Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Os transplantes registaram uma diminuição em Portugal no primeiro semestre do ano, devido à pandemia de COVID-19.

As unidades de cuidados intensivos, que eram as grandes fontes de dadores, tornaram-se unidades vocacionadas para a COVID-19, o que levou à redução do número de transplantes. Para nos ajudar a perceber como é que está a situação nesta altura, junta-se a nós a Susana Sampaio, presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação. Antes de mais, obrigado por esta disponibilidade. Queria perceber consigo qual é que foi a queda de transplantes neste período de pandemia.

Olá, bom dia, muito obrigada pelo convite. A queda foi anunciada ontem cerca de 30%, embora tenhamos a noção que a partir de março, abril e maio foram os meses em que houve realmente a grande diminuição do número de transplantes. Aliás, houve uma indicação por parte do IPST e que a SPT também concordou plenamente, na sequência também de indicações das sociedades internacionais, de que só se realizassem transplantes urgentes ou hiperurgentes e, portanto, aqueles que não foram considerados urgentes não seriam realizados. Isso tem a ver, primeiro, porque as equipas estavam vocacionadas para a assistência aos doentes COVID, nós não sabíamos o que é que iria acontecer. Tínhamos a experiência de França, de Itália e de Espanha, e portanto para prevenir a situação de caos, foi dada esta indicação. Por outro lado, por uma questão de segurança e de forma a evitar a transmissão do vírus a potenciais recetores.

Susana, e como é que vão recuperar para voltar aos números anteriores à pandemia?

Eu acho que vai ser difícil voltar aos números anteriores à pandemia, porque pelo menos durante este ano, princípio do próximo ano, enquanto nós vivermos esta situação de pandemia. Neste momento, felizmente, a situação está mais controlada, as unidades já não são unidades COVID, digamos, as unidades de cuidados intensivos têm já outro tipo de doentes e, portanto, é expectável que as situações que corram menos bem, que levem à morte desses doentes, por falência de órgãos, que realmente comecem a ser sinalizados. Nós sabemos que não houve sinalização durante este período, precisamente pela atenção que estava a ser dada aos doentes COVID, e também provavelmente por falta desse tipo de doentes, uma vez que as nossas unidades estiveram repletas de doentes COVID e que não são elegíveis para transplantação, como é lógico, pelo risco de transmissão. Acho que agora vai virar-se a atenção, ou já se está a virar a atenção para outro tipo de doentes, e é muito natural que comecem a ser sinalizados potenciais dadores. Se calhar, podemos dizer, está a ser um pouco lenta essa recuperação. Acho que as entidades competentes, se calhar, deverão verificar no sentido de avaliar o que é que está a acontecer, por que não são sinalizados mais dadores. Nós temos a noção de que realmente nestes últimos dois meses, julho, agosto, foram sinalizados muito poucos dadores, portanto, houve muito pouco transplante quando comparado com um igual período do ano passado, e será necessário avaliar para tentar corrigir o que pode ser corrigido.

E têm perceção porque isto está a acontecer? Têm perceção porque é que houve essa redução nestes últimos dois meses, numa altura em que começavam os hospitais a ter um maior equilíbrio?

Nós não temos nada de dados concretos, e por isso é que eu acho que é necessário que as entidades competentes tentem avaliar o que é que se está a passar no terreno. Mas nós, equipas que trabalhamos no hospital, não diretamente nos cuidados intensivos, temos a noção, quando temos a urgência, de que os portugueses ainda têm medo de recorrer à urgência. Menos, é verdade, já estamos mais doentes a recorrer à urgência, mas ainda há medo de recorrer à urgência. E quando chegam à urgência, já estão em situações muito avançadas, muitas vezes já sem indicação mesmo de integrar uma unidade de cuidados intensivos, que a situação já está ultrapassada. Ora, isso leva a que haja uma menor entrada nas unidades de cuidados intensivos e, portanto, aquelas situações que entrariam nas unidades e que eventualmente não correriam bem, e poderiam vir a ser potenciais dadores, não estão a acontecer. Isso será provavelmente uma das razões. Sem dados concretos, sem números, eu acho que é necessário avaliar para podermos tirar conclusões e corrigir essa situação. Ia dizer que eventualmente as equipas também, que atravessaram uma fase muito difícil, estão agora a recuperar dessa fase e, portanto, acho que agora começarão também a sinalizar potenciais dadores. Mas, repetindo outra vez, é necessário avaliar, sem ser numa situação de policiamento, passo esta expressão, mas sim numa tentativa de avaliar o que está a passar, o que é que se pode fazer, em que medida é que se pode ajudar, que medidas se poderão tomar para corrigir a situação.

E que cuidados obriga nesta altura a COVID-19 nesta área do transplante?

Os mesmos que tínhamos até agora. Em relação aos potenciais dadores, claro, o inquérito epidemiológico, portanto, o potencial dador, se realmente houve eventual contacto, que possa estar assintomático. Isso é muito importante e tem que ser muito minucioso. E depois, claro, a realização de testes, que já se faz. Qualquer internamento num hospital implica a realização de um teste COVID e repetição desses testes. Em relação aos recetores, os cuidados da população em geral: o uso de máscara, a desinfeção das mãos, o distanciamento social e os cuidados, portanto, círculos mais fechados e não tão alargados para que o risco seja menor de transmissão.

E quais são os transplantes que mais riscos têm neste período de pandemia?

Todos os órgãos são potenciais infectantes se o dador estiver infectado. Embora é importante ressalvar que em Portugal e na maioria dos países em que se realiza transplante, os cuidados são muito apertados e são realizados todos os procedimentos para diminuir o risco de transmissão. Talvez aquele que está menos aconselhado numa situação de pandemia, a não ser em risco de vida, claro, é o pulmonar, pelo tropismo que o próprio vírus tem para o órgão. O transplante pulmonar será aquele mais arriscado. Mas como eu digo, os procedimentos são feitos e felizmente em Portugal temos capacidade para isso.

E as unidades hospitalares estão preparadas para retomarem agora os transplantes em condições ou há aqui uma situação de risco, havendo agora uma segunda vaga, voltarem outra vez atrás, ou seja, voltarem a ter que ceder espaço de transplantação para doentes COVID? Como é que estão as unidades hospitalares a preparar-se para essa situação?

Eu acho que a experiência passada vai melhorar os procedimentos numa possível segunda vaga. Claro que, se essa segunda vaga levar à ocupação de vagas de cuidados intensivos com doentes COVID, haverá uma diminuição outra vez da sinalização dos potenciais dadores. Portanto, o dador falecido poderá vir a sofrer outra vez um revés e haver outra vez mais ainda diminuição do número de transplantes. Mas fazendo prognósticos é difícil nesta situação. Claro que estamos mais bem preparados no sentido de procedimentos, mas tudo depende do que acontecer em termos de números. Do número de infectados e da gravidade.

Muito obrigada, Susana Sampaio, presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação. Obrigada por se juntar à nossa emissão aqui na Rádio Observador.

Obrigada e bom dia.