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O físico Carlos Filhais. Muito bom dia, professor. Isto quer dizer que a Lua voltou a ser um objetivo ou um meio para finalmente se pensar em chegar a Marte?

As duas coisas. Por um lado, queremos voltar à Lua e agora vamos voltar à Lua. Estou a falar no plural, porque é aquela frase da humanidade: "Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade." Somos nós todos que vamos à Lua, de certo modo. Eu sinto-me representado. A Lua é o primeiro sítio do espaço, o primeiro astro fora da Terra. Aconteceu há mais de 50 anos e agora a diferença é que a tecnologia é muito maior, em particular no domínio da informática, dos computadores, os meios tecnológicos são muito superiores. Em 69, quando houve a primeira lunagem, o computador era absolutamente rudimentar, levava um e aquilo quase que era uma geringonça. Hoje, atualmente, no nosso bolso, um telemóvel tem muito mais poder do que o computador que levou o homem à Lua. Por um lado, temos tecnologia muito mais aperfeiçoada, temos meios científicos mais desenvolvidos e queremos lá voltar. Qual é o objetivo de lá voltar, mais concreto, além do sonho de ir a um sítio onde já se esteve? Não foi só uma vez, vamos mais vezes. De facto, é fazer uma estação espacial permanente na Lua. Até há poucos dias, também se pensava em fazer uma estação orbital permanente, tal como há estações espaciais em torno da Terra, também se queria fazer uma em torno da Lua. Isso foi descontinuado, foi anunciado pelo diretor da NASA que não vai haver uma estação espacial permanente em torno da Lua, mas que isso vai levar ao reforço de uma base lunar permanente. O que é que nós queremos? Tal como temos astronautas em órbita da Terra em permanência desde 2000, vamos ter astronautas em permanência na Lua, se tudo correr bem. Vamos voltar à Lua em 2028, talvez com uma, duas missões nesse ano, e depois vão ser revezados e ficará uma base permanente na Lua. Qual é então a ideia final? E não fujo da pergunta sobre Marte. Sim, vamos aprender na Lua, vivendo lá, vivendo longe. Aprender na Lua como é que se poderá um dia ir mais longe. Aí será mais difícil, porque Marte não fica a três, quatro dias de caminho, Marte fica a seis meses de caminho, e depois o desafio é muito maior. Não está planeado ainda que viagem será, quando é que será. Não há planos concretos, há planos apenas vagos, mas o nosso sonho, de facto, é ir onde nunca se foi. Não há planeta mais perto da Terra, Marte, é Vénus, mas a Vénus nunca poderemos ir, é um inferno. A temperatura é muito elevada devido ao efeito estufa. Eu acho que será possível, não sei é quando, e não me atrevo a fazer previsões. Voltamos à Lua porque queremos voltar ao sítio onde já estivemos, agora com tecnologia mais avançada, e voltamos lá para aprender a viver fora da Terra, para um dia irmos mais longe. De algum modo, fazendo a comparação com o período dos descobrimentos marítimos, a Lua é mais ou menos assim a Madeira, que foi o primeiro sítio. Mas depois a viagem prosseguiu para outros sítios e chegou-se à África, à Índia, ao Brasil, etc. E aqui o objetivo vai ser Marte.

Que é o caminho marítimo para a Índia.

De certo modo. Há um escritor de ficção científica e os escritores de ficção científica normalmente antecipam as coisas. O Ray Bradbury, que escreveu o livro "Crónicas Marcianas", em que dizia: "Os marcianos existem." Durante muito tempo falava-se da possibilidade de vida em Marte. Hoje sabemos que não há, talvez tivesse havido, andamos a explorar com robôs Marte, mas o que dizia o Ray Bradbury é que os marcianos existem e os marcianos somos nós quando lá formos. De algum modo, se calhar os marcianos já nasceram, que serão os terrestres, os seres humanos, que um dia pousarão o pé em Marte, como já pousaram o pé na Lua. Como já alguém disse: "O nosso berço é a Terra, mas não se fica eternamente no berço."