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Os dados representam que a maioria da população em Portugal é composta por mulheres, têm reforçado o seu papel em áreas como política, educação, empresas, mas mesmo assim persistem algumas desigualdades no emprego, nos salários, também nas condições de vida, foram alguns dos dados da Pordata. A evolução mais expressiva desta representatividade registou-se na educação. Apesar destes avanços, continuam em minoria as mulheres no mercado de trabalho. Como é que a Pordata olha para estes novos dados, este novo balanço?

A primeira coisa é absolutamente inequívoco que as mulheres hoje em dia já contribuem muito pra economia do país. Elas estão cada vez com mais conhecimento, ou seja, o crescimento que elas conseguiram em termos da escolarização, deu-lhes uma arma, como eu costumo dizer, uma arma para entrar no mercado de trabalho e para serem reconhecidas e para continuarem. Porque se não fossem produtivas como são, com certeza não estariam tão implantadas. Ao mesmo tempo, as mulheres, a meu ver, mantêm um grande foco na vida familiar. Portanto, isso nota-se muito, porque são elas as que têm mais situações de família monoparental, ou seja, quando assumem ter filhos, mas que a relação eventualmente não corre bem, elas é que ficam com os filhos e isso é já um indício do que se passa na vida familiar, que mantêm um grande sentido de responsabilização pela vida do dia a dia da sua família e das condições que dão às suas famílias. É claro que também como é um país de baixos salários, o trabalharem tem dois objetivos: por um lado, ganharem a sua independência financeira, mas por outro, contribuírem com mais algum rendimento para conseguirem garantir a qualidade de vida da sua família. Portanto, o conciliar, e é assim que eu vejo estes números, por que não há um maior equilíbrio ainda, uma vez que as mulheres estão em maioria na educação, nos diplomados, com ensino superior e tudo. Eu vejo isto porque as mulheres querem, de fato, conciliar estes dois objetivos que têm na vida. O de ser independentes e profissionalmente realizadas, mas ao mesmo tempo conseguirem dar as melhores condições possíveis também na sua vida do dia a dia e da sua família. E portanto, esta é a leitura que eu faço e que lhes traz algumas fragilidades. Ou seja, o dia tem 24 horas pra toda gente e portanto, muitas vezes não conseguem aceitar cargos de direção superior, porque esses cargos em geral trazem muito mais aleatoriedade no tempo que é necessário dedicar. E portanto, não se consegue ainda o equilíbrio desejado, por questões tradicionais, principalmente, este duplo foco é muito mais visível nas mulheres do que nos homens.

E acredita que, de certa forma, este aumento da presença feminina, nomeadamente no mercado laboral, está relacionado com os sistemas de cotas que já foram implementados também em muitos sítios?

Sim, nos cargos de direção, não tenho dúvida que nos cargos de direção e no governo, o fato de existirem as cotas, acaba por servir um cadinho como um maior empenho do lado do governo e dos partidos. Quando formam as listas pras eleições, eles tentam quebrar alguma resistência que pode haver por parte das mulheres de se envolverem em cargos que podem trazer aqui, de repente, uma exigência de tempo, que elas receiam não conseguir corresponder. Mas o fato de haver cotas faz com que haja mais pressão do lado de quem tem que cumprir as cotas e, portanto, na prática, depois começa-se a ver que as mulheres assumem esses cargos e têm conseguido, têm mostrado que levam a bom termo o seu papel.

Hoje é Dia Internacional da Mulher, em muitas cidades e em muitos locais do mundo estão organizadas várias manifestações, compostas por mulheres, como é óbvio, que estão na rua para lutar pelos direitos sociais, mas também por direitos laborais. Acredita que, de certa forma, há muitas pessoas que olham pra estes números com preocupação pelo fato de as mulheres ainda enfrentarem muitas desigualdades no mercado de trabalho? Acha que é um dos motivos pra que as mulheres também estejam hoje na rua a manifestar-se?

Sim, porque no mercado de trabalho há vários setores. Hoje em dia, todo o setor que exige conhecimento Possivelmente mais conhecimento e menos força física e menos algum tipo de habilidades que exigem algumas condições físicas que as mulheres também conseguem, mas possivelmente com mais dificuldade. Portanto, há vários setores de atividade, alguns onde há ainda uma postura muito tradicional do lado dos patrões, dos donos das empresas, que por muitas vezes não terem tanta escolarização, ainda têm muito receio de atribuir determinado tipo de trabalho às mulheres. Portanto, ainda há muitas diferenças. E depois, ainda se está eventualmente aqui a verificar alguma tendência para meter a mulher para mais o apoio, o ser cuidadora e não o ser produtiva. Só que o papel de cuidadora não traz rendimentos que permitam dar uma independência total, uma independência financeira, uma independência para terem o acesso aos bens e ao lazer e a tudo o que toda a gente gosta também de fazer. Portanto, é claro que vai haver sempre aqui, eu diria, alguma pressão para atribuir às mulheres os papéis e os trabalhos que são mais mal pagos. E eu acho que é isso que faz movimentar as mulheres por todos os países para conseguirem igualdade das oportunidades. Porque quando entram no mercado de trabalho, já há muita legislação para que sejam pagas nos mesmos valores que os homens. Agora, o que acontece é que muitas vezes elas não acedem ao mesmo tipo de postos. E isso é uma realidade que justifica esta mobilização, continuarem as mulheres mobilizadas para defender os seus direitos também.

Luísa Loura, faço-lhe ainda uma última pergunta, já de olhos postos no futuro: acredita que num novo balanço feito daqui a mais algum tempo, estes dados ainda um pouco desequilibrados, já estarão melhores? Acha que há uma tendência para estes dados terem uma evolução positiva?

Eu diria que sim, porque eu acho que, entre outras coisas, as mulheres também irão conseguir tirar melhor partido das novas ferramentas tecnológicas de inteligência artificial. Ou seja, utilizar aquilo da melhor forma obriga a alguns cuidados, a uma postura bastante resiliente, no sentido de não se deixar convencer pela primeira coisa que a máquina devolve. É todo um perfil que eu diria que pode vir a favorecer as mulheres. É a minha expectativa e nesse sentido, elas podem tornar-se, de facto, ainda mais produtivas, ou seja, serem o maior motor das economias e aí os números podem depois vir a refletir isso. Espero que sim.