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A União Europeia tem tido nesta matéria, julgo eu, pelo menos aquilo que é público, e esta decisão não altera essa ideia, tem tido um título prudente e tem olhado para esta questão das tarifas impostas por Donald Trump de uma forma mais tranquila do que aquilo que à primeira vista poderia acontecer e do que, por exemplo, a China tem vindo a fazer, com reações muito rápidas e com medidas muito duras. Esta é uma primeira resposta. É uma resposta ainda só às tarifas impostas ao aço e ao alumínio e portanto, de alguma forma, poderão esperar-se mais medidas um pouco mais tarde. A decisão foi tomada, segundo se sabe, por maioria, ou seja, apenas um país votou contra. Neste caso, estamos a falar de uma decisão por maioria qualificada.
Hungria.
Hungria, que veio dizer, no fundo, que não era esta a resposta, que retaliar e escalar o problema não resolvia nada, mas a questão não é essa. A questão é que a certa altura, sem retaliar, estamos num mundo em que tudo é possível e tudo é imposto de forma unilateral e também de algum modo, a Europa a certa altura não pode estar entregue a essa, não lhe vou chamar capricho, mas a essa forma de querer negociar à força, ainda por cima com o tipo de linguagem que ultimamente ainda ontem, julgo eu, Donald Trump voltou a falar nesta questão e a dizer que a Europa primeiro que toda a gente vinha bajular e vinha para negociar o mundo inteiro e, além disso, que insiste nesta ideia de que a Europa não apenas está a roubar os Estados Unidos, entre aspas, como além disso, a União Europeia foi criada justamente com essa finalidade. Isto é um sinal e é um sinal, julgo eu, forte suficiente, é proporcional no sentido em que não chega sequer ao nível da imposição que foi feita por parte dos Estados Unidos e de alguma forma é um caminho que está iniciado. A decisão foi conhecida agora, mas aparentemente esta imposição será feita em três momentos, mas a começar eventualmente já na próxima semana. Vamos ver de que forma é que isto impacta na economia norte-americana e quais são as consequências e vamos continuar a assistir a isto. Já agora, para dizer que do lado da China, de facto, como eu já disse, aparentemente a guerra está a um nível já muitíssimo mais elevado e, por outro lado, também politicamente há aqui uma outra sequela, diria eu, que é o acordo na Alemanha também está selado, o governo alemão irá entrar em funções em princípio no início de maio e é também um sinal naquilo que é relativamente pouco comum na Alemanha, é um acordo tão rápido após eleições, normalmente demora bastante mais tempo e muito rapidamente os dois partidos ao centro, se quisermos, o chamado Bloco Central Alemão, portanto, a CDU e o SPD, chegaram a um acordo muito rapidamente, justamente por causa também desta questão e da urgência que dela decorre. São os sinais dos tempos e vamos continuar a assistir a isto certamente e haver muitas mudanças nos próximos dias e semanas.
Que tipo de escalada, em termos de tarifas, é que podemos esperar?
Como eu lhe disse, a União Europeia para já anunciou com esta decisão, não vai ser a única, certamente, pois não havendo resposta dos Estados Unidos em relação à sua posição. Aquilo que temos visto da parte da administração norte-americana e de Donald Trump é o contrário. A cada anúncio de uma resposta ele, pelo menos no caso chinês, ele redobra.
E essa é um cenário que admite estar em cima da mesa, depois de a União Europeia aplicar estas tarifas, Donald Trump fazer quase que um double up, ou seja, aumentar ainda mais as tarifas que já anunciou?
Tem sido o que ele tem feito. Eu não tenho nenhuma capacidade para ser completamente franco, já estou farto de dizer isto e acho que era o que as pessoas iam todas dizer, se quer que lhe diga, embora eu não tenha nenhuma autoridade nisso, mas eu acho que não vale a pena querer adivinhar o que se vai passar a seguir. Por um lado, Trump tem esse aplauso a diga-se, no sentido de dizer: "Está toda a gente a pedir-nos, estão os países inteiros, todo o mundo nos vem pedir para negociar", mas depois quando alguém não negoceia, ele redobra as suas ameaças e aumenta as tarifas. Neste momento também já há uma discussão interna relativamente até que ponto é que o poder executivo nos Estados Unidos tem o direito de o fazer ou não. Está neste momento em curso no Congresso essa discussão, mas a verdade é que isso foi o que ele fez no caso chinês. Eu admito que seja o que ele vai fazer no caso europeu. Dito isto, vamos ter que esperar para ver, porque mais uma vez, são sempre decisões que têm à partida uma base, eu diria quase, não digo impeditiva, mas de reação, de ação-reação, e não são mais do que isso. Isso faz com que a leitura seja muito difícil, antecipar seja muito difícil, não há aqui nenhum padrão, não há aqui nada de previsível. Repito, no caso chinês, estamos a atingir níveis, aliás, usaram os chineses, já agora, também a China nesse aspecto. A China já disse que vai até onde for preciso. Isto é o princípio da guerra, é o princípio de qualquer guerra. Isto é uma guerra comercial, pelo menos isso, mas para todos os efeitos, as escaladas têm justamente esse problema, que cada um vai indo até ao limite das suas capacidades e das suas forças. E a China o que já fez hoje, ou o que foi hoje, pelo menos desde ontem que começou a fazer e hoje foi conhecido, no fundo, foi vender títulos da dívida norte-americana, que há muito tempo se sabia que era um dos grandes problemas e um dos grandes trunfos na mão da China, como é na mão do Japão. Isto, de facto, tem um impacto enorme, incluído no custo da dívida norte-americana, nas taxas de juro a 10 anos, que acho que entretanto já subiram de forma muito pronunciada Portanto, vamos ver, mas é impossível prever. É impossível de antecipar. Não é bom pra ninguém.
A Europa pode, ou melhor, deve já procurar alternativas ao mercado americano? E se sim, quais?
É absolutamente fundamental. Se há um segredo, uma regra, uma receita para superar este problema e esta situação por parte da Europa, da União Europeia em particular, mas da Europa se quisermos, até porque os mercados europeus estão, além da União Europeia, estão todos muito ligados uns aos outros, é encontrar outros parceiros. E esses parceiros, nalguns casos, são óbvios. Por exemplo, a África é um caso óbvio. O continente africano nos últimos anos afastou-se bastante do que é, no fundo, esta lógica ocidental de impor sanções, de impor condições, de estabelecer um tipo de relação que nunca lhes foi muito favorável e que acabou por ir cada vez mais na direção de outros alinhamentos internacionais, de outros alinhamentos económicos, incluindo com a China, enfim, o chamado Sul global, afastando-se do Ocidente e em particular da Europa. Ora, isto é uma oportunidade pra Europa regressar a essa cooperação, até porque é muito importante pra ela. Mas depois, naturalmente, há outras opções, como o próprio caso da China. Neste momento, a grande preocupação da Europa, julgo eu, isso será certamente no curto prazo, mas mais uma vez estou a antecipar com algum risco, é evitar que os produtos que a China deixa de conseguir vender pros Estados Unidos e que são, como sabemos, do ponto de vista dos custos, e por isso é que eles vendem muitíssimo mais baratos do que inclusivamente os produzidos na Europa, que venham inundar o mercado europeu. Portanto, essa é uma preocupação europeia, mas a solução também é essa. A solução é criar outros acordos de comércio livre e densificar e intensificar a sua relação com outras áreas do mundo. Repito, África, certamente, também a China, o Japão, enfim, os países do Extremo Oriente e depois, eventualmente, também a América do Sul. No fundo, o facto de Donald Trump e da administração norte-americana ter declarado quase guerra comercial, se quisermos usar a palavra, é um pouquinho excessiva, mas se calhar é a mais correta, praticamente todos os países do mundo. Mas o que permite é criar uma oportunidade para, com esses países do mundo, todos eles prejudicados por esta ação, eventualmente uns tentarão bilateralmente resolver as coisas, mas conseguir esse acordo, essa negociação. No fundo, é o caminho que o mundo tem feito nas últimas décadas e que pra Europa é muito importante. A política comercial europeia baseia-se muito em acordos dessa natureza, de segunda, terceira, quarta geração, cada vez mais aprofundados, onde, no fundo, a principal regra é abater barreiras. Que barreiras são essas? Enfim, taxas aduaneiras ou agora, como se diz, tarifas.