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Junta-se a nós em direto o politólogo José Filipe Pinto, é especialista em movimentos extremistas. Bom dia, obrigado por estar em direto conosco. José Filipe Pinto, o que é que pode explicar que os democratas tenham resistido melhor do que aquilo que se antevia?
Muito bom dia. Eu penso, primeiro que tudo, que temos de ter ainda alguma prudência, porque não está posto de parte que os republicanos venham a dominar tanto o Senado como a Câmara dos Representantes. Já sabemos que vai haver uma segunda volta. Penso que vai ser decisivo, neste momento, estes dois estados do Arizona e do Nevada. No Arizona, os democratas levam uma vantagem de 90 mil votos, com 70% de contagem e no Nevada, os republicanos estão à frente apenas com 20 mil votos de diferença, mas já vamos quase nos 80% de votação. Como a Georgia vai para a segunda volta, a diferença entre os dois candidatos é de 35 mil votos num universo de mais de quatro milhões, temos de perceber que ainda não está posta de parte a possibilidade dos republicanos vencerem as duas câmaras. De qualquer forma, eu concordo consigo. Não foi um tsunami, de maneira nenhuma, e olhando para um bom acordar com a questão do símbolo do Partido Republicano, ainda não sabemos, neste momento, qual vai ser o tamanho da tromba do elefante. E por isso mesmo, também não sabemos se o seu líder, Donald Trump, ficará, em português muito vernáculo, de trombas. Sabemos, isso sim, que não foi uma maré cheia.
Perdemos aqui o contato com o José Filipe Pinto. Vamos tentar recuperar esta ligação. Este especialista em movimentos extremistas e politólogo está a ajudar-nos aqui a analisar um pouco do resultado que já se sabe, daquilo que já se sabe das eleições norte-americanas. Retomo então o contato. José Filipe Pinto estava a falar-nos da eventual fragilidade que Donald Trump poderá ter de agora em diante, mediante os resultados finais que saírem desta eleição.
Evidentemente, porque Donald Trump, os apoiantes já lhe sugeriram que ele adiasse o anúncio da candidatura presidencial. Mas há aqui um dado que provavelmente não tem sido bem explicado. Dos 35 lugares do Senado que estavam em disputa, 21 eram dominados por republicanos e 14 pelos democratas, o que quer dizer que os republicanos corriam efetivamente mais riscos do que os democratas, uma vez que mais assentos dominados por eles iam para eleição. Depois, há ainda um outro dado. Os nossos ouvintes talvez não saibam, porque nós temos a ideia da eleição presidencial é que "the winner takes it all", quer dizer, se um candidato ganha um estado, leva todos os representantes. Aqui não é assim. Cada estado tem, devido ao censo, um número de deputados, senadores são sempre dois. E o que é que acontece? Quem traça os círculos, que são sempre uninominais dentro de cada estado, é o parlamento desse estado. O que quer dizer que muitas vezes o partido que está a liderar aquele estado vai fazer o traçado dos círculos de modo a tentar garantir quase a vitória do seu candidato. Eu sei que há uma figura que está proibida, que é o "gerrymandering", que é fazer uns traçados demasiado irregulares, mesmo a mostrar que está a tentar essa eleição, mas todos nós sabemos que o partido que está no poder em cada estado tenta sempre puxar, em bom português, a brasa à sua sardinha. Agora, Trump tem, de facto, dois problemas em mãos. Primeiro é saber se efetivamente domina as duas câmaras ou não, e isso, provavelmente, se a vitória dos republicanos acontecer no Nevada, só vamos saber em dezembro. É mais fácil ganhar a maioria na Câmara dos Representantes, mas não tem os valores que ele pensava. E para um populista, isto é terrível. Por quê? Porque ele fala em decepção e fala em triunfo pessoal, quando, de facto, o triunfo pessoal não existe. Só que o discurso habitual de um populista é só conseguir ver vitórias e esquecer as derrotas dos candidatos por si apoiados, candidatos que são, nalguns casos, bastante fracos. E este é um esquecimento muito bem lembrado por Donald Trump. Depois tem outro problema, tem DeSantis, que foi reeleito governador da Flórida.
E poderá ganhar mais protagonismo a partir de agora?
Vai ganhar, não poderá, ganhará obrigatoriamente. Por quê? Porque conseguiu ser reeleito por uma margem enorme. Portanto, ele é claramente um potencial desafiante de Donald Trump no que diz respeito à nomeação do Partido Republicano. Só que Trump, nós sabemos como é que um populista funciona. Houve uma ligação anterior entre Trump e DeSantis. E o que é que o Trump já colocou em cima da mesa? Que se DeSantis tentar avançar, ele foi tremendamente cáustico e disse: "Eu iria dizer coisas sobre ele que não seriam muito lisonjeiras". É uma tentativa já de colocar DeSantis fora da corrida para a nomeação republicana. Mas nós sabemos que Trump tem duas vantagens. Tem uma vantagem e uma desvantagem. Tem uma vantagem porque consegue arregimentar, consegue verdadeiramente convencer um grande grupo de republicanos até ao ponto daquilo que podemos chamar de fanatismo. E esse eleitorado irá sempre votar nele. Mas dentro do seu partido, ele também tem muitos anticorpos e esse é um fator que pode favorecer DeSantis. É evidente que também um grande inconveniente de Trump é que aquele estilo de fazer política é um estilo que não colhe junto de um determinado setor do Partido Republicano, aquele que não está ligado mais aos movimentos extremistas. E DeSantis, que tem um passado também num desses movimentos, afastou-se. E esse é um dado que vamos ter de acompanhar com muita atenção.