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E vamos receber já daqui a pouco o chef Nuno Bergons, jurado no MasterChef Portugal, que nos vai falar sobre o seu novo projeto, um restaurante espaço, como o próprio nome indica, É Um Restaurante, onde só trabalham pessoas em situação de sem-abrigo, Diogo Teixeira Pereira. A nós vai juntar-se também o jornalista do Observador, Diogo Lopes.

Ora viva.

Diogo, estás por aí? Muito boa tarde. E do que vamos falar com o chef Nuno Bergons?

Vamos falar um pouco sobre este projeto, que não sendo recente, porque o É Um Restaurante inaugurou no passado mês de setembro de 2019, mas depois de um curto período em que no início do mês anunciaram encerrar o espaço, à semelhança de muitos outros em Lisboa, agora decidiram reabrir, não só para adotar um sistema de comida takeaway, mas também principalmente para preparar refeições para pessoas em situação de sem-abrigo.

Muito bem, Diogo. Eu acho que a melhor forma de conhecermos este projeto é chamarmos o chef Nuno Bergons para se juntar a nós. Olá, boa tarde, chef Nuno Bergons. Creio que estamos aqui a tentar fazer a ligação com Nuno Bergons, que se vai juntar à conversa conosco. O Diogo Lopes já nos deu aqui uma ideia do que vamos falar. Vamos falar sobre um projeto do chef, o projeto chamado É Um Restaurante. Chef, creio que agora consegue juntar-se a nós.

Sim, consigo, estou a ouvir-vos bem. Boa tarde a todos.

Olá, boa tarde, obrigado por ter aceitado o nosso convite para se juntar à emissão da Rádio Observador. Antes de mais, este é um projeto com um nome muito sugestivo, É Um Restaurante, portanto não há dúvidas a partir daqui, mas qual é que é o objetivo deste projeto?

Este projeto pertence à Associação Crescer, que é uma associação que trabalha há mais de 15 anos em Lisboa com público-alvo em situação de vulnerabilidade, mais precisamente as pessoas que estão em situação de sem-abrigo e ultimamente com os refugiados que chegaram a Portugal. Estes são os dois públicos-alvos da Associação Crescer. E este projeto surgiu no seguimento desse trabalho que já tem sido feito há muitos anos e é um projeto que tenta introduzir no mercado de trabalho as pessoas que estiveram na rua, que precisam de ajuda. E é um trabalho que tem sido feito desde outubro, o projeto abriu no início de outubro. Eu gosto de usar esta expressão porque retrata muito bem aquilo que nós fazemos, que é em vez de nós dermos o peixe, nós damos a cana e ensinamos a pescar. Nós literalmente estamos a tirar pessoas da rua, introduzi-las no mercado de trabalho. E é um trabalho muito mais difícil, sem dúvida, porque seria muito mais fácil se estivéssemos a dar simplesmente comida. Mas nós aqui achamos que a filosofia da Associação Crescer é ir à essência do problema e tentar resolvê-lo desta forma.

Nuno, desculpe interromper, só para fazer uma pergunta num instante. Vocês anunciaram ontem, através das redes sociais, que iam reabrir o É Um Restaurante, depois de o terem encerrado no início de março. O que os levou a voltar a reabrir agora nesta altura?

O que nos voltou a ter esta vontade de reabrir o restaurante é porque realmente a associação tem consciência daquilo que se passa na cidade de Lisboa, que é onde incide mais especificamente. E nós sabemos que neste momento há pessoas que nem sequer têm casa para fazer quarentena, por exemplo, que são as pessoas que dormem na rua, literalmente. E assim sendo, e mesmo que a filosofia da associação não seja propriamente dar comida, como muitas outras associações já o fazem, não conseguimos ficar indiferentes a esta situação e decidimos abrir portas e pôr, curiosamente, aqui um paradoxo, uma ironia da vida até. Neste momento, nós temos os formandos, que são pessoas que estiveram na rua, e neste momento essas pessoas é que nos estão a ajudar a alimentar as pessoas que estão na rua. Portanto, é uma história curiosa.

É um círculo completo.

É, é um círculo completo.

Como é que foi a reação do pessoal do restaurante quando decidiram encerrar? Eu pergunto isto para tentar perceber mais ou menos quais são as preocupações de alguém que eventualmente está numa situação de sem-abrigo e que depois, de repente, se vê deparado com uma situação destas.

É curioso, é uma pergunta interessante, porque nem nós estávamos muito à espera, não sabíamos como é que iriam reagir, mas a verdade é que fomos muito bem recebidos, eles arregaçaram logo mangas e disseram logo: "Vamos cozinhar, vamos ajudar". E temos uma vantagem muito grande, sabemos exatamente onde é que estão as pessoas na rua, o que as pessoas gostam mais, o que procuram mais, quem é que são os casos mais difíceis. E isso é maravilhoso. Acho que neste momento, em Portugal, no mundo, não há ninguém que fique indiferente a esta situação do vírus, que está presente na vida de todos os portugueses. Mas aquilo que realmente estas pessoas sabem é como já estiveram na rua e nessa posição, e tendo todas as outras associações, ou quase todas, fechadas, ou seja, os apoios que as pessoas que estão na rua deixaram de ter, nós estamos a fazer com que isso não se note tanto.

Nuno Bergons, estamos à conversa com o chef Nuno Bergons e eu se calhar aproveitava aqui para avançar para outra questão que está relacionada com a feijoada diária que querem começar a fazer para ser distribuída pela Associação Crescer, que é a associação que apoia este projeto. Será uma feijoada distribuída, creio, para 150 sem-abrigos de Lisboa.

150 a 200 pessoas. A feijoada surgiu porque nós trabalhamos com produtos frescos, bons, etc. E tem um custo e infelizmente nós não temos os apoios que gostaríamos de ter. Inclusive, até posso pedir a quem me estiver a ouvir e quem tiver essa disponibilidade de nos ajudar com produto, acima de tudo, porque mão de obra nós temos muita, felizmente, e a parte da logística a associação consegue assegurar, mas a nível de apoios, nós estamos com muita carência de produtos alimentares, sejam eles quais forem. Eu decidi criar a feijoada como prato mais fácil, porque é um prato de conforto, é um prato que quem está na rua literalmente vai-se sentir bem enquanto o come. Mas na verdade, não estamos presos à feijoada. Nós podemos fazer outras coisas e queremos fazer outras coisas. No fundo, nós queremos é alimentar quem precisa mais.

Quais são as preocupações em específico da comunidade sem abrigo e não necessariamente daqueles que trabalham com vocês? Ou seja, como é que eles estão a lidar e quais são as dificuldades que estão a enfrentar neste momento? Dizias que ainda é tudo um bocado desconhecido, mas consegues precisar algum problema mais específico que eles estejam a ter?

Sim, é desconhecido todo este universo do vírus e tudo o que rodeia, as temáticas todas que estão a surgir, a partir do momento em que começou esta polêmica mundial. Mas em termos de objetivos práticos daquilo que nós estamos a fazer, obviamente que já encontramos muitas dificuldades. Estamos a chegar a um público que tem muitas carências, mas acima de tudo, a mensagem principal e aquilo que nos há deixar mais motivados é que, curiosamente, fechámos um ciclo aqui interessante, que é as pessoas que estavam na rua, que estão neste momento a trabalhar no projeto, que é um restaurante, pela primeira vez, foram as primeiras a ter a iniciativa de ajudarem as pessoas que estão na rua. Portanto, elas já tinham estado nessa posição e agora são as primeiras a ajudar quem realmente mais precisa. Dificuldades: lidar com isto tudo, com as regras de segurança da Direção Geral de Saúde, obviamente que isso é a prioridade principal, é fazermos tudo isto em segurança, isso é fulcral, é fundamental. Mas a grande dificuldade que eu posso apontar no início desta missão é agora conseguirmos arranjar apoios de bens alimentares, porque nós estamos a servir 200 refeições diárias às pessoas que estão na rua, mas essas refeições têm um custo e, portanto, até faço um apelo para quem nos esteja a ouvir, que possa doar bens alimentares. Nós neste momento estamos com bastante falta e estamos todos os dias a tentar arranjar apoios, marcas, empresas, produtores, enfim, que nos possam ajudar. Essa realmente é a maior carência e dificuldade que nós estamos a encontrar agora, porque de resto, tem sido uma experiência incrível no lado humano. E no fundo, é isso. Não quero prolongar muito mais. Não sei se já respondi à pergunta diretamente ou não.

Sim. Ok, pronto. Nuno, muito obrigado. Obrigado por dares a conhecer um bocadinho melhor este projeto, ou melhor, esta segunda fase deste projeto. E boa sorte agora para o futuro.