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Eu ia perguntar se o sindicato, por exemplo, no caso do Martim Moniz, se revê numa operação policial desta escala, em que a imagem que depois passou para a opinião pública é que parece que a montanha pariu um rato, ou seja, todo aquele aparato acabou por se traduzir em muito pouco. São várias as vozes que dizem que houve ali um excesso, o próprio presidente da junta. Eu queria que fizesse um comentário, sente-se confortável com este tipo de atuação? É por este caminho que devemos seguir? Por que devemos seguir por este caminho? O que acha?
Antes de mais, o sindicato estará sempre, obviamente, na defesa dos polícias que cumprem e que foi o que aqui se passou. Mas o que me parece é que está se a fazer aqui algum alarido com situações que são banais. Passo a explicar. Este tipo de operações, que antigamente, a coberto ou na ausência da lei, neste caso, que já foi explicado até pelo senhor comandante Rui Costa, que dá respaldo a toda esta intervenção. Antigamente eram as chamadas rusgas, conhecíamos como rusgas, aconteciam muito numa dimensão maior, em bairros, etc. Pela falta de pessoal, pelas sensibilidades, pelas pequenas alterações à lei, foi se deixando de ver. Curiosamente, hoje em dia temos as redes sociais, temos menos operações desta envergadura, mas as redes sociais acabam por criar este alarmismo com a intervenção. Respondendo diretamente à sua questão: nós não podemos prever quais são os resultados. Nós podemos esperar determinados resultados e quem comanda, que não é essa, de todo, a minha função e a maioria daqueles que eu represento, mas quem comanda está na base de dados. E é com base nesses dados que se procede ao planeamento deste tipo de operações. Eu faço uma analogia muito simples e até algo curiosa. Alguém que gere um comércio, um retalho, que faz uma determinada promoção, faz com base naquilo que são as suas estatísticas e aquilo que espera obter, mas não sabemos quais são os resultados. Usando a sua expressão da montanha pariu um rato, à partida, sim, dados oficiais parecem-nos curtos, tendo em conta a dimensão da notícia, não a dimensão da operação, porque a operação tem que ser suficiente para o espaço e para as pessoas que vai encontrar no local. Como foi possível ver naquela imagem, para o espaço e para as pessoas que se encontravam, é suficiente. O que é que nos gera alguma indicação enquanto sindicato e na defesa dos polícias? É uma vez mais todos os rótulos que nos vêm colar, independentemente de alguém já ter, ainda hoje ouvi na Rádio Observador alguém comentar, a tentar separar os oficiais que tinham que dar a cara, etc. Não, nós estamos todos os polícias no mesmo barco, identificamo-nos com isto que se passou, são operações mais corriqueiras do que aquilo que pode parecer. Agora, o que eu gostava de explicar é o seguinte: é impossível garantir a segurança de todos, mais envolvidos ou menos envolvidos, mais suspeitos, menos suspeitos, e dos polícias, se nós tentarmos fazer uma abordagem aleatória. Ora, até se saber quem eram, neste caso, as duas pessoas que terão sido detidas, até se saber quem eram, é preciso saber quem está presente na rua. E isto não é possível fazendo uma abordagem simpática, aleatória, até cordial. Tem que ser de uma forma musculada. E não se tratava, atenção, como foi referido também, de polícias altamente armados. Não, são polícias altamente protegidos, que é assim que eles devem estar. Os polícias tinham coletes balísticos, tinham os seus capacetes de ordem pública, etc. Por prevenção. Obviamente que aos olhos de quem não vê isto todos os dias, pode nos parecer algo, eu vou usar a expressão exagerado, que a mim nunca me parecerá, porque conheço melhor o que está por trás disto e o ambiente, mas deixa-nos algo sensíveis, digamos, que logo sejamos regulados quando se está apenas a fazer o trabalho policial e nada mais do que isso.
João Pina, falou agora do quão normal são estas operações e que isto é, de facto, trabalho da polícia, parte do trabalho normal que a polícia deve fazer. Mas o que terá levado a que este caso em específico do Martim Moniz, da operação do Martim Moniz, tenha levado um presidente da junta a dizer que a atuação foi inaceitável? Ou seja, isto apesar de acontecer todos os dias operações policiais com mais ou menos escala, não é todos os dias que um presidente da junta vem criticar a atuação da polícia.
Depende do presidente da junta. Aqui, perdão, um aparte. Repare, nós no espaço político, social, e aqui abarca a parte policial também, como eu também já tive a oportunidade em público de dizer, toda a gente tem uma opinião. A questão é em que é que fundamentam a opinião e quais são as suas bases profissionais, institucionais, qual é o seu grau de conhecimento pra falar sobre algo que, à partida, não dominarão. E isto partiu de alguém, de um autarca, realmente com algumas responsabilidades, mas que tem que gerir com pinças o seu público-alvo, o seu eleitorado, os seus cidadãos. Este presidente da junta, em concreto, disse já publicamente, talvez há 15 dias num colóquio, a necessidade da presença policial na sua freguesia, que estava muito insatisfeito com a ausência de polícia na sua freguesia. Ora, lamentamos, mas não será à partida, de todo, de se esperar que seja um presidente de junta, de câmara, etc, que vá definir em que moldes essa polícia vai estar presente. Também se fala muito no famoso policiamento de proximidade, que é fato que, por falta de pessoal, que é um tema crônico e recorrente nas polícias, está em desuso, mas as pessoas têm que perceber o que é o policiamento de proximidade. O policiamento de proximidade não elimina que ocorram este tipo de operações cirúrgicas. Quando digo cirúrgicas, cirúrgicas em termos de local e do que visam garantir e observar E também há aqui outro pormenor que, voltando a responder à primeira e a esta pergunta, nós temos que entender que os resultados que são públicos nem sempre são os resultados totais. Isto por quê? Há muita recolha de informação que é feita no local, há muita identificação que pode, à partida, ser apenas uma mera identificação, mas que pode vir a ter frutos operacionais no futuro. E portanto, nem todo o trabalho é aquele que é publicitado, porque como compreenderá, neste tipo de trabalho de investigação e policial, há muita coisa que não se pode revelar no imediato e que mais tarde é que se colherá os devidos frutos.
O partido Livre veio pedir uma audiência com o Presidente da República na sequência desta operação policial no Martim Moniz e acusa o governo de se alinhar com uma agenda ditada pela extrema-direita e que depois a reflete nas indicações que dará à polícia. Que comentário faz a estas declarações?
Eu estou aqui enquanto dirigente sindical, mas consigo dar aqui o cunho pessoal e do meu conhecimento. Eu trabalho em Lisboa, trabalho nesta zona também, por todo o concelho de Lisboa, e conheço a realidade. A realidade é que aquela zona, na década talvez de 80, 90, era uma zona altamente problemática. Foi uma zona que melhorou substancialmente com intervenções de segurança, com intervenções de edificado, portanto, por parte da Câmara Municipal, Juntas de Freguesia, etc. Melhorou. Neste momento, não estamos de volta aos anos 80 ou 90, mas é uma zona que se transfigurou uma vez mais. Está diferente. Uma diferença que talvez ao cidadão que ali habita, que tem hoje 80, 90 anos, e que cidadãos esses até, que na dita Junta de Freguesia compareceram num pequeno colóquio, numa assembleia, não sei qual foi a designação dada na altura, em que manifestaram a sua insatisfação com a insegurança. E repare, eram estes habitantes, aqueles habitantes que sempre estiveram lá, que se queixavam. E portanto, quando há uma mudança que todos observamos, que todos reclamam, o próprio presidente da junta reclama da questão da insegurança, obviamente que é ali que tem que incidir a operação. Ora, a polícia não escolhe sobre quem vai incidir, a polícia escolhe o onde e o porquê. Apenas isso.
E qual é que foi o porquê neste caso?
O porquê neste caso, segundo eu consegui perceber pelas declarações há pouco do senhor comandante Rui Costa, comandante da Divisão de Investigação Criminal, tinha a ver com todo o levantamento estatístico recente a nível de criminalidade naquela zona, nomeadamente a ocorrência de diversas situações, dezenas salvo erro, cinco dezenas de situações, não me recordo se eram questões de furto ou de uso de arma branca. Mas lembro-me que há coisa de talvez três, quatro meses, uma senhora foi assassinada naquele local com recurso a arma branca. Poucos meses antes tinha havido outra situação semelhante, também com arma branca. Portanto, isto tudo aliado ao dito sentimento de segurança, que é uma expressão que nós não gostamos muito de usar, porque o sentimento de segurança devia ser a existência da segurança efetiva e não aquilo que se perceciona apenas. Mas aliado a isso, obviamente que a polícia tem que intervir. Se realmente há indicações superiores, quando digo superiores, governamentais, para que se mostre serviço, digamos assim, eu relembro que estamos a chegar à altura do Natal e não é de certeza incomum as pessoas lembrarem-se que surgem as famosas operações Natal e elas não surgem apenas porque os policiais decidem não ficar em casa no Natal com as suas famílias.