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A primeira pergunta que eu lhe faço é: estamos a falar de três em cada quatro portugueses que participaram no maior inquérito internacional, que avaliaram de forma positiva a sua saúde mental. No entanto, este resultado é o pior dos países da OCDE. A que se devem estes números tão maus?
Eu antes de mais gostava de ressaltar alguns aspectos positivos deste relatório, porque ele é um relatório fundamental, porque é a primeira vez que nós temos dados que consideram a perceção dos utentes, os inputs dos utentes e não só dos profissionais de saúde. Aqui os utentes foram colocados, de facto, no centro da atenção e tiveram a oportunidade de se pronunciar. Eles pronunciaram-se, cerca de 67% dos pacientes avaliou positivamente a sua saúde mental, mas este número está ainda abaixo daquilo que é relatado por outros países da OCDE. E isto também se deve ao percurso que tem sido, no nosso país, um pouco difícil ainda, no sentido de que os próprios cuidados de saúde primários, por exemplo, possam ter respostas de acessibilidade a todos os utentes aos serviços de psicologia, para que a dimensão da saúde mental seja uma dimensão mais cuidada. E temos ainda um caminho a fazer. Temos aqui um dado que é importante, que nos refere como, por exemplo, a dimensão da confiança no sistema de saúde, a confiança naquilo que são as indicações terapêuticas, inclusivamente da autocuidado, a confiança nos profissionais de saúde, por exemplo, e a humanização dos cuidados de saúde, a importância que isto tem naquilo que é saúde mental e o bem-estar dos portugueses. Na realidade, o resultado está abaixo da média, o que nos indica que há aqui um trabalho ainda para fazer. E obviamente sem recursos humanos, sem profissionais da área da saúde mental, sem psicólogos nos centros de saúde, nos cuidados de saúde primários, não é possível dar resposta àquilo que são as necessidades sentidas pelos pacientes.
A doutora esteve agora a elencar várias medidas para esse futuro. Também em resposta a estes dados, o subdiretor-geral da saúde para a área da saúde pública, André Peralta, refere que um dos maiores desafios de Portugal é providenciar aos portugueses a melhor saúde possível. Para além das diretrizes que já elencou, que outras medidas é que, neste caso, no plano da saúde mental, Portugal deve ter em conta daqui a um, dois, três anos, a curto e médio prazo?
Em primeiro lugar, eu destacaria, para além do que já foi referido, a importância de investir na prevenção e não pensarmos que a intervenção na área da saúde mental é uma intervenção só de remediação. A prevenção é fundamental. De que nós estamos a falar? Nós estamos a falar daquilo que é a intervenção para a mudança de comportamentos, para que as pessoas possam, por exemplo, adotar estilos de vida mais saudáveis. Este estudo, por exemplo, refere muito particularmente as pessoas com doença crônica. E é possível evitar doenças crônicas com outros hábitos de vida mais saudáveis, e que também evitam o surgimento da própria doença ou, tendo uma doença crônica, poderem esses hábitos de vida retardar a evolução da doença, por um lado, e permitir mais anos de vida com mais qualidade para todos os utentes. O que me parece que se salienta mais aqui é que, se nós estamos a falar da saúde mental vista e ouvida na voz dos utentes, esses utentes nos estão a dizer que confiar naquilo que são as indicações terapêuticas, confiar na prestação de cuidados até mais integrados, que há comunicação entre os profissionais. Por exemplo, que um utente, quando é visto por um outro médico, tem não só o espaço próprio e adequado para poder relatar a sua situação e ser escutado nessa situação, que também não precisa de repetir essa mesma informação sobre o seu estado de saúde física e mental várias vezes a diferentes profissionais, porque sente que há coordenação entre diferentes serviços e que há uma integração desses serviços. Ora, se nós proporcionarmos pequenas mudanças no que diz respeito ao atendimento destes utentes, que permita que eles sintam que há um cuidado ao doente, que há uma preocupação com o doente, uma centração no doente, aqui nós estaremos a trazer a psicologia ao serviço da prevenção na saúde mental e estes seriam indicadores muito concretos de como nós podemos realmente mudar aquilo que é a perceção dos utentes relativamente ao Serviço Nacional de Saúde. E acrescentaria aqui outra dimensão, que é para além desta intervenção nesta área mais da prevenção e promoção, também que haja, de facto, real acessibilidade aos cuidados de saúde mental, porque são muito poucos os psicólogos nos cuidados de saúde primários. Estamos a falar de 300 e poucos psicólogos no contexto de todo o continente, e isto é manifestamente insuficiente.
Doutora, mais uma vez, muito obrigado por esta entrevista e resto de boa semana.
Obrigada, João.
Muito obrigado. Com licença.