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Ricardo Marques, surpreendem os resultados do Chega nestas eleições?

Não surpreende, por um lado, porque eram resultados esperados. Quase todas as sondagens dos últimos meses davam este leque entre 15% a 20% dos votos. Mas não surpreende também porque o modelo que o Chega apresenta aqui em Portugal é um modelo que está a ter o mesmo tipo de resultado no resto dos países europeus, ou seja, nos últimos 20 anos, nós assistimos a uma triplicação da média de votos desses partidos da chamada nova direita radical de cariz populista. Portanto, a maneira como André Ventura conseguiu conjugar esta onda europeia com as características muito próprias da cultura política portuguesa e da realidade política portuguesa explica bastante bem o sucesso que está a ter, desde 2019 até hoje, de uma forma continuada.

Ricardo Marques, e qual é que poderá ser a melhor estratégia para lidar com os resultados que foram obtidos pelo partido a nível político?

A nível político, a batata quente está nas mãos dos partidos mainstream, que geriram o poder nos últimos 50 anos da democracia portuguesa. Ou seja, são eles próprios que perante a crescente insatisfação de largos setores do eleitorado com o funcionamento das instituições democráticas e também, em parte, com a estagnação econômica dos últimos 20 anos, terão que encontrar formas novas de dar respostas a estas perguntas, que vêm não da generalidade do povo português, mas de setores cada vez mais importantes. Se não estão em condições de dar estas respostas, então terão que fazer contas com estes partidos que se tornam hoje em dia incontornáveis para a formação de um qualquer governo estável no Parlamento. Portanto, integrar como ator institucional reconhecido, como um interlocutor reconhecido, também o partido Chega, como já acontece noutros países da Europa Ocidental.

Ou seja, o PSD poderá ter que voltar atrás naquela teoria do não é não, na sua opinião.

Eu acho que será muito difícil Luís Montenegro voltar atrás. Agora, no médio e longo período, o PSD, eventualmente com uma nova liderança disponível para isso, terá que repor-se em jogo e pensar que possivelmente o futuro da direita portuguesa estruturalmente inclui também o Chega e, portanto, pensar também nesta perspetiva. De certeza, pensar no médio e longo prazo, de construir um centro direita ainda com o cordão sanitário que exclui um partido de 18% dos votos é bastante irreal.