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Junta-se a nós a esta hora o jornalista Filipe da Villela, especialista em assuntos religiosos. Filipe da Villela, muito obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós neste "Jornal das 10" da Rádio Observador. Gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, que significado é que tem este momento para quem acaba de ser investido cardeal e o que é que se segue agora nesta cerimónia de investidura?

Olá, bom dia, André. A importância é enorme, como é evidente. Se olhássemos para isto de uma perspectiva carreirista, obviamente esperamos que ninguém na Igreja olhe exclusivamente por essa perspetiva, mas se olharmos por esse lado, isto é quase o topo da carreira. Este é o grupo de conselheiros mais próximos do papa. Mas precisamente para combater essa ideia de carreirismo, há aqui uma série de símbolos nesta celebração e que fazem parte do papel do cardeal que apontam noutro sentido, que é nomeadamente a cor da vestimenta, a cor do encarnado das vestes dos cardeais.

Muito vívida de cima a baixo, desde o barrete até às vestes.

Exatamente. E remete para a disponibilidade que eles devem ter para verter o sangue, para dar a vida, literalmente, em nome da fé e pelo seu serviço à Igreja e ao papa. Isso é muito importante. E o evangelho que foi escolhido hoje para ser lido durante este consultório foi o evangelho do momento do Pentecostes, logo no início da Igreja, que é um dos momentos mais importantes para a fundação da Igreja, que é quando os apóstolos estavam reunidos com medo de sair à rua e receberam o Espírito Santo, encheram-se de coragem, foram pregar, pregaram em várias línguas. Aliás, foram ouvidos por cada um como se tivessem falado na sua língua. Neste sentido, o papa estava a tentar dizer: "A partir de agora vocês são chamados a isto, nas vossas diferentes línguas, pregarem o evangelho ao mundo". Mas há um detalhe importante, é que todos os apóstolos que o fizeram, mais cedo ou mais tarde, acabaram por morrer mártires, mortos exatamente pela fé. Portanto, estas duas coisas são inseparáveis. Ninguém está à espera que o senhor Dom América Aguiar, agora cardeal América Aguiar, seja chamado a dar a vida pela fé, porque em Portugal não vivemos essa realidade, mas há cardeais no Colégio Cardinalício que vêm de países muito difíceis. Mas esta ligação, nem que seja simbólica, é muito importante e por isso, com boa razão, o cardeal Dom América disse que acolhia esta nomeação com muito temor e até algum medo e incerteza sobre se merecia isto e se era capaz.

Filipe da Villela, América Aguiar é aqui criado cardeal com 49 anos, ainda tem uma longa vida pela frente. Isto pode também ser um bom sinal para o peso que América Aguiar pode ter dentro do Vaticano, tendo em conta que começa muito jovem esta carreira de cardeal?

Sim, obviamente, começa muito jovem. Só há um cardeal, neste momento, no Colégio Cardinalício mais novo do que ele, penso que não chega a um ano, que é o cardeal italiano que está à frente da igreja na Mongólia, onde o papa visitou recentemente. Claro que há outros cardeais jovens também, mas Dom América, de facto, é o segundo mais novo. Eu acho que se me tivesse perguntado isso há um mês, quando estávamos todos convencidos que Dom América iria para Roma ocupar um cargo na Cúria Romana, eu daria uma resposta já um bocadinho diferente. Se ele agora passasse os próximos 25, quase 30 anos em Roma, aí sim, ele com certeza ganharia uma influência muito grande, porque ficava muito mais por dentro, conhecia muito melhor os outros cardeais eleitores, faria mais parte da rede. É óbvio que ele vai ser chamado agora como cardeal a fazer parte de um ou outro dicastério, comissões, etc., irá com frequência a Roma, mas não é exatamente a mesma coisa. Ele vai ficar em Portugal, vai ficar em Setúbal, fica mais longe dos centros de decisão da Igreja a nível central, mas não deixa, obviamente, de ser um longo período ao serviço da Igreja como cardeal e terá alguma influência. Mas eu acho que mais do que a sua influência individual, eu apontaria para o interessante facto de termos agora, como diziam há bocadinho e bem, quatro cardeais eleitores, pelo menos durante os próximos anos, quatro cardeais eleitores portugueses.

Filipe, eu gostava de perguntar precisamente sobre isso, qual é que é o peso que agora Portugal passa a ter na cúpula da Igreja Católica, sendo que é um peso mais relevante no Vaticano neste momento?

Exatamente. É um peso mais relevante do que estamos habituados. Mesmo assim, obviamente, não chega ao peso da Igreja americana, a Igreja italiana, por exemplo, que têm todos mais do que 10 cardeais, mas proporcionalmente é um peso muito grande. E eu realçaria aqui outro aspecto, é que é um grupo unido. Eu acho que os cardeais portugueses estão todos bastante alinhados uns com os outros, os cardeais eleitores. Isso não acontece noutros países. Os americanos estão bastante divididos, os cardeais italianos também não há razão para pensar que votem ou que pensem como um bloco. Nesse sentido, Portugal representa um grupo mais homogêneo. E o que eu ia dizer há bocadinho, que eu acho que é importante também, é não pensarmos nisto só a nível de nacionalidades, mas também de grupos linguísticos. Não fará sentido para todos os países, para todas as línguas. Se formos ver, por exemplo, inglês, há muitos cardeais de língua inglesa, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, aliás, Reino Unido, países africanos, mas os cardeais dos países africanos não há grande razão para pensar que estejam muito alinhados com os cardeais americanos ou com os cardeais ingleses. Com o grupo lusófono já não é bem assim. E o grupo lusófono é dos maiores. Nós temos 10 cardeais, quatro portugueses, quatro brasileiros, e aqui é interessante Portugal estar com o mesmo número que o Brasil, quando o Brasil é o maior país católico do mundo. E depois um cardeal de Cabo Verde, um cardeal timorense. E aqui, sim, eu acho que há razões para pensar que há uma maior uniformidade. Normalmente esperar-se-ia que os brasileiros se fiassem, por serem mais. Neste caso, não são mais, mas são o mesmo número, mas há aqui um fator importante, que é o peso e a influência que tem o cardeal Dom Tolentino no Brasil, entre o clero brasileiro e entre o episcopado brasileiro, que eu acho que pode levar Portugal a desempenhar aqui um papel importante. Quando eu digo isto, não quero que as pessoas pensem que eu estou a dizer que o próximo papa vai ser necessariamente lusófono.

Claro.

Não é isso que eu estou a dizer. Até porque um dos que aparece nas listas que são feitas pelos especialistas recorrentemente é o cardeal Dom Tolentino, que eu acho que é muito novo para ter esperança de ser o futuro papa, pelo menos em breve. O do Brasil seria estranho, porque seriam dois papas da América do Sul latina seguidos, também não seria muito provável. Não é no sentido de ter um papa lusófono, mas sim no sentido de o grupo de lusófonos terem aqui um papel quase de king maker, poderem ter aqui um papel decisivo na eleição do próximo papa. Isso é perfeitamente realista. Claro que o que se passa dentro do conclave é segredo e até ao conclave, que nós não fazemos ideia quando é que vai ser, também muita coisa pode mudar.