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Junta-se agora a nós neste Jornal Observador, José Fragata, é cardiologista, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa para a área da saúde. Muito boa tarde, José Fragata. Obrigado por se juntar a nós. Ouvimos o primeiro-ministro levantar essa hipótese de apertar as regras do estado de emergência para conter com mais eficácia esta pandemia da Covid-19. Olhando para aquilo que está a ser feito noutros países, para as medidas que já foram aplicadas noutros países para conter esta pandemia, de que medidas adicionais poderá estar a falar o primeiro-ministro? O que é que podemos ver anunciado já amanhã? Até porque o Conselho de Ministros vai reunir novamente para depois avançar com essa legislação a propósito do decreto presidencial.

João Santos, muito obrigado pela pergunta. Eu acho que esta declaração do senhor primeiro-ministro era só de esperar, porque verdadeiramente parece que estamos a conseguir controlar internamente esta pandemia. Eu dir-lhe-ei uma coisa muito simples: o que temos estado a fazer, e está a correr-nos bem, pelo menos até agora, é aplanar uma curva gaussiana de pico que estamos a transformar em planalto, isto é, estamos a baixar-lhe a altura e a estendê-la no tempo. E eu direi que, relativamente à luta de pandemias deste tipo, mais depressa significa ir mais devagar. Isto é, de facto, diferir no tempo o pico para impedir não é ter menos doentes, mas é, sobretudo, que essa afluência extrema, descontrolada de doentes, ultrapasse a capacidade de qualquer sistema de saúde. Portanto, isto é, permitindo tratar melhor os doentes à medida que se vão apresentando, sem um excesso de fluxo. Isso é inteligente, vai salvar vidas, apesar de nos poder prolongar no tempo, como a senhora diretora geral da saúde disse, para maio, esse platô, esse nível máximo, mas em planalto.

E ainda hoje ouvimos o primeiro-ministro dizer também que este mês de abril é o mês mais difícil. Foi esta a expressão utilizada por António Costa, porque é o mês onde, em princípio, os portugueses podem começar a sentir esse maior cansaço do isolamento social e onde vão começar também a sentir as fragilidades resultantes da perda de rendimentos.

Mas não podem e é por isso que o reforço destas medidas de estado de emergência, e eu sinceramente o que me parecerá é reforço do controlo ou da eficácia das medidas impostas e basicamente as medidas têm a ver: as escolas estão fechadas e não é previsível que vão abrir antes de férias. Este reforço de medidas só, penso eu, terá muito mais a ver agora com o enforcement das autoridades, fazendo cumprir essas regras de isolamento social e fazendo com que as pessoas verdadeiramente, de uma forma cívica, não se desloquem sem um motivo de força maior. Não saiam de casa, a não ser por uma razão de força absolutamente provada e maior. Eu acho que os portugueses, se quer que lhe diga, e por acaso escrevi isso hoje para outro órgão de informação, têm-se portado de uma forma exemplar e portanto, numa altura em que aparentemente estamos a começar a ganhar, tem toda a legitimidade que o governo e o senhor Presidente da República e a Assembleia reforcem a manutenção deste estado de emergência e até fazê-lo cumprir de forma melhor. Não vai haver economia que resista se não estivermos cá para contar. E portanto, nós temos que ultrapassar isto de uma forma menos dolorosa que, por exemplo, em Itália e em Espanha, e sabemos que para fazê-lo temos que continuar a fazer aquilo que temos estado a fazer, porque eu acho que temos estado a portar-nos bem para essa expressão.

Mas portanto, José Fragata, enquanto profissional de saúde, é cardiologista, é vice-reitor da Universidade Nova, tem acompanhado também os desenvolvimentos no que diz respeito aos números. Tem tentado também, de alguma forma, acompanhar aquilo que são as medidas adotadas pelo governo para conter e para mitigar esta pandemia. Do que está a falar, do que pode vir aí. Portanto, são medidas mais apertadas no que diz respeito, por exemplo, às forças de segurança, ou seja, uma maior fiscalização no que diz respeito à circulação por parte das pessoas de município para município, de distrito para distrito. Vai ser por aí e continuar também com vários espaços fechados, considerados os espaços não essenciais.

As autoridades têm tido uma ação dominantemente pedagógica, mas sabemos que houve pessoas detidas e autuadas por desrespeito. Eu acho que estamos numa altura festiva em que pode haver uma certa tentação, que seria até normal, das pessoas aliviarem essas medidas. Eu acho que estamos na altura, exatamente, de as reforçar. E, portanto, a minha expectativa é que continue o estado de emergência, que é uma limitação para todos nós, mas é uma via para a nossa própria salvação.