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Estes adjetivos e a forma como é descrito Mikhail Gorbatchov por alguns dos principais líderes mundiais fazem jus ao legado do último presidente da União Soviética? Bom dia.

Bom dia. Fazem jus do lado do Ocidente. Ou seja, Gorbatchov tem duas leituras: uma leitura ocidental e de aproximação efetivamente do leste da Europa ao Ocidente e necessariamente o fim da União Soviética. Mas por outro lado, e aliás Putin veio referir várias vezes que o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Por isso, há aqui bastante controvérsia relativamente a este líder. Até porque a sua identificação inicial era com ideais marxistas-leninistas, mas no início da década de 90 ele inclinou-se para a social-democracia e por isso levou à política de desanuviamento e talvez os dois grandes paradigmas que estão associados a Gorbatchov tenha sido a política de transparência, de uma abertura política, quer a nível interno, quer pelas liberdades de expressão e imprensa, que depois tiveram repercussão a nível internacional, conhecida como Glasnost, e a Perestroika, que era uma reestruturação que visava descentralizar a tomada de decisões no âmbito económico e a própria liberalização a nível económico. Mas esta democratização e todos estes conjuntos de liberdades levaram também a um enfraquecimento daquilo que era conhecido subjacente à própria União Soviética, porque a formação do Congresso dos Deputados do Povo, promovida por Gorbatchov, enfraqueceu o sistema estatal unipartidário. E hoje, do lado da Rússia, há o entendimento, por parte pelo menos das elites que gravitam em torno do Kremlin, que foi este enfraquecimento do sistema estatal unipartidário que conduziu efetivamente ao declínio da Rússia.

Da então União Soviética.

Da então União Soviética, e atualmente a Rússia.

E essa é uma percepção partilhada pela população russa, pela sociedade russa, ou apenas pelas elites que sonham e continuam a sonhar com a grande Mãe Rússia?

É partilhada pelas elites. Repare que nós não conseguimos neste momento ter acesso àquele que é o sentimento da população, até porque neste momento as liberdades na Rússia estão bastante comprometidas e por isso nós não podemos dizer se esse é o sentimento ou não de todos os russos. Agora, que é um sentimento que existe no Kremlin e sobretudo partilhado por Putin. E também há algo muito interessante, logo em 2014, aquando da anexação da Crimeia, Gorbatchov veio dizer que o referendo da Crimeia estava a corrigir um erro histórico, ou seja, de certa forma quase subscrevendo a anexação da Crimeia. Tanto que a Ucrânia manifestou-se logo contra aquela que era a posição de Gorbatchov em 2014. Aquilo que pode também ter estado subjacente a estas declarações de Gorbatchov em 2014, tem muito a ver com aquilo que ficaria conhecido do próprio perfil de Gorbatchov. Aliás, que era da doutrina Sinatra. Ficaria assim conhecida a doutrina Sinatra, porque Gorbatchov fazia tudo segundo My Way. Então a música My Way, de Frank Sinatra, viria também a cunhar. Ele era extremamente livre.

Liliana, e já aqui fez referência à evolução do pensamento de Mikhail Gorbatchov, um pensamento marxista-leninista para uma evolução para a social-democracia. O que é que motivou essa evolução do pensamento de Gorbatchov?

Em grande medida, a própria evolução do mundo no final do século XX, mas também o descontentamento que ele observava em alguns daqueles que viriam a originar a Comunidade de Estados Independentes. Começava a surgir efetivamente um descontentamento, e mais, a Perestroika, como eu já referi, a estruturação que ele pretendia era para, em certa medida, não aproximar a União Soviética do Ocidente, mas sobretudo fazê-la crescer economicamente. E ele percebia que para a União Soviética conseguir esse crescimento económico necessitava da aproximação ao Ocidente, por um lado, mas por outro lado também de uma liberalização a nível interno. Precisava de promover primeiramente e depois consolidar as liberdades, quer as liberdades civis e políticas Mas também as económicas, sociais e culturais. E isto é muito importante. Agora, hoje nós vemos todos os líderes ocidentais manifestar uma profunda consternação pela morte de Gorbatchov e sem dúvida pelo papel que teve de aproximação e de paz. Há aqui algo muito importante que nós não podemos esquecer. Gorbatchov foi premiado com o Prémio Nobel da Paz em 1990. Não apenas com uma visão perspetiva sobre tudo aquilo que ele tinha feito nos anos que antecederam, nomeadamente em 89, com a queda do Muro de Berlim e com a união das duas Alemanhas, mas também com uma visão prospetiva, com aquilo que poderia efetivamente acontecer depois do derrube da Cortina de Ferro. Mas logo após, logo em agosto de 91, há uma tentativa de golpe de Estado contra Gorbatchov e a dissolução da União Soviética, e claro, a formação da Comunidade de Estados Independentes, levam-no a renunciar em 1991, logo em dezembro. Ou seja, em agosto acontece o golpe de Estado e em dezembro ele renuncia. Por isso é que eu digo que é efetivamente uma personagem bastante controversa, muito apreciado no Ocidente, exatamente por aquilo que promoveu.

Não tanto na Rússia.

Não tanto nas elites russas. Claro que, quase que me leva a antecipar que hoje os cidadãos russos gostariam novamente de uma política de glasnost, de aumento das suas liberdades de expressão, de imprensa. Nós não nos podemos esquecer também quem ganhou o Prémio Nobel da Paz no ano passado. Claro que há efetivamente aqui uma saudade deste líder, quando nós temos Putin neste momento no Kremlin, e repare-se que esta morte acontece com uma guerra em curso e talvez no momento de maior divisão depois da Guerra Fria entre o Ocidente e o Leste da Europa.