Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A comunidade curda está bastante representada em França, em especial na capital francesa. Esta tensão era esperada? É possível que cresça nos próximos dias?
Boa tarde, Diogo. É possível que cresça, mas primeiro temos de perceber que a situação tem três níveis de análise. Primeiro: foi um ato individual, mas traduz uma posição que vai além disso. E repare, não foi reivindicado, porque os partidos, no caso da extrema-direita, nunca seguem a norma dos movimentos terroristas. Esses movimentos terroristas é que têm sempre logo a capacidade de reivindicar a autoria dos atentados. Os partidos sabem que isso lhes traria reflexos negativos a nível eleitoral e, portanto, como é que vimos Marine Le Pen reagir? Condenou o atentado, mas imediatamente apelou para a necessidade de mais proteção de políticas securitárias e valorizou o papel da polícia. E aí entramos no segundo nível de análise, Diogo. É que este é um problema de xenofobia, não é racismo. Xenofobia aponta mais para a cultura, para a identidade, do que para a cor da pele. E o que é que há? É um problema de xenofobia. Em França não há xenofobia a nível institucional, mas verifica-se a nível cultural. Basta ver a aceitação social do populismo cultural ou identitário. E eu entendo que tudo decorre da forma como a França tem privilegiado, em relação às comunidades imigrantes, a assimilação em detrimento da inclusão. Quer dizer, a França não tem sabido conviver com os trópicos em casa e por isso mesmo estes atos eram perfeitamente previsíveis. Por quê? A questão que está aqui entre os curdos e os turcos não diz respeito apenas à França, diz respeito a que os curdos querem que uma parte da Turquia, onde vivem curdos, passe a independente. E o que acontece é que estes curdos que vivem na diáspora entendem que a sociedade francesa e as autoridades francesas, mais em particular, têm exercido uma enorme pressão sobre a comunidade curda, mas não têm tido a mesma atitude face à comunidade turca, que tem efetuado atos como, por exemplo, isto é facto, tem efetuado atos criminosos, porque houve agentes secretos turcos que mataram curdos há alguns anos. Mas claro que ontem, o que nós estamos a assistir e o que estamos a assistir hoje, é a manifestação curda no sentido de uma vitimização, sentindo que as autoridades francesas não estão ao lado dos curdos como deviam estar e estão a privilegiar a relação com a Turquia. Nestas situações a razão nunca assiste apenas a um dos lados. É evidente que a relação entre os curdos e os turcos está para durar e é uma relação de conflito. Repare, ontem apareceu imediatamente uma bandeira do PKK. O PKK, os nossos ouvintes têm de saber, que é uma organização terrorista que há mais de 25 anos é considerada terrorista por parte dos Estados Unidos. E eu chamaria a atenção que o PKK em 1916/17 fez 159 atentados, e atentados muito violentos. Portanto, aqueles que hoje estão a sentir-se vítimas, em muitas outras situações já foram algozes. É evidente que nós sabemos que os serviços secretos turcos têm efetuado operações que não deviam efetuar, porque é em território estrangeiro, em França, e que a comunidade turca tem sido vítima disso. A comunidade turca provavelmente não está correta, Diogo. Provavelmente é melhor dizer alguns membros dessa comunidade, aqueles que são conotados com o PKK. E eu chamaria a atenção que o PKK é uma organização terrorista, mas a sua capacidade em termos de membros andará à volta dos quatro mil a cinco mil. E desses nem todos estão na Europa, nem todos estão em França.