e depois a ida para o Parlamento para tomarem posse os deputados da UNITA?
Olhe, eu ouvi o discurso de João Lourenço e tinha antes ouvido o discurso de Adalberto. E devo dizer-lhe que o Adalberto ganhou também o discurso. O discurso de Adalberto é um discurso com alma. É um discurso apaixonado e onde ele explica perfeitamente a atitude da UNITA agora e a necessidade de ocupar o seu lugar no Parlamento para fazer a luta política que pode fazer. Que pode fazer neste contexto, não indo para a violência, não indo para as grandes manifestações da rua.
De qualquer maneira, já há uma manifestação marcada para este mês por parte da UNITA. José Eduardo Agulusa, conhece muito bem esta realidade em Angola. Este tipo de manifestações, de ajuntamento, pode levar a algum tipo de violência? Imagino eu que a ideia da UNITA não seja essa.
A UNITA não tem nem condições para exercer a violência. É um partido não armado.
O que eu digo é um ajuntamento de pessoas.
Sim, pode haver violência se a polícia exercer a violência contra esses manifestantes. Eu acho que se isso acontecer, a situação vai ficando mais para o lado de João Lourenço, que não conta neste momento com o apoio da população de Luanda. Aliás, mesmo os dados oficiais já mostram isso, mesmo esses simples dados são 62% de pessoas que terão votado na UNITA, se não forem mais. Portanto, a UNITA não conta com o apoio da população de Luanda. O João Lourenço vai governar, ou vai tentar governar, num contexto completamente hostil. Então é uma situação completamente diferente daquela que ele encontrou no início do seu primeiro mandato. Ele não tem agora nem o apoio do partido, nem o apoio da população, nem o apoio das Forças Armadas, então vai ser muito difícil.