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Vamos ter agora um convidado especial, o Ljubomir Staniszic está conosco também para olharmos esta crise no setor da hotelaria. E também para nos acompanhar nesta conversa está o jornalista Diogo Lopes. Diogo, bem-vindo de novo.

Olá, Nelson, bem-vindo.

Diogo, temos também nas últimas horas assistido aqui a uma comunicação da ARES via internet. A secretária-geral Ana Jacinto pediu calma aos empresários e aos chefs, porque o suposto guia de boas práticas que andou a circular não é uma versão final. Disse ainda que não está previsto, por exemplo, a colocação de acrílicos para atendimento ao público nos restaurantes e nem sequer a medição de temperatura. Ljubomir Staniszic está conosco nesta tarde na Rádio Observador. Muito boa tarde, obrigado por esta participação. Ljubomir, tinha aqui uma primeira pergunta, se teve a oportunidade para ver esta comunicação e o que é que pensa deste suposto guia de boas práticas que não parece estar ainda na sua versão final.

Na minha opinião, o primeiro documento que circulou, que foi feito pelos engenheiros do ARES e foi entregue ao governo na sexta-feira, foi um documento surreal completamente. Em primeiro lugar, é um documento que é impraticável sequer existir, as normas que foram ali aplicadas para restauração, que para qualquer um de nós, seja qual setor for, o restaurante da rua, tasca, fine dining, ia à falência, porque é impossível praticá-lo. Clientes não podiam ir à casa de banho, tinha uma circulação, tinham que existir janelas entre mesas, normas praticamente surreais que não eram aplicáveis e para nós, financeiramente, não eram sustentáveis. Nós temos vários grupos de restauração e uma delas que se deslocou à ARES a exigir uma reunião juntamente com o Pedro Gonçalves do Ramiro e o José Avillez, que em grupo todos colocámos exigências que achámos que fazia parte das normas e pelos vistos foi escrita a segunda carta enviada para o governo com normas novas e diferentes. O único problema é que nenhum de nós restauradores teve acesso a esse comunicado. Nós não sequer temos opinião a dizer se gostamos ou não daquilo que nos representa. E se uma entidade nos apresenta como ARES, porque todos nós pagamos mensalmente as contas, acho que devíamos ter acesso, todos os restauradores deste país, desde cafeterias, hotelarias e restauração, a esse comunicado e saber exatamente que normas são impostas para nós começarmos a preparar, embora é o governo que vai decidir qual é o caminho que vai tomar, mas de qualquer maneira, todos os associados deviam ter direito de ler aquilo que é apresentado ao governo. Por isso é que pagamos uma associação todos os meses, é para nos defender e para estar à frente de nós. Conduta que foi feita pela ARES. Desde o início, eu não estou de acordo com ela, mas isso é minha opinião pessoal, porque eu acho que isso tem que ser trabalho unido entre todos os empresários restauradores e falar com todos eles, que alguns representam tal classe e os outros mais pequenos e médios, porque toda a gente precisa da ajuda. Não é eu, nem o outro, somos todos.

Ljubo, queria tentar perceber se tinha também alguma opinião a propósito do que passam ser as medidas razoáveis de proteção para clientes e funcionários nos restaurantes.

Eu tenho uma opinião pessoal. Nós todos que praticamos HCCP, que é praticamente uma norma exigida pelo governo no país inteiro, nós já praticamos normas principais da higiene. Se nós aplicamos estas normas, que continuamos a trabalhar com elas, medimos temperatura à entrada do cliente e servimos gel de mãos, acho que é mais que suficiente. Temos que perceber uma coisa: nós somos hospitaleiros, em primeiro lugar, mas nós não trabalhamos no hospital. Isto não é uma fábrica de químicos. Nós damos prazer às pessoas, música, ambiente, a comida, um copo, tudo faz parte de uma viagem, porque não é só dar comida ao cliente, nós damos prazer às pessoas, é para isso que escolhemos esta profissão e é para isso que trabalhamos. Por isto, normas excessivas, exageradas, primeiro, não vão funcionar, segundo, vão levar muitas pessoas à falência. Nós temos que perceber que um restaurante, qualquer um que seja neste país, abaixo de 50% a 60% de ocupação, não é viável, é um negócio falido. Já agora que não temos apoios do governo, que temos só ofertas de uma mão cheia de nada. Que têm corrigido, porque o layoff, se nós olharmos corretamente para um layoff, todos nós pagamos impostos. Eu pago desde os 19 anos, desde que sou empresário, pago direito ao Estado todo aquilo que é o meu dever, desde Segurança Social até CESu e impostos, por isso tenho direito ao layoff, como todas as pessoas que pagam, que não têm dívidas ao Estado. Por isso nós investimos nisto este tempo todo. Agora, as outras normas estão a sair muito dificilmente para restauração, estão a sair com muitas complicações, exigências de terceiros e quintos e sétimos papéis, reversão de contabilidade, em vez de ter se simplificado e continuar até o final do ano. Porque, de facto, o que nós queremos é voltar a apoiar este governo que está nos governar atualmente. Para mim, indiferente quem está no governo, me importa como nos guia. Esta parte é que interessa, porque eu próprio tenho direito de reclamar, porque se o próprio governo quando vai ao meu restaurante reclama se o prato está frio ou está quente, se está pouco sal ou mais sal. Também eu tenho direito, tal e qual, reclamar sobre o governo. Estamos nos direitos democráticos que toda gente tem direito de usufruir deles. O que eu acho é que estes apoios não são claros, não são suficientes, são muito complicados, desnecessariamente. E falo isto pelo país inteiro, pela restauração toda. Das rendas que têm que ser aplicadas, que pessoas não sabem o que fazer A um lado, que o governo primeiro deu apoio aos proprietários dos espaços, depois retirou e nós temos de pagar rendas na totalidade. Se não estamos a usufruir já há dois meses, são 48 dias que passa hoje, não estamos a usufruir do nosso espaço comercial para funcionamento, por que somos obrigados a pagar rendas? Por que o governo não nos dá apoio nisso? Por que, no mínimo, não dá apoio aos proprietários para dividirmos isto a meias, algumas dificuldades de pagamento? Se nós não exercemos a nossa função, como é que conseguimos pagar essas rendas? Indiferentemente seja uma ou quem tem 30 restaurantes, que paga 30. Mas há aqui medidas que não são claras. Muitas delas são só para complicar, para se ganhar tempo, como se costuma dizer. A solução, vamos ouvir o que o governo tem para nos dizer, quais são as normas. Nós queremos abrir, queremos trabalhar. Não quero garantidamente trabalhar com um fato de NASA dentro do meu restaurante, que não vou a Marte. Por isso, se o governo decidir que nós temos de nos expor para Covid, ter os máximos cuidados para não espalhar a doença, é isso que temos que fazer. Limitação de idade para poder entrar.

Desculpa interromper, Lubo. Sem problema, era também para fazer uma pergunta.

Por isso desculpa-me.

Claro. Não, sem problema, é para isso que aqui estamos. Mas era só para aproveitar, porque como não temos muito tempo, era também para aproveitar e perguntar-lhe qual está a ser o impacto real de toda esta crise nos seus negócios, por exemplo, o que pode dizer sobre isso, da sua profissão neste momento?

Desculpa, não ouvi bem tua pergunta.

Sem problema. Estava a perguntar o que pode dizer do impacto real que esta situação toda está a ter nos seus negócios.

Nos meus negócios, o impacto que tem é que gastei todo o dinheiro que tinha. Minha tesouraria foi pedir crédito pessoal para conseguir tapar os fornecedores que tinha, as rendas que tinha a pagar, a Segurança Social que era obrigado a pagar, a IVA toda que era obrigado a pagar. O governo obrigou-nos a pagar todas as contas que nós temos para pagar. Por isso recorri aos meios todos que conseguia das contas pessoais para pagar, porque até hoje eu recorri ao layoff inclusive, como deve ter recorrido 90% da restauração deste país, 40% foi recusado de imediato, ainda não recebi nada. Linha Covid foi-me autorizada pelo banco, mas pelo governo ainda não foi. Por isso, o que eu posso te dizer é que estou a olhar para uma mão cheia de nada. Dificuldades estamos todos a passar, eu não vou agora falar sobre mim, que tenho 80 famílias, estou a tentar não despedir ninguém, segurar todos os postos de trabalho, a tentar ver se o governo pode apoiar de qualquer maneira, que nos abra essas linhas que são supostamente abertas para nós, não engonhar, desculpem a expressão, mas é o pior acontecimento que estamos todos a passar, e deixar-nos, quando chega o momento de trabalhar abertamente, porque estamos cá para ajudar, somos nós que pagamos impostos. Pelo amor de Deus, sabemos que o turismo é um dos principais PIBs deste país. Por isso, deixa-nos trabalhar, é o que eu digo, mas deixa-nos trabalhar em condições. Não vou trabalhar com um fato astronauta dentro do restaurante. Dá-nos apoio para conseguirmos arrancar. Com estas medidas todas que estão aplicadas, nós vamos abrir. O governo comunicou também que há a possibilidade de voltarmos para trás, que se a doença espalhar, vamos ter que voltar para trás. Então espera, nós vamos abrir agora, vamos investir dinheiro, em formação, tudo nosso pessoal, porque ninguém nos está a dar nada. Em formação do pessoal sobre a Covid, em proteções dos menus, multibancos, em produtos de limpeza, em desinfetantes todos do restaurante, em turnos do pessoal, etc. E se recuarmos para trás, nós vamos à falência novamente. Então estamos a novamente ir para um investimento sem fundo, que não vamos conseguir suportar. É toda a restauração em geral. Eu acho que medidas têm que ser um pouco mais claras, não tentar aqui levantar pânico em ninguém, que não há necessidade disso, porque temos que reagir com cabeça fria. Mas cabeça fria, no meu caso, é que linhas têm que ser mais diretas. O ARESP tem que nos comunicar o que está a apresentar ao governo, não tomar medidas sozinho, porque somos nós que pagamos contas ao ARESP, desculpa, mas isto tem que ser dito. Temos que saber qual é o comunicado que entregou ao governo. Não é entrar um comunicado e nós conseguirmos rebuscá-lo através de 30 portas e depois entra um segundo comunicado que ainda ninguém sabe o que foi entregue ao governo, que eu acho isto surreal. Depois temos apoios de senhorios que a partir de há um mês atrás já não temos, por isso não temos direito sequer a baixar nossas rendas. Está muito complicado. Circulam muitas informações, há quem limpa as mãos e diz: "Está tudo bem, nós estamos a apoiar, está tudo a circular, a economia vai voltar." Vai voltar o caraças. Como é que vai voltar? Já a partir de agora, 20% da restauração já faliu. Estamos a falar na restauração. Imagina o resto das empresas pequenas, os cabeleireiros, os tatuadores, etc. Há nenhuma profissão que se desempenha em Portugal. Esta é que desempenha a maior parte do PIB do país. Por isso, pelo amor de Deus, vamos um pouco olhar claramente e apoiar estas pessoas todas.

E por exemplo, tem-se falado muito também que o próprio público pode ter algumas reticências a querer voltar a ir a restaurantes, mas a restaurantes como a teatros, como a cinemas, como que seja espaços com muitas outras pessoas. Sente que isso pode ser, pelo menos a longo prazo, um problema difícil de reconquistar, ou seja, de reconquistar a confiança das pessoas para elas se sentirem bem?

O que eu te vou dizer, vou dar-te a minha própria opinião. Eu próprio tenho algumas dificuldades de pensar deliberadamente ir para os sítios a partir do governo abrir-nos as portas para sairmos para as ruas. Por isso imagino que todo o público, todos nós queremos estar na rua, todos nós queremos ir para o restaurante, todos nós queremos ir para o teatro, para o cinema. Isso é garantido, estamos todos fartos de estar em casa. Agora, são normas que o governo implementou e temos que segui-las. A partir de agora, conquistar os clientes é que vai ser a norma mais difícil que vamos conseguir aplicar, porque as pessoas têm medo, já estão habituadas a cozinhar em casa e ainda bem que passaram tempo com a família, mas as pessoas querem sair para a rua, só que vão sair com medo. Por isso, nós para reconquistarmos o cliente, isto vai demorar mais um ano, é o mínimo. E neste processo todo vai haver muitas baixas, vai haver muita gente ferida, vai morrer muitas pessoas. Estou a dizer no sentido de negócio, vai haver muitas falências em si próprias. Por isso, reconquista do cliente vai demorar muito tempo. A reconquista do turismo, nem sei quando é que vai voltar, que a nossa maior arma econômica deste país é o turismo. Por isso, o que nós temos que trabalhar é mostrar o bom exemplo, que somos um país que tem seguido as normas, que tem menos mortos. Ainda não chegamos a mil mortos, que eu acho que é ótimo, é um bom exemplo para o governo, por nos ter fechado em casa. E acho que é por estas linhas que nos temos que guiar. E reconquistar o público é conseguirmos criar umas normas que, se soubermos, se houver segunda queda ou segunda grande avalanche do Covid, pessoas vão ficar infetadas, que os hospitais estão preparados, que nós vamos ter todos que fechar novamente. São normas que, antecipadamente, agora já que tivemos esta experiência de quarentena, são 40 e tal dias que passaram, temos que ter noção por onde é que nos vamos guiar. E alguém tem que nos dar essas luzes, e quem nos dá essas luzes é o governo, é obrigação dele.

Muito bem, Lubomir Stanislavic, muito obrigado por estes esclarecimentos nesta tarde informativa d'O Observador. Obrigado também ao Diogo Lopes, que esteve conosco esta tarde também aqui para nos prestar alguns esclarecimentos. E já daqui a pouco as notícias estão de regresso ao Observador.