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Daniel Rizzo, é muito difícil tratar uma perturbação borderline?

Depende da severidade. É um mito essa ideia de que o borderline ou a perturbação borderline da personalidade é das perturbações mentais das mais difíceis de tratar, senão a mais difícil. Eu diria que depende da severidade. Há outras perturbações mentais que em casos extremos também são difíceis de tratar.

Este é o "Sair do Labirinto". Eu sou o Paulo Farinha e vou conversar com o psicólogo Daniel Rizzo sobre perturbação de personalidade borderline. Psicólogo clínico, professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, coordenador do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental da mesma instituição e especialista em perturbações de personalidade e do comportamento antissocial. Há 28 anos que Daniel Rizzo acompanha pacientes com perturbação de personalidade borderline. Olá, Daniel Rizzo, bem-vindo. O que é exatamente esta doença?

A perturbação de personalidade borderline é, como o nome indica, uma das perturbações que faz parte de um grupo que são as perturbações de personalidade. São, de facto, das doenças psiquiátricas menos conhecidas, porque também são talvez mais difíceis de diagnosticar pela maior parte dos clínicos, se compararmos, por exemplo, com a frequência com que um clínico vê uma depressão ou uma perturbação de ansiedade. Estas perturbações, felizmente, são em menor prevalência.

Quando falamos de perturbações de personalidade, incluímos aqui antissocial, narcisista, esquizóide, paranóide. E eu estou a consultar a tabela, porque não saberia dizê-las todas.

Claro, são 10. Têm estes nomes estranhos, depois não são assim tão estranhos. Talvez para o público em geral, a melhor maneira de perceber o que é uma perturbação da personalidade, vamos chamar-lhe um mau feitio. São pessoas que têm feitios muito particulares ou muito rígidos ou muito estranhos ou muito diferentes da variabilidade dos feitios que nós encontramos na maior parte das pessoas com quem interagimos. E por causa desses maus feitios, entre aspas, têm a sua vida transtornada, têm vidas difíceis e afetam a vida daqueles que estão perto e dos outros com quem convivem.

Eu tenho a certeza que as pessoas que nos estão a ouvir neste momento estarão a acenar com a cabeça, de certeza que conhecem alguém que encaixa nesse perfil, de certeza que conhecem alguém ou que lidam com alguém ou já lidaram com mau feitio, o que não quer dizer que toda a gente que tenha mau feitio, tenha necessariamente uma perturbação de personalidade.

Essa é uma questão difícil. Qual é o ponto onde deixa de ser apenas um tipo de feitio particular e passa a ser aquele feitiozinho difícil e passa a ser uma perturbação? E é muito difícil dizer que não há um ponto de corte bem definido. Os clínicos aí socorrem-se, como acontece noutro tipo de perturbações mentais, não só neste grupo das perturbações da personalidade, socorrem-se de o quão incapacitante ou invalidante são aqueles sintomas. Isto é, se a pessoa está a ter muitas dificuldades em manter um trabalho, nos relacionamentos afetivos, na sua vida social, em gerir, por exemplo, seu dinheiro, em ter hábitos de vida mais ou menos saudáveis. Se há dificuldades em mais do que um destes domínios e o quão o seu feitio afeta o seu funcionamento em vários destes domínios, se essas dificuldades puderem ser imputadas a questões de personalidade, então aí aumenta a probabilidade de pensarmos que estamos perante alguém com uma personalidade perturbada.

E a facilidade ou dificuldade com que se diagnostica um paciente com estas características, a ponto de acharmos: "bem, isto é mais do que aquele feitiozinho especial ou mau feitio, é mesmo uma perturbação de personalidade". É muito complicado diagnosticar?

Depende dos casos. Há casos que são muito claros. Há pessoas que, apesar do estigma e da vergonha que podem ter em assumir, mesmo num contexto de consulta com o clínico, em assumir alguns dos seus aspectos do seu funcionamento, há pessoas que se abrem logo numa primeira sessão ou numa segunda e, portanto, permitem-nos avaliar melhor o seu funcionamento nos domínios que precisamos de avaliar para perceber se aponta ou não para este diagnóstico. Há outras pessoas que não, têm muita vergonha de algumas coisas que fazem e, portanto, demoram tempo a revelar-se. O erro mais comum é um erro pelo não diagnóstico, ou seja, porque estas pessoas não nos aparecem. É raro um doente aparecer na consulta porque logo de início tem aspectos de instabilidade, impulsividade ou desregulação emocional. A maior parte aparece com queixas ou de coisas de depressão ou de coisas de ansiedade e, portanto, o diagnóstico da parte da personalidade está um pouco mascarado. Talvez nós quando fazemos programas, mas nós na universidade, quando escrevemos artigos ou capítulos, é sempre em torno de uma destas perturbações, quando são coisas clínicas. E o problema é que em saúde mental, uma desgraça nunca vem só.

Então, por vezes cruza-se com outros diagnósticos.

Muitas vezes, o que traz a pessoa à consulta ou ao pedido de ajuda é motivado por coisas de humor, porque está muito triste ou de ansiedade, ou por problemas ou conflitos no casal, ou interpessoais, ou o que seja. E esse é o principal foco de tratamento e de atenção clínica. E depois, com o tempo, começamos a perceber que é um padrão mais vasto. Há uma outra coisa importante no diagnóstico, que eu acho que devo dizer, Paulo, deste tipo de perturbações e concretamente da perturbação de personalidade borderline, é que não interessa só que afete diversas áreas do funcionamento da pessoa no presente. Tem que ser uma coisa desenvolvimental, ou seja, estas características estão presentes desde fases precoces do desenvolvimento e muitas vezes já se manifestam na adolescência, ou pelo menos desde o início da idade adulta.

Então, no momento em que um paciente chega, ainda que o que o leve à sua consulta seja uma questão de depressão ou de ansiedade ou qualquer outra questão, quando começa a descascar essa cebola É preciso ir lá atrás e procurar isso?

É sempre preciso fazer uma história do desenvolvimento da pessoa para perceber se nós estamos perante algumas alterações da maneira de ser, que são melhor atribuídas, por exemplo, à desregulação do humor, à ansiedade ou à depressão, ou se, pelo contrário, estamos perante um padrão de funcionamento que é crónico, que é antigo. Muitas vezes as pessoas dizem: "Eu desde que me lembro que sempre fui assim". Ou às vezes é preciso ter um outro informante, os pais, um companheiro, um melhor amigo, alguém com autorização do paciente com quem possamos falar para perceber até que ponto o padrão é mais antigo ou não.

E às vezes é necessário pedir justamente a presença dessa pessoa numa consulta para tentar levar isso a bom porto. Nas pesquisas que fiz para preparar a nossa conversa, há um ponto muito frequente e muito comum que eu encontrei quando se fala de perturbação borderline, que é a questão da mentira e de muito frequentemente ser a palavra mentiroso e o faltar à verdade surge como característica. É assim tão comum?

Eu não diria que é assim tão específico desta perturbação. Como dissemos há bocado, são 10, mas elas estão agrupadas em três grandes grupos, porque partilham entre si, dentro de cada grupo, alguns traços comuns, algumas características comuns. Perturbação borderline, não são boas companhias, mas está acompanhada da perturbação antissocial da personalidade, da perturbação narcísica da personalidade e da perturbação histriónica da personalidade.

Portanto, tudo aquilo que conjuga-se bem para dizermos: "Que raio de feitio aquela pessoa tem".

Que raio de feitio.

Ou que nós temos.

Sim, há casos onde as pessoas, de facto, os seus problemas são em torno de uma destas perturbações específicas. Há outros casos onde as pessoas partilham algumas características destas más companhias deste grupo. Este grupo é o grupo B e chama-se o grupo dos teatrais, emotivos e lábeis. O que isso quer dizer? Que muitas vezes há uma certa falsidade no seu feitio ou na maneira como se apresentam e daí poderem parecer que estão a mentir ou a ludibriar, porque são um bocado teatrais e dramatizam e exageram, sendo que os doentes com coisas borderline, quando dramatizam, regra geral, não é falso. Eles têm reações emocionais muito intensas e muito fortes e que para alguém que não seja assim, parecem de facto exageradas, intensas, despropositadas. São emotivos, porque têm as emoções à flor da pele.

E qualquer pequena coisa pode...

Dispara uma intensidade emocional, aquilo que o irrita a si ou a mim, mas como é só uma irritaçãozinha, nós em meia hora ou depois de uma conversa com um amigo ou de uma brincadeira, já passou. Nestes doentes, habitualmente, tem um eco muito grande, quer dizer, eles têm a mesma reação emocional que qualquer outra pessoa, só que numa intensidade tão grande. E as emoções, quando ultrapassam um certo limiar de intensidade, nós perdemos um pouco o controle sobre a componente emocional, que é manda a emoção e não o pensamento.

E deixam de ser eles próprios e às tantas passa a ser o paciente ou passa a ser o diagnóstico que vai controlando ali aquela...

Eu diria a mesma coisa, mas não nesses termos. Eu diria que qualquer um de nós e quem nos está a ouvir, e certamente a si, a mim já me aconteceu, se alguma vez uma das nossas emoções fica muito intensa, não tem que ser descontrolada, ela pode ter uma justificação real. Mas quando uma das nossas emoções vai a um extremo, de facto, é aquela cor da emoção que pinta o nosso pensamento e o nosso comportamento. E nós que podemos, por exemplo, não ser agressivos, por princípio, ser contra a violência, até somos conhecidos por sermos apaziguadores numa série de contextos interpessoais mais difíceis ou de discussão. Se a nossa raiva disparar de uma maneira muito intensa, nós atuamos de uma maneira incongruente com os nossos valores e com a maneira habitual de funcionar. O que acontece a estes doentes? Eles são exatamente como nós, só que têm as emoções, como disse, muito mais à flor da pele e, portanto, quando reagem, nunca reagem com uma quantidade pequena de raiva, é sempre com muita raiva.

Daí a metáfora que usou, que é a cor daquela emoção que vai pintar toda a discussão.

É a emoção que vai dominar tudo. Domina o pensamento e domina a tendência para a ação ao comportamento.

E onde é que entra aqui?

É dessa desregulação emocional que vem, por exemplo, a agressividade, a impulsividade, a maneira como atacam, de uma maneira muito inesperada.

Daí a teatralidade que falava na descrição.

A teatralidade e a labilidade, a facilidade com que as emoções... Eu uso muito uma metáfora, às vezes para os alunos da universidade dizer: se já foram aos Açores, sabem que é muito difícil prever o clima nos Açores, não é? Porque nós temos as quatro estações, por vezes, no mesmo dia. Então não adianta estar a consultar a meteorologia, se está chuva, se está sol, a que horas é que saio, porque é muito imprevisível. A única certeza que temos é que o tempo vai variar ao longo de um dia. Raramente fica de manhã à noite no mesmo tipo de clima.

E é assim com o doente borderline?

É assim com estes doentes. A boa notícia é se nós temos que lidar com alguém assim no trabalho ou nalguma das nossas relações familiares, se a pessoa de repente ficar muito irritada e atacar toda a gente, a boa notícia é que essa raiva raramente dura mais do que algumas horas e mais raramente ainda mais do que um ou dois dias. Depois regula por si. Vai é voltar a desregular rapidamente.

E então quando fala da labilidade, é justamente esta instabilidade.

Instabilidade. Instabilidade é uma palavra-chave nesta perturbação. É por isso que é difícil fazer o diagnóstico logo numa única sessão, porque nós precisamos muitas vezes de ver a pessoa várias vezes, em dias diferentes, a reagir a coisas diferentes, para perceber até que ponto. Enquanto nas outras perturbações há traços de personalidades chatos, de lidar e complicados, mas há mais estabilidade na maneira de ser. Aqui, um dos traços é a instabilidade. Portanto, pela natureza dos sintomas, demora às vezes mais a perceber.

E onde é que entra aqui a questão, então, esse palavrão com que tantas vezes nos cruzamos e com que eu me cruzei a preparar esta entrevista, da mentira?

Eu não diria que a mentira é um marcador desta perturbação, porque nas outras perturbações deste grupo, por exemplo, na narcísica, mentem, ludibriam, enganam, manipulam, que diremos nos antissociais, faço-me entender. E os doentes com traços histriónicos ou perturbação histriónica da personalidade até são, se calhar, aqueles em que se percebe mais rapidamente a mentira, a falsidade, e mentem muitas vezes para induzir pena e compaixão e para ser o centro das atenções. Os doentes borderline não têm a mentira de uma maneira tão clara. Talvez a mentira aqui tenha mais a ver com ocultarem algumas coisas que fizeram e das quais se envergonham depois, a posteriori. Ou porque agrediram, ou porque se metem, por exemplo, comportamentos sexuais promíscuos, ou compras compulsivas, e portanto, depois há alguma vergonha associada e demoram um tempo a revelar isso e ganhar confiança com o clínico para o fazer e então dão primeiro uma imagem, têm que mentir um bocadinho e compor a imagem das coisas de que mais se envergonham.

Então, é também por isso que lidar com um doente borderline é tão difícil e a relação interpessoal é tão complicada. É um desafio grande para quem vive com alguém com um diagnóstico destes.

Eu diria que sim, para quem vive com alguém. Vai depender sempre da severidade. Eu gostava muito de passar esta mensagem, porque é mesmo aquilo que me parece, da minha experiência, da minha observação, vai depender sempre da severidade do diagnóstico. Porque depois há graus. Há graus moderados e há graus severos. Há pessoas que se regulam mais, por exemplo, no contexto de trabalho, pelas implicações que teria se não se regulassem, e depois desregulam-se mais em casa. Há outras pessoas que não, que têm uma dificuldade de controle, independentemente do contexto em que estão e da familiaridade com os outros. Os casos mais graves e mais severos, onde temos praticamente todos os sintomas e numa intensidade grande, são difíceis. São difíceis mesmo na clínica, podem ser muito desafiantes para o terapeuta, porque podem insultar-nos, podem ameaçar-nos, faltar lá sessões.

É frequente acontecer isso na relação terapêutica que se cria naquela díade, como se costuma dizer?

É frequente nos casos mais graves, mais severos, e regra geral, leva meses, às vezes mais que um ano, a conseguir um rapport, uma relação de qualidade com o paciente, que depois permita alavancar a mudança.

Então, isso leva-me a uma questão muito importante e que no fundo se cruza bastante, que é a bissetriz destas nossas entrevistas: sair do labirinto. Como é que se trata uma perturbação borderline?

Quando eu comecei a trabalhar, disse há bocado, há 28 anos, eu lembro-me perfeitamente, há 28 anos, e eu comecei em contexto hospitalar, num hospital central, uma das coisas que mais se ouvia era que quando um doente era refratário às psicoterapias, à medicação, mesmo a tratamento, a internamento, a certa altura, na reunião clínica, alguém dizia: "Ah, é uma perturbação da personalidade".

Portanto, quando é refratário, ou seja, quando era resistente à medicação.

Resistente, ou quando não melhorava nada aproximado daquilo que se esperava que melhorasse, mesmo com químicos, etc. Felizmente, esse tempo acabou e hoje é muito raro encontrar alguém clínico, seja psiquiatra, seja psicólogo, que diga que uma perturbação de personalidade não é tratável. Ainda há uns vozes poluidicionantes, mas é raro. Também as coisas evoluíram muito nos últimos 30 anos em termos de tratamentos e sobretudo melhorou os estudos de eficácia das intervenções. Então eu diria que a regra de ouro para tratar uma perturbação de personalidade borderline é psicoterapia. E dentro das psicoterapias, há três ou quatro modelos de intervenção que têm validação empírica, ou seja, há prova empírica da sua eficácia com doentes com este diagnóstico. Nos casos mais graves, também está recomendado, e é também o que nós assistimos na nossa prática, que é preciso uma intervenção dupla, de um médico psiquiatra e de um psicólogo ou psicoterapeuta. Por quê? Porque embora não haja nenhum medicamento para tratar esta perturbação, há medicação muito eficaz a tratar alguns dos sintomas. Por exemplo, há medicação que pode ser muito útil para dar conta dos comportamentos mais impulsivos, que têm um efeito de redução da impulsividade. Há medicação que ajuda na regulação do humor. As pessoas continuam a ter as mesmas alterações no humor, mas reduzem a intensidade e, portanto, aumenta a regulação emocional, se pensarmos no que eu disse há pouco. Então, nos casos moderados e graves, muitas vezes ajuda, se o doente aceitar, ser visto por um psiquiatra que trabalha em conjunto com o psicoterapeuta.

E o tratamento corre então em dois carris: a psicoterapia levada a cabo por um psicólogo e a medicação prescrita por um psiquiatra.

E se quiser, ainda posso acrescentar que à medida que o doente vai respondendo à psicoterapia, isto é, temos melhoras e reduz a impulsividade, aumenta a regulação emocional, reduz muito os comportamentos que são disfuncionais, aí pode, fazendo a avaliação ao psiquiatra, começar a reduzir a dose e pode mesmo ficar livre de medicação.

Na quantidade de doentes que segue com este diagnóstico e que seguiu ao longo dos 28 anos de carreira e de experiência que tem, são muitos os casos de doentes com uma perturbação borderline que não tiveram necessidade de fazer medicação?

Não são muitos, não saberia dizer uma percentagem.

A maior parte tem que fazer?

Não, talvez metade, metade, mas não tenho isso assim muito presente.

É recomendado?

Porque há pessoas a quem eu recomendaria um médico e que sugeriria, e elas são resistentes e não querem.

Até porque isso vai tornar o processo terapêutico muito mais eficaz.

Vai ganhar mais, vai-se mais depressa. Porque o químico é algo que nós tomamos a diário, e trabalha por si independentemente da nossa vontade. A terapia precisa da colaboração do paciente. Nestes casos, nos mais graves, até está recomendado que por vezes haja mais do que um contacto por semana E nos casos mais exigentes, deve haver no mínimo uma sessão de psicoterapia de uma hora, uma hora e meia por semana, regularmente. E por vezes contactos ao telefone com o terapeuta em situação de crise.

Em caso de SOS poder ligar.

Eles são muito exigentes, porque é preciso que o terapeuta tenha disponibilidade pra situações de SOS, pra evitar automutilações ou comportamentos muito inadequados, ou que saiam pra rua a meia-noite. Quando há uma boa colaboração com o terapeuta, habitualmente os doentes usam-nos como um ponto de regulação. Portanto, quando falhou tudo, antes de fazerem um disparate, ligam-nos.

E essas situações em que o doente descompensa e possa ir pra rua a meia-noite, possa ter comportamentos em que se possa colocar a sua integridade física em causa ou a dos outros. Esses são aqueles casos, claramente, em que uma intervenção psicofarmacológica, ou seja, medicamentos, é claramente recomendada também, ou às vezes a coisa já está equilibrada, mas ainda assim descompensa?

A coisa às vezes está equilibrada e mesmo assim há ali uns picos de desregulação, quando já há uma boa relação estabelecida e a terapia já avançou, já há ganhos e a pessoa já compreende a maneira como funciona a sua mente, as suas emoções, o seu comportamento, e já tem capacidade de regular e também há apoio social e alguma qualidade nas relações que consegue estabelecer. Quando há alguns fatores de proteção e começam a haver coisas boas, nesses casos de desregulação em picos, como disse, muitas vezes basta cinco a 10 minutos ao telefone com o terapeuta. Há uma coisa muito engraçada, no sentido muito curioso, com estes pacientes que não acontece noutros casos. Muitas vezes, só falarem conosco, o poderem exprimir a desregulação em que estão, as dificuldades, o que estão a passar. Às vezes nem dizemos nada, isto é uma experiência que já partilhei com vários colegas e é comum a todos. Só a nossa presença a ouvir e o nosso tom de voz regula.

É tranquilizante.

É tranquilizante. E faz aquele estado acalmar. É quase uma coisa de reparentização.

Mas isso vem confirmar uma ideia de que falávamos também no início desta entrevista, antes de começarmos a gravar, que é: estes processos de psicoterapia com doente borderline, com paciente borderline, podem ser muito longos e podem demorar muitos anos.

Sim.

Podemos estabelecer uma média? Podemos dar uma média?

Pode-se dar uma média, mas depois a variabilidade é muito grande. Eu diria que uma perturbação destas, mesmo numa forma menos severa, não se trata em menos de um ano e meio, dois anos de acompanhamento. Claro que muitas vezes começa semanalmente e depois vai se espaçando e é feito um certo, entre aspas, desmame. Mas a maior parte dos casos exige um acompanhamento prolongado, dois, três anos, e há casos graves que exigem acompanhamento muito mais tempo, se queremos ter algum benefício terapêutico.

E esse acompanhamento passa por dar ao paciente ferramentas de autoconhecimento e de autorregulação para poder controlar e para sofrer menos, no fundo?

Há uma parte muito de psicoeducação, dele perceber que muitas vezes o que causa as consequências que pra ele são indesejáveis, por exemplo, rupturas nas relações amorosas, dificuldade em manter um emprego, conflitos com a família de origem, com os pais, amigos que se afastam, etc. Ou outras questões, como o consumo de drogas ou a desregulação do comportamento alimentar, etc. A maior dificuldade é que as pessoas chegam à consulta a queixar-se do que corre mal na vida, mas parece que há ali um muro de betão que os impede de ver que aquilo que corre mal se deve em grande parte à maneira como lidam com os desafios e as dificuldades da vida. E isso é a habilidade do terapeuta de ir devagar, a desmontar essa negação e essa resistência.

Porque muitas vezes essas pessoas também transferem para os outros, na relação com os outros, algumas dificuldades da relação, certo?

A culpa é sempre dos outros. E o terapeuta é assim um bom saco de boxe e tem que saber ser um bom saco de boxe que não reage, porque é mais protetor. Reparem, de uma maneira geral, toda gente que tem, vamos dizer assim, uma visão de si mais, está me a faltar o termo, que se vê como mais vulnerável, mais fraco, inferior aos outros, diferente, que se envergonha de ser como é, é muito protetor a tirar com as culpas pra terceiros, porque a alternativa é estar sempre a autocriticar-me e a atacar-me a mim próprio. E os doentes borderline alternam nisso. Regra geral, familiares, amigos, relacionamentos, as pessoas queixam-se do feitio do doente, porque levam por tabela, como se costuma dizer. O que as pessoas não têm muita noção é que os doentes alternam entre atacar os outros ou atacar a mim próprio. E quando se atacam a si próprios, são das dores que os terapeutas veem é mais sofridas e mais difíceis. É muito difícil, porque estes doentes passam horas a atacar-se, a humilhar-se, a cortar-se, a mutilar-se, a sentir-se a maior porcaria que há à face da Terra. Só que essa parte é escondida.

E é também por isso que há um tão grande estigma, quer dizer, a saúde mental, a doença mental, tem sobre si um manto de estigma, de preconceito e de vergonha. No caso borderline, ainda mais. É difícil encontrar pessoas que possam admitir facilmente e dizer, e reconhecer, e dar a cara e dar o exemplo, enfim, sem com isso, naturalmente, cada um saberá de si, mas reconhecer: "Eu tenho este problema, eu precisei de ajuda para o tratar". Há aqui uma grande carga.

Acho que é difícil, Paulo, porque uma coisa é eu admitir: "Eu tive uma depressão ou estou a tratar uma depressão". Eu acho que hoje em dia, e bem, com esta tentativa de combatermos o estigma da saúde mental, fala-se muito em saúde mental. Mas fala-se sempre na depressão e na ansiedade, como se houvesse diferentes categorias de perturbação mental. E como se a mensagem que está nas entrelinhas fosse: "Ok, coisas de depressão e da ansiedade, qualquer um pode ter. O resto, as coisas mais graves, é melhor não se falar muito nisso". E é um problema também, ao tentarmos destigmatizar. Acho que é mais difícil alguém assumir publicamente que tem uma perturbação destas, porque só o nome, que às vezes é uma coisa também na terapia, temos que explicar e desmistificar isto às pessoas. Às vezes, não, quase sempre. Perturbação da personalidade dá a ideia que eu não tenho uma coisa, sou eu que estou errado.

Precisamente. E isso tem logo em si uma carga tão forte. Mas, e este é o ponto principal, um ponto muito importante destas entrevistas, há um caminho, é possível sair deste labirinto.

É possível sair deste labirinto, é sempre possível melhorar. Temos evidência empírica robusta da eficácia de diferentes intervenções nesta perturbação em concreto. Talvez, por uma questão de transparência e de clareza, dizer isto também: enquanto uma depressão, a meta da intervenção, seja fármaco, seja psicoterapia, seja combinada, possa ser a ausência total dos sintomas, nós aqui o que queremos é reduzir ao máximo os traços disfuncionais para melhorar o funcionamento da pessoa nas várias áreas da vida de cada um de nós. E, portanto, ninguém deixa de ter algumas destas características, mas se a pessoa aprender a regular este ponto melhor, reduz a interferência e tem uma qualidade de vida muito superior.

E reduz o sofrimento de forma substancial.

Substancial.

Daniel Rios, muito obrigado por nos ter explicado o que é, e nos ter ajudado a perceber um pouco o que é a perturbação de personalidade borderline e sobretudo, como se sai deste labirinto. Eu sou o Paulo Farinha. Até a próxima.