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Vai ser este primeiro-ministro que vai trazer alguma estabilidade à França ou nem por isso?
Muito me surpreenderia. É mais uma escolha de Macron que surpreende. Macron tem surpreendido muito nos últimos tempos, desta vez pela velocidade. Há aqui também uma novidade, ele nomeou Sébastien Lecornu e encarregou-o de negociar com os partidos, ou seja, as coisas foram feitas um pouco ao contrário. As reações foram muito violentas por parte de muitos dos partidos que votaram justamente a queda do governo de Bayrou e dificilmente haverá estabilidade. Eu julgo que, de alguma forma, há aqui uma espécie de fechamento de fronteiras por parte de Macron. Este Lecornu, que era agora o ministro da Defesa, é um fiel dos fiéis desde 2017, muito jovem ainda. Mas a situação na Assembleia Nacional Francesa é uma situação muitíssimo precária, muito difícil. E agora também vamos ter a rua a fazer a sua vez. As vozes a exigir a demissão de Macron, incluindo com a apresentação de uma moção de destituição por parte da França Insubmissa, portanto, da esquerda mais radical, que pede a demissão do presidente. Tudo isso não leva a crer que vá haver qualquer tipo de estabilidade, pelo contrário. Não é surpreendente sob um ponto de vista, é surpreendente sob outro. Ou seja, o ponto de vista que não surpreende é por ser, de facto, alguém que já da última vez, quando Bayrou foi escolhido, era um dos nomes avançados. É alguém que tem um percurso político, começou muito novo, já foi presidente de uma câmara pequena na Normandia. É alguém que é, de facto, como disse, um fiel de Macron, faz parte do seu núcleo duro, tem uma boa relação à direita, foi visto a almoçar com Bardella e tem relações com a extrema-direita, se quisermos, com a ex-Frente Nacional, com o reagrupamento nacional. E nesse ponto de vista não surpreende. O que surpreende é Macron não ter aproveitado para aquela que era a proposta dos socialistas de nomear alguém de centro-esquerda, entende-se socialista, separando o Partido Socialista dos partidos mais à esquerda. Essa proposta não ter sido aceita, porque agora a grande questão é saber se o Partido Socialista, que também reagiu mal a esta nomeação, vai ou não apoiar esta escolha e o governo, qualquer que ele seja, que Lecornu apresentar. Sendo que nesse caso, se não o fizer, como é provável, a única solução que ele vai ter é apoiar-se justamente no reagrupamento nacional, no Bardella. Bardella foi relativamente ambíguo, diria eu. Disse que: "Sim, vamos ver quais são as propostas de alma de uma forma muitíssimo", eu não vou dizer cínica. Deixa-nos a duvidar, não me parece que vá durar muito tempo. Quase que dá a sensação que Macron, que podia naturalmente ter convocado novas eleições, podia ter feito muita coisa, incluindo demitir-se, o que seria, aliás, uma partida que ele pregava a Marine Le Pen, que por enquanto não se poderia candidatar, mas não fez nada disso. E portanto, aposta nas políticas que vêm de trás, nas políticas que a esquerda considera políticas de direita completamente inaceitáveis. A diminuição de impostos para os mais ricos, esta questão da reforma também obviamente é inaceitável para os partidos de esquerda, discute-se isso tudo em França. E portanto, de alguma forma, nesse sentido, não ter aproveitado uma oportunidade para fazer durar este governo um pouco mais do que os nove meses que durou este agora e os quatro que durou o anterior. Macron ter ido atrás, de facto, foi uma surpresa e sobretudo a velocidade a que esta escolha foi feita no dia a seguir à rejeição da moção de confiança do primeiro-ministro e imediatamente ele apresenta essa solução. Portanto, nesse aspecto foi uma surpresa e sobretudo não se vê como é que possa sair daqui a tal estabilidade, que de alguma forma os franceses mais uma vez amanhã e depois eventualmente no dia 17 também vão na rua dizer que estão fartos e que querem eleições.
E uma última pergunta, também acho que já me vou repetir um pouco. A ideia de Macron foi então escolher este novo primeiro-ministro para garantir também que o debate do orçamento de Estado corre bem. A pergunta é: será que vai durar até à aprovação do orçamento de Estado?
Será que há aprovação do orçamento de Estado? Vamos lá ver. Quando eu há pouco referi esta apresentação desta moção por parte do partido que para todos os efeitos é a França Insubmissa, tem sido de facto o partido mais radical nesta matéria. Apesar de tudo, a Frente Nacional, o Rassemblement National agora tem sido mais ambíguo, mas para todos os efeitos há aqui, de facto, uma rejeição, sobretudo dessa lógica da política dos negócios, da política do desenvolvimento económico, de uma política que é uma política de direita e de centro-direita. Sabemos também, Macron não se assume como sendo de direita. O seu partido é um partido liberal, sobretudo. Um pouco ao centro da política francesa, mas a questão do orçamento, da economia francesa é a questão central em tudo isto. E a questão da economia francesa neste momento está muito longe da solução. Pelo contrário, a França está com uma dívida muitíssimo preocupante, não só para a França, mas para a Europa toda, que pode de facto desencadear uma crise que não diria que impeliria a de 2008, mas que naturalmente seria muito grave. Tem um déficit anual que este ano deverá andar nos 5%, quase 6% do Produto, o que quer dizer que é de facto uma situação muito preocupante. O que é que Barnier tentou fazer? O que é que o primeiro-ministro agora demitido tentou fazer? Tentou apresentar um orçamento que de alguma forma começasse a diminuir essa dívida. Foi obviamente impossível fazê-lo. O que é que Sébastien Lecornu se propõe fazer? A mesma coisa, até porque ele terá pouca margem de manobra. Ele irá cumprir aquilo que Macron lhe pedir que faça. Eu não estou a dizer que não venha a ser aprovado um orçamento, até pode vir a ser aprovado, o que teria provavelmente de ser feito com o apoio da Frente Nacional. Pelo menos a Frente Nacional teria que permitir e viabilizar essa aprovação. Mas depois dificilmente isto durará muito tempo. É um momento muito importante quando nós pensamos que a política é feita por pessoas e não nos podemos esquecer das suas ambições e dos seus interesses. Marine Le Pen quer ser presidente da República, já tentou várias vezes e não conseguiu. Neste momento está impedida de o ser. O recurso que apresentou à decisão do tribunal vai ser julgado em janeiro e a partir daí se for reduzida a pena de inelegibilidade ou se pura e simplesmente for anulada a condenação, ela já poderá outra vez concorrer. Portanto, eu diria que há aqui também um timing muito importante. Há eleições autárquicas para o ano, há eleições presidenciais em 2027. Estamos perante um cenário de instabilidade absoluta. Se vai ou não vai ser aprovado o orçamento, não faço a menor ideia. Vai depender muito da habilidade do Lecornu. Toda a gente diz que ele é muito habilidoso. Ele de facto tem uma grande experiência política, como sou muito certo já disse. Portanto, nesse aspeto pode ser uma boa escolha, mas dificilmente será uma escolha que consubstancie qualquer tipo de solução, como poderia ser se Macron tivesse aceitado a sugestão ou a proposta dos socialistas. Ele não aceitou, os socialistas já disseram que não vão apoiar. Portanto, estamos outra vez inclinados para a direita no que respeita a uma solução governativa para a França.