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É o vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, conosco em direto agora neste jornal "Observador". Muito boa tarde, Gustavo Tato Borges. Começo por lhe perguntar se considera que se justifica, neste momento, avançar para esta nova fase de desconfinamento, que já tinha sido revelada no mês passado pelo governo. O governo diz que há condições. Temos mesmo condições, neste momento, para avançar?
Boa tarde. De facto, neste momento, o país encontra-se a cumprir com os critérios para avançar no desconfinamento que o governo definiu: menos de 120 casos por 100 mil habitantes nos últimos 15 dias e um Rt abaixo de zero. A verdade é que existe, neste momento, um Rt a subir, o que demonstra que a pandemia ou a velocidade de crescimento está a diminuir, mas a uma velocidade menor. E também, conforme os números forem mais baixos, é normal que este valor também se aproxime tendencialmente do um, porque é impossível ter um Rt sempre zero ou 0,7. Mas, de facto, há um ligeiro aumento também do número de casos, que já estivemos a 90 vírgula qualquer coisa, agora estaríamos a 118 por 100 mil habitantes. Portanto, é preciso perceber muito bem o que é que se está a passar para ter a certeza que isto está a correr bem. Mas cumprindo escrupulosamente os critérios que o governo definiu e que a DGS definiu como sendo aceitáveis, estão reunidas as condições para avançar, sim.
António Costa diz que a aplicação combinada de dois critérios mantém-nos, para já, no quadrante verde dessa matriz que o governo usa também para este processo de desconfinamento. Diz que estamos a caminho do amarelo, que é uma zona mais perigosa, e os critérios de que fala são os de incidência da doença e também o ritmo de transmissão. Olhando também para esse Rt, para o índice de transmissibilidade, pelo menos no território continental, está perto de um, está nos 0,94. Como dizia o Gustavo Tato Borges, estamos a caminhar para uma situação que, no futuro, pode levar o governo, de alguma forma, a rever este plano de desconfinamento, tendo em conta até que há agora este período da Páscoa e que pode ser um período em que haja também uma maior proximidade entre as pessoas.
Aqui há um papel muito importante que todos nós, cidadãos, temos que ter, que é o de cumprir com a nossa parte, de maneira que não criemos condições para que haja ajuntamentos e que haja a possibilidade de haver uma disseminação do vírus de uma forma descontrolada. Portanto, não havendo nada de muito estranho agora durante a Páscoa e que, de facto, as pessoas cumpram com aquilo que lhes é pedido, que é manterem os cuidados e só saírem mesmo com a família essencial, nós podemos prever que a evolução possa ser semelhante ao que temos visto até agora, sem nenhuma variação muito grande, se calhar até uma estabilização, e regredir o número de novos casos por 100 mil habitantes. Mas isto é tudo uma avaliação que tem que ser feita semanalmente, quase diariamente, para podermos garantir que estamos neste bom caminho. Nós estamos a assistir à nossa taxa de incidência subir ligeiramente e o nosso Rt também subir ligeiramente. Se isto continuar nesta tendência, aquilo que vai acontecer é que nós vamos passar para uma fase amarela, em que não vamos avançar no nosso plano de desconfinamento, vamos estagnar. Não é uma situação muito alarmante, mas é uma situação em que é necessário implementar medidas novas para evitar que haja qualquer tipo de agravamento da nossa situação epidemiológica. Portanto, teremos que aguardar para ver o que é que vai acontecer nos próximos 14 dias, apelando, claro, a que todos nós, cidadãos, cumpramos com aquilo que são as medidas básicas para nos protegermos uns aos outros durante o tempo da Páscoa.
E o primeiro-ministro já deixou também esse aviso ainda a propósito também de quase duas dezenas de conselhos que estão acima desse limiar do risco de incidência de Covid-19 e que podem não avançar neste desenho deste plano de desconfinamento. Gustavo Tato Borges, enquanto vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública e olhando também para aquilo que aconteceu no período do Natal e do Ano Novo, em que houve até algumas críticas aos principais agentes políticos do país em relação à forma como tinham sido transmitidas as mensagens à população para essa necessidade de confinar, de que se mantivessem em casa, de que os cidadãos tentassem o máximo possível cumprir as regras. Neste momento, a mensagem que foi transmitida por parte quer do governo, quer da Presidência da República, quer pelo Parlamento, os principais agentes políticos também, as autoridades de saúde. Tem sido a mensagem correta neste momento para que os cidadãos acatem aquilo que são estas medidas de confinamento?
Eu penso que os agentes políticos e técnicos na área da saúde têm alertado, de facto, para a necessidade do cumprimento destas medidas e a mensagem, pelo menos agora na Páscoa, tem sido mais clara do que aquela que foi no Natal, em que estando numa situação epidemiológica bastante pior, o governo permitiu aliviar as medidas para que as famílias se reunissem numa época tradicionalmente festiva. Agora isso já não acontece, as medidas até são um pouco mais apertadas e, portanto, a mensagem sai com um bocadinho mais de clareza. Aqui o que falta saber é até que ponto a população está disponível para receber este apelo e para o cumprir, tendo em conta que já estamos há mais de um ano em pandemia. Há, de facto, muita gente muito cansada de todas estas medidas, muitos empresários que estão a sofrer e muito com toda essa situação. E, portanto, esse lado de lá, ou nesse caso, lado de cá, de cada um de nós, de cada um de nós empresários, cidadãos, etc, tem que também estar disponível para acolher esta mensagem, percebendo que este momento de maior aperto agora poderá fazer com que a partir de segunda-feira as coisas reabram e daqui a 15 dias ainda reabram mais, motivando aí uma melhoria da economia que nós tanto precisamos.
E neste momento, tendo em conta a situação epidemiológica que se vive, avançar mais depressa era algo que seria condenável no desconfinamento?
O desconfinamento, já vimos o que é que aconteceu também quando tivemos o anterior período de desconfinamento. As pessoas acabaram por entrar em demasia na vida normal e acabou por haver aqui um descontrole, uma falta de ajuda também por parte das entidades governamentais. Há aqui um plano mais cuidado, há aqui um pensamento um bocadinho mais pormenorizado daquilo que pode ir abrindo, daquilo que pode estar disponível, para que as pessoas também vão habituando-se a este novo normal, a estas novas medidas e a esta nova maneira de estar dentro do que é esta pandemia. E, portanto, há um trabalho feito por parte da DGS, que é um trabalho de louvar. Nós podemos sempre achar que há este ou aquele serviço, ou este ou aquele negócio que poderia também abrir agora, mas são questões sempre de pormenor. Aqui o mais importante é que conforme se vá abrindo, vá-se permitindo que as pessoas se adaptem a esta realidade e que a seguir o próximo passo seja dado também com mais segurança. Porque se abrirmos muito depressa, daqui a 15 dias estaríamos, se calhar, a regredir, em vez de possivelmente até só estagnarmos. Portanto, há que esperar para ver o que é que vai acontecer, mas este plano, em princípio, foi bem delineado, ou relativamente bem delineado, por parte do governo.