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O meu nome é Tânia Pereirinha e este é mais um "Saúde no Limite", desta vez com Maria Loureiro, que é enfermeira de reabilitação no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra. Apesar de fazer parte da equipa da Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos do hospital, Maria Loureiro está atualmente a trabalhar apenas com doentes Covid, numa das unidades de cuidados intensivos criadas para o efeito no centro hospitalar. Enfermeira Maria Loureiro, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Seja bem-vinda à Rádio Observador.

Obrigada, bom dia e obrigada pela oportunidade também de partilharmos um bocadinho da nossa experiência neste contexto.

Vamos lá, então. No início da pandemia, os doentes Covid estavam concentrados no polo do Hospital dos Covões, mas entretanto o polo do Hospital da Universidade de Coimbra, onde trabalha, também passou a receber estes casos. Há quanto tempo está a tratar doentes Covid?

Desde novembro. Eu fui mobilizada do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica para a Unidade de Cuidados Intensivos Covid do Hospital Geral, portanto ainda continuo naquele que foi o primeiro espaço a abrir para doentes Covid. Estou nos cuidados intensivos nos Covões.

Está nos Covões?

Sim, estou nos Covões.

Ok. Que são então o polo que tem mais doentes Covid aí em Coimbra, não é?

Sim, está em exclusivo para doentes Covid.

O que isso significa? Como é que um hospital inteiro está em exclusivo para doentes Covid?

O que isso significa? Significa que realmente o impacto da pandemia, que na primeira vaga se revelou, no que diz respeito a Coimbra, ainda algo controlado, se assim se pode dizer, aparentemente o descontrole daquilo que foi a propagação do vírus e daquilo que foi a implicação para as pessoas e para a sua saúde foi enorme. E realmente, às vezes brincamos a contar o número de ambulâncias que estão a chegar, esperando para perceber quantas pessoas vão ter necessidade de internamento. E ver todos os dias serviços que ontem não eram e hoje já são Covid, as equipes a terem que se reestruturar, os circuitos a terem que se renovar, é algo que parece que vivemos num sonho, parece que não é bem real. Ontem eram 20 camas, passaram a 40, passaram a 60, e mesmo assim parece que não chegam. Portanto, viver isto e ver a transformação daquilo que tinha um conjunto de áreas de especialidade que davam resposta à necessidade dos cuidados específicos, a transformar-se e parece que nunca é suficiente, foi a determinada altura quase que assustador para quem lá estava. Todos os dias é aquela ansiedade: será que temos que chega? Vai se transformar mais? Hoje foi a enfermaria que era de medicina, que se transformou em Covid. Todos os dias nós temos acesso àquilo que é a transformação de serviços, a conversão de serviços e ficamos a questionar: será que vai chegar? Será que vamos ter que continuar?

Nunca houve, até agora, um momento em que não tivesse chegado? Nunca houve ninguém que não tivesse tido lugar.

Não sentimos isso. Tem sido realmente nobre a atitude de todos, porque a instituição funciona mais que nunca numa organização total, portanto, estamos todos para e temos visto que é capaz. Já só temos três vagas, mas de repente houve a possibilidade de abrir mais um contexto e todas as equipes se prepararam para, todos se reorganizaram. Então temos mais 20 vagas. Vamos ter mais cinco unidades de cuidados intensivos. Vamos ter mais unidades, camas, não estou a falar unidades de serviços.

E isso faz-se em quanto tempo? Em quanto tempo é possível fazer essa reinvenção de camas?

Eu acho que isto aqui não é em quanto é possível, é em quanto tempo temos para. Nós temos tido que transformar em 24 horas os serviços. As pessoas precisam, nós não temos horas. Se tem que nascer ou transformar um serviço em 24 horas, é em 24 horas, e estamos lá o tempo que for necessário para garantir os circuitos, para garantir os materiais, para também garantir as equipes. Tem havido uma acumulação de horas enorme para todos, mas pelo menos temos a sensação, e penso que é a realidade que vivemos, de que temos conseguido dar às pessoas o lugar que elas precisam para ser cuidadas.

Portanto, não é como não tenham horas, como estava a dizer, vocês têm horas demais, não é? Há quanto tempo é que não tem uma folga? Há quanto tempo é que não tem férias? Quanto tempo é que está a trabalhar em média?

Eu estou a fazer em média 50 horas por semana, sendo que tive folga ontem, porque em casa não sou a única profissional de saúde, porque tivemos que nos reajustar, porque também temos filhos para cuidar. E então minha folga foi ontem para ser a mãe "sitter", para poder garantir que a minha filha tem quem cuide dela, porque também é esse outro fator humano que tem que ser tido em conta. Nós somos profissionais, nós estamos para cuidar dos outros, mas também temos que cuidar dos nossos.

E esse equilíbrio, presumo, para as pessoas que não trabalham na linha da frente da Covid, já é difícil. Trabalhar em casa com filhos, para quem trabalha, para quem tem que fazer turnos 24 horas, presumo que seja muito mais difícil de alcançar, não é?

Sim, não é fácil e em casal tivemos que tomar decisões. Optamos por não entregar a nossa filha aos nossos pais, por segurança deles, porque também temos que pensar neles, porque a cadeia de transmissão, apesar de tantos estudos que surgem, nós temos que a questionar e que temos que estar muito conscientes que pode ser a criança de quatro anos que pode infectar o avô com 70 e pode ser ele a precisar de cuidados hospitalares. E o nosso entendimento foi que teríamos que ser nós a gerirnos, só que nós também não estamos iguais ao que estávamos antes da pandemia. E portanto, até a paciência para os nossos filhos não é a mesma que era antes da pandemia. A sobrecarga de horas, o convivermos com o estresse, o convivermos com a iminência da vida e da morte, o querermos também apaziguar o sofrimento físico e psicológico de quem é alvo dos nossos cuidados, por muito que se tente chegar a casa e estarmos aptos a esquecermos, isso vem conosco. E é óbvio que eu como mãe, não sou a mesma mãe paciente, tolerante, do que era uns meses largos atrás. Por isso, além da questão da gestão do tempo, é a questão da gestão emocional, que o equilíbrio nem sempre é muito fácil. E de repente nós damos conta de: "Ah, mas a minha filha fazia exatamente a mesma coisa há dez meses atrás e eu não ficava estressada e agora fico por quê?" Porque o impacto da pandemia nos profissionais de saúde não é só enquanto lá estamos, é quando também vimos pra casa.

E não é só no momento, não é só uma questão mecânica, não é daquilo que tem que fazer, é tudo aquilo que vocês trazem convosco das pessoas que estão a tratar.

Sim.

Há algum dia, algum momento, alguma pessoa que a tenha deixado mais devastada?

Sim, uma colega da minha idade, que felizmente o percurso foi de sucesso, portanto, ela está bem.

Enfermeira também?

Uma enfermeira.

De que idade?

Com 37 anos, portanto com a minha idade, com a diferença de uma semana de aniversário entre nós duas, que entra na passagem de ano para os cuidados intensivos, em que ainda vinha em ventilação não invasiva, mas que percebemos rapidamente que a evolução teria que ser para uma intubação, para uma indução de coma, e que invariavelmente era um de nós. E poderíamos ser nós. E se todas as outras histórias que acompanhamos todos os dias, que são as histórias das pessoas que lá estão, de despedida das famílias, de: "Será que vou sobreviver a isto?" Digamos que fazer uma projeção de alguém que podia ser eu, foi talvez a história que, até hoje, teve o maior impacto pessoal e que se calhar eu trouxe mais pra casa, foi realmente pensar que podia ser eu.

Estava a falar nessa questão da despedida das famílias, não é? Porque isso é um dos vossos novos trabalhos ou das vossas novas funções, que é fazer a ponte entre os doentes e as famílias que não os podem visitar. Vocês têm que fazer essa chamada, não é? Antes das pessoas serem intubadas e colocadas em coma induzido para serem ventiladas. Há sempre ou tenta-se que haja sempre esse contato com as famílias?

Sim. Eu, por acaso, partilhava isto há uns dias atrás com colegas e que dizia exatamente isso. Apesar de todo o contexto e daquilo que é difícil para todos nós, todos nós temos dificuldades, eu acho que nós temos tido, no que diz respeito, claro, à Unidade de Cuidados Intensivos onde estou e que se reflete na maioria dos serviços Covid da instituição, nós temos tido sempre essa preocupação. Sendo possível, a pessoa fala sempre com o familiar que lhe diz mais ou que naquele momento é com quem a pessoa precisa falar, porque já ouvi tudo nessas conversas, desde: "Olha, o meu PIN do cartão é X, Y e Z, se precisares de ir buscar dinheiro, está na caixa", não sei o quê. "Olha, eu não quero que a tua mãe ouça as minhas últimas palavras, portanto, peço que tomes conta dela". E nós tentamos facilitar, sempre que é possível, e claro que às vezes a situação limite não permite. Mas, felizmente, em termos de instrumentos, temos um tablet e um telemóvel dentro das unidades, que nos permite fazer com que a pessoa possa falar. E a noção que temos é que quando as pessoas conseguem realmente conversar com quem escolheram, que todo o processo até parece mais tranquilo. O processo até de intubação, as pessoas estão mais tranquilas naquela sua dificuldade respiratória, naquela sua incapacidade física naquele momento, que numa circunstância fora deste contexto, a pessoa está muito aflita, não consegue até colaborar conosco e parece que tranquiliza-os de alguma forma Sendo certo que este momento é marcante para todos, mas não é de todo menos marcante quando nós conseguimos fazer o resto, que é no final dos dias de intubação, que a pessoa necessita, vê-los a falar pela primeira vez com a família.

Sim, é marcante por outro lado, de outra forma.

De outra forma. Pela positiva, pela imagem, e não é de todo menos importante para as pessoas. Mas é complexo, porque ouvirmos o que as pessoas querem dizer naquelas que podem ser as últimas palavras, pelo menos que elas acham que podem ser as últimas palavras delas, é difícil às vezes.

Era o que eu ia perguntar, como é que se lida com isso? Porque eu ouvi-a descrever duas situações agora e fiquei arrepiada. Como é que no dia a dia, conhecendo as pessoas, porque vão conhecendo, como é que consegue manter-se impassível a ouvir essas, que às tantas são despedidas, sejam mesmo para sempre ou não, são despedidas.

Sim, eu acho que a equipa ajuda muito. Ou seja, todos nós também temos os nossos momentos. Há bocado perguntava-me quem é que tinha sido a situação que me tinha marcado mais. A mim foi aquela minha colega, mas a outros colegas, se calhar foi alguém que era parecido com o pai ou que até conhecia porque vive perto de si. E eu acho que aqui a nossa equipa e a equipa ajuda muito, porque quando alguém está a ter maior impacto ao ouvir as últimas palavras ou estas despedidas, há alguém que se apercebe que tu também estás a precisar de uma palavra. Estamos ali fora, mas quando for o nosso bocadinho para sair, vamos conversar um bocadinho. E isto ajuda muito, porque todos nós temos dias e temos momentos e recebemos de forma diferente ou gerimos de forma diferente estas situações. E todos nós temos um sentido de cuidado do outro, não só para as pessoas que estão na cama, mas daqueles que são os nossos pares. E isso tem ajudado muito. Acho que todos nós, além da tentativa de boa disposição que tentamos criar e temos aquele momento sempre do dia que dizemos umas piadas, à entrada para desanuviar um bocadinho essa sensação de pressão. Também quando não é a piada, não é a graça que funciona, mas aquela palavra e aquele ombro que nós precisarmos no momento. E se for preciso chorar, vamos chorar, porque nós não somos máquinas. E temos que ter aqueles cinco, 10 minutos para chorar e para gerir isto e dizer: "Não, eu hoje esta situação não consegui gerir bem. Eu preciso". E a equipa tem funcionado muito bem nisso. Eu acho que todos nós nos ajudamos muito e isso também faz a diferença para conseguirmos conviver com isto. Eu trabalho numa unidade de cuidados intensivos de uma cirurgia e digamos que lidar com a morte ou com as despedidas não é um habitual, porque afinal de contas, as pessoas vão fazer o tratamento de um problema, portanto vão fazer o tratamento, cuidam-se e nós ajudamos a regressar a casa. Aqui temos dúvidas sobre isso. Portanto, aquelas palavras que as pessoas dirigem às suas famílias são mesmo de despedida, que seja ou não para sempre. E então este limbo entre a vida e a morte é muito mais presente e nós sentimo-lo muito mais. E nós sabemos que temos que cuidar e fomos ensinados que cuidamos no nascimento até à morte. Mas se no nascimento é muito fácil aprender e toda a gente adora cuidar de alguém que nasce, quando falamos em cuidar alguém que pode estar a morrer, as coisas já são mais complicadas. E aqui a inteligência emocional funciona muito, a par realmente desta ajuda de equipa. Temos dias bons, temos dias maus. Eu pessoalmente tento entrar sempre com uma perspectiva muito positiva quando vou para os cuidados. As pessoas precisam de mim e eu tenho que estar para aquilo que elas necessitam. Se há dias que são difíceis e que se há palavras que são difíceis às vezes digerir, sim, mas quando é difícil, nós temos um suporte. Temos também uma liderança que nos ajuda, porque quando estamos, e há uma perceção da nossa líder, que às vezes já estamos a atingir um determinado limite.

Que aí é um time off.

É um time off. E há, sobretudo, umas palavras que nos ajudam. Nós temos um grupo que a nossa enfermeira gestora faz questão de pertencer e de quando percebe que nós estamos a vacilar um bocadinho.

De WhatsApp ou qualquer coisa do gênero?

Sim, um grupo de WhatsApp, uma coisa muito informal. E ela manda-nos aquela mensagem que nós precisamos. Nós estamos todos no mesmo e isto ajuda muito também. Portanto, a questão também da liderança ajuda-nos. Agora, claro, há dias melhores que outros.

Estava a falar nessa questão da morte e da morte ter passado a ser uma possibilidade sempre presente. Desde novembro que está a cuidar de doentes Covid. Tem ideia de quantas pessoas já perdeu?

Tenho ideia de quantas pessoas já perdi. E posso lhe dizer que na primeira semana que comecei funções perdi duas pessoas. E posso lhe dizer que no total destes meses perdi sete pessoas. Sete pessoas que estavam mais comigo. Obviamente que infelizmente os números são superiores a isto, mas sete pessoas e inclusivamente sei o nome da maioria delas.

Sabe o nome, sabe o que faziam, sabe de onde eram. Apesar das pessoas, porque na unidade de cuidados intensivos, nós temos a ideia de que nem toda a gente está ventilada. Há quem esteja consciente e a aperceber-se daquilo que se passa.

Sim, e mesmo ventiladas, nós temos pessoas que estão capazes de comunicar conosco e de referenciar seu desconforto. E a falar disso, sei que uma das situações que por acaso recentemente tínhamos estado a falar, tivemos um senhor que tínhamos a medicação preparada, em que ele estaria num coma induzido, e o senhor abre os olhos quando eu lhe estava a fazer reabilitação. Eu fiquei surpresa e até partilhamos em equipe, sobre se tínhamos que o pôr mais a descansar, mas ele muito sereno, muito tranquilo. Enquanto eu estive, os 45 minutos que estive a trabalhar com ele no domínio da reabilitação respiratória, da reabilitação motora, ele esteve a colaborar comigo. E no final, ele a dizer que nós éramos uma equipe fantástica. Inclusivamente, e depois já num processo, portanto, foi uma situação de sucesso, já no processo daquilo que nós chamamos o desmame ventilatório, portanto ele ainda que estivesse ventilado, mas estava com uma ajuda menor em termos de ventilação. Ele fez uma videochamada, claro, nós fizemos a videochamada, mas ele fez a videochamada com as filhas e com a esposa.

E como é que foi essa chamada? Lembra-se do que é que dizeram?

Foi extraordinário. E nestas questões, temos sempre que preparar a família, dizer que não vão ouvir o seu familiar e foi assim que nós explicamos: "Olha, falamos com a esposa, o seu marido quer falar consigo, mas não está capaz de falar, está só capaz de comunicar". E ela: "Mas eu posso falar com ele?" "Sim, portanto aquilo que tiver para lhe dizer, diga, faça-lhe perguntas que ele possa responder sim ou não com os acenos de cabeça. Mas pronto, está disponível". A senhora já chorava antes de chegarmos com o tablet ao pé dela.

Coitada.

E foi extraordinário. E claro que a primeira coisa, as pessoas perguntam é: "Estás bem?" E as lágrimas escorriam pela cara do senhor e ele dizia: "Sim". E obviamente que foi um momento muito emocionante pela positiva, porque se calhar foi aquilo que faltava para o senhor acabar por ser extubado e ter alta pra enfermaria, e estar muito bem. Portanto, ainda que os cuidados intensivos sejam, ou haja uma visão, às vezes um bocadinho mecanizada das coisas e que a questão relacional e mais humana parece que não funciona tanto. A verdade é que é possível e que nós o fazemos, se calhar é até mais possível ou que exige diferentes competências da nossa parte, porque lá está, em termos de discurso, nós temos que fazer perguntas simples, que a pessoa seja só capaz de responder com aceno de cabeça. Mas, por exemplo, na parte da reabilitação, a pessoa ser capaz de colaborar conosco, mexer os dedos e ela ter a noção que está a mexer os dedos, isto ajuda depois a todo o processo, porque a pessoa sente que é capaz, que afinal está melhor. E isso também é um bocadinho, independentemente de toda a questão terapêutica, todas as intervenções que facilitam a melhoria da pessoa, ela sentir-se que está a melhorar, sentir que é capaz, que afinal as coisas estão a evoluir, é outra ajuda, é outra parte do cuidado. E depois nós temos muito a questão de ir perguntando o que é que eles faziam. E claro, que vamos normalmente à história prévia pra percebermos, pra depois também os ajudarmos a orientar, porque também depois funciona muito em termos de reabilitação cognitiva, porque muitas das vezes eles depois não sabem nem que dia que estão, se é dia, se é de noite, o que é que lhes aconteceu. Isto ajuda depois a eles reintegrarem-se naquilo que era a sua vida antes.

Estes doentes, estamos a falar de doentes de que idades, mais ou menos, já percebi que até jovens de 35 anos. Mas que idade têm os doentes que lhe têm passado, ou em média, os doentes que lhe têm passado pelas mãos?

Na fase inicial, quando falamos ali de final de novembro, início de dezembro, a faixa etária estava mais nos 60 e tal anos. E isto a par daquilo que se foi vendo na evolução, também nas notícias, aquilo que nos foi acontecendo foi que as pessoas que foram internadas passaram a ser cada vez mais jovens, com médias de idade mais para os 40 e poucos anos. Portanto, muitas pessoas com 45, 44, 48, 33, 51, depois mesmo os 50 eram 50 e poucos, mais do 50 e tais

Eram aqueles casos que vocês viam à partida que tinham excesso de peso ou que tinham doenças prévias, ou nem por isso?

Nem por isso. E isso, se calhar, foi aquilo que, a determinada altura, nós enquanto equipa, nos fez pensar muito, porque se numa fase inicial se associava muito à questão da idade ou de mais idade e de pessoas com obesidade ou com alguma comorbidade, de repente, começamos a ter pessoas jovens, que no máximo que se poderia se calhar dizer era que teriam excesso de peso, portanto não eram obesos, no máximo, e já assim a utilizar o IMC como baliza, digamos assim. E que não tinham comorbidades nenhumas, eram pessoas saudáveis que de repente foram infetadas com Covid e que de repente estavam nos cuidados intensivos.

Isso, sobretudo quando lhe aparece uma colega também. Isso faz aumentar o medo de ficar doente, porque vocês estão mais propensas a isso, presumo eu. Não sei se tem outros colegas que já estiveram infetados, se a própria Maria passou por isso.

Não, eu costumo dizer que tenho tido muita sorte. Não, em relação à questão da infecção, em termos de serviços Covid, aquilo que nos temos apercebido é que realmente a taxa de infecção de profissionais é muito baixa. Tem sido possível termos EPIs que nos dão segurança, portanto a prestação, e seguimos todos os circuitos. Todos nós, sempre que há alguém que vem de novo, que é mobilizado, passamos por uma integração àquilo que são as nossas condições de segurança para. E no que diz respeito realmente ao cuidar, o estarmos equipados e preparados para cuidar e não termos medos de nos infetar, eu acho que isso, com o passar do tempo da pandemia, isso foi muito debelado por nós. Digamos que já temos alguma tranquilidade na maneira como vamos e não temos receio. Se me perguntar no primeiro dia que entrei na unidade de cuidados intensivos, se tive medo, tive. Tive medo. Acho que os primeiros cinco minutos hiperventilei, já não sabia se era das EPIs, se era da pressão positiva da unidade ou se realmente era o medo que se estava a apodrar de mim. Sim. E olhando para as camas e vendo pessoas que podíamos ser nós ou que podem ser os nossos pais, obviamente que o impacto, o medo, é grande. E depois, olhando para nós e pensando: "Mas eu sou uma pessoa saudável, eu não sou gorda, eu não tenho nenhum fator que leve". E de repente alguém com as mesmas características está ventilado, obviamente que isto faz-nos pensar. Mas eu acho que nós aqui temos sempre aquela ginástica profissional que é: o foco é o cuidado da pessoa, que está a precisar de nós, vamos tentar deixar o nosso medo para trás. Eu acho que nós temos tido mais facilidade em lidar com o medo de nos infetarmos do que se calhar lidarmos com aquilo que tenha sido o percurso das próprias pessoas. Lá está, com estas chamadas das despedidas, quando nos morrem efetivamente as pessoas, se calhar tem sido mais difícil para nós do que esta transição. Lá está, no primeiro dia, sim, tive medo.

No segundo já não.

No segundo já não. No segundo já ia tudo bem. Aquela coisa das regras de retirada da remoção das EPIs, pois nós como profissionais de saúde, eu sei que toda a gente consome muita informação, mas nós profissionais de saúde consumimos imensa. Ler na literatura que a maior parte dos casos de infecção em profissionais de saúde era na remoção de EPIs, então toda a gente olhar para as grelhazinhas do que é que sai primeiro, o que é que sai a seguir. Hoje em dia já fazemos isto de uma forma mais natural, mais tranquila, vamos dizer assim.

Não terá aqueles cuidados de chegar a casa e despir a roupa toda ou ainda tem?

É assim, eu num turno de 12 horas ainda tomo três banhos. Num turno de 12 horas tomo três banhos, segundo o meu marido nunca se gastou tanta roupa em casa como agora, porque realmente todos os três, eu, o meu marido que é enfermeiro também, e a minha filha, todos os dias é uma roupa para lavar.

Três banhos são um ainda no hospital, outros em casa, como é que isso funciona?

Os três é dentro do hospital. As três saídas, digamos assim. Uma que normalmente eu saio por volta de 12h30, 13h tomo banho, que é quando eu vou almoçar. Depois, normalmente às 18h, porque vamos nos articulando em termos de unidades para garantir a reabilitação a todos os doentes, mais que uma vez, se houver necessidade, portanto, se troco entre unidades, vou outra vez tomar banho e depois antes de sair para casa. Quando chego a casa, já me passou um bocadinho mais a ideia de que despia-me à entrada da porta e tinha o pijama na secção seguinte para vestir, mas toda a roupa vai sempre para lavar diariamente. Ainda estamos nesta fase. Acho que o cuidado, também já estou vacinada, o que podia me dar um pouquinho mais de tranquilidade, mas eu tenho que pensar também naqueles que tenho que cuidar. O meu marido não está vacinado, a minha filha não está vacinada e eu também tenho que cuidar deles.

Ele não trabalha com doentes Covid?

Ele não trabalha com doentes Covid, pelo menos ainda.

Ok, daí ainda não ter sido vacinada, então.

Sim.

Logo no início da conversa falávamos nas filas de ambulâncias que vocês às vezes contam. Estávamos a falar destes cuidados todos, nas pessoas que lhe passaram pelas mãos, novas, velhas. Como é que vê a indiferença das pessoas em relação a isto? As pessoas que não ficam em casa, as pessoas que não cumprem o confinamento.

Isso é uma questão bastante complicada. Eu não consigo compreender, às vezes, porque todos nós sabemos o que é que depois acontece. E sendo que quando vamos conhecendo também os doentes que temos, eles próprios às vezes nos contam como é que foi que apanharam Covid. E apanharam Covid às vezes porque foram jantar com um grupo de amigos e depois infectaram a esposa, infectaram os filhos, infectaram os pais, e aí eles têm a noção do que é que não deviam ter feito.

Pensar demais, não é?

Exato. Eu acho que isto tem a ver um bocado, às vezes, com a questão cultural, só acontece aos outros. Portanto, como só acontece aos outros, eu vou vivendo a minha vida um pouquinho nesta lógica de: eu estou segura, eu não tenho, nem tenho clínica. E às vezes não consigo compreender como é que com tanta informação, com tanta tentativa de sensibilização, as pessoas realmente ainda continuam a incumprir. Eu quero acreditar que às vezes pode ter a ver com uma questão também da saúde mental das pessoas, ou seja, que estarem em confinamento, estarem fechadas, começa a afetar efetivamente a saúde mental das pessoas e que as pessoas precisam de sair e arejar, e que depois quando saem e arejam, esquecem-se que também têm que continuar a ter os cuidados de proteção. Eu tenho aqui perto de minha casa um conjunto de meios comerciais, portanto, tenho uma farmácia, uma padaria e um restaurante que faz take away. E no sábado, por acaso, passei de carro, porque vinha a sair do serviço e eram filas de pessoas. E eu lembro que na primeira vaga, aparecia muito nas redes sociais, pessoas que até fizeram pão em casa, porque assim já não tinham que sair. E eu acho que as pessoas estão a sair porque também precisam. Depois não têm é o resto, porque não têm os cuidados necessários para impedir a propagação. Portanto, eu não quero acreditar que as pessoas também fazem isto só de ânimo leve, do eu estou-me a borrifar e se alguém apanhar por mim, não tem interesse. Eu quero acreditar que as pessoas às vezes fazem isso para se protegerem um pouquinho daquilo que vai ser para mim uma segunda pandemia, que é o impacto na saúde mental de todos, ou pelas questões de desemprego, ou pelas questões de teletrabalho com filhos em casa. Com esta noção, portanto, eu tenho que estar fechada. E eu às vezes tenho muito o hábito à minha família, aos meus padrinhos, aos meus pais, eu tento fazer videochamadas todos os dias e depois ponho-os todos a falarem uns com os outros. Por quê? Porque eu tenho a noção disso, as pessoas dão com elas a falar quase pras paredes, e que isso as afeta. Portanto, eu quero acreditar que não é por mal que a população portuguesa não tomou ainda esta pandemia como uma possibilidade de morte para si e pra sua família. Eu quero acreditar que ainda é porque as pessoas querem proteger um pouquinho também a sua saúde mental.

Mas é o que se é, não é? Uma possibilidade de morte.

Sim.

Diria que agora já temos os números de infecção a baixar. As coisas já se começam a sentir no seu serviço ou pra já continua tudo como se nada fosse?

Não, a taxa de ocupação continua a rondar os 95%. Portanto, eu não posso dizer que já se tem sentido.

Isso em todo o hospital, não é? Em todo o centro hospitalar. No seu serviço, tem alguma cama livre neste momento?

Ora bem, no sábado não tinha nenhuma. No sábado não tinha nenhuma, mas deixamos, portanto no sábado quando saí, tínhamos, vamos dizer, dois doentes com uma evolução muito favorável, que possivelmente iriam passar para unidades de internamento. Que eram características positivas.

E tinha alguém pronto para desocupar os lugares ou não?

Havia alguns doentes em observação que estaria-se ainda a decidir se necessitariam ou não de cuidados intensivos. Porque nós também, vamos dizer que temos uma unidade de cuidados intermédios, portanto, uma unidade de internamento que naqueles casos que ainda há dúvidas se será mesmo necessária a ventilação mecânica ou não, que fazem a ventilação não invasiva ou a oxigenoterapia de alto fluxo, e que ficam a tentar se perceber como é que é a tendência evolutiva do quadro clínico. Porque isso é outra coisa que também nos assusta um pouquinho, é que a maior parte, quando vamos ler a história Clínica, a história clínica de evolução é uma história clínica no tempo. Ou seja, há um início de sintomas ou um teste há dez dias e, entretanto, houve uma tosse, e entretanto houve um pico febril, e entretanto houve algum cansaço e, de repente, tudo isso junto, estão a precisar de ir pra urgência. E quando vão pra urgência, as situações estão muito críticas já. Isto é outra coisa que eu acho que as pessoas também têm que ir tendo noção. Há, às vezes, um receio de se procurar os cuidados de saúde, até por aquilo que se vê de horas de espera.

Mas há o risco de procurar os cuidados tarde demais.

Exatamente. E é isso que nós muitas das vezes temos nos apercebido, é que há evoluções de dez dias, 12 dias, que às vezes, e na primeira vaga, os dez, 12 dias já eram quase critérios de cura, portanto, as pessoas já eram nos primeiros três, quatro dias que havia realmente a clínica e se entretanto não tivessem agravamento, as coisas evoluíam favoravelmente. E começa a nos aparecer que até isso, neste momento, em termos de segunda, terceira vaga, como lhe queiram chamar, eu acho que nós nunca saímos da segunda, que é um comportamento diferente em termos de clínica. E as pessoas têm que ter essa noção.

E vocês não conseguem perceber ainda por quê, não é?

Não. E que também vai lá, depende. É importante que as pessoas tenham noção que quando têm sinais e sintomas que possam ser de Covid, irem fazer o rastreio e perceber se efetivamente é Covid. Sendo diagnosticado Covid, que não vão tarde demais, que não se deixem ficar em casa, tentar evitar o tempo de espera de uma urgência, porque 24 horas ou 12 horas pode fazer a diferença na questão da evolução e daquilo que nós depois podemos fazer para ajudar a melhorar.

É assustador tudo. Voltando atrás à pergunta que acabou por não responder completamente, como é que está a situação agora?

Como é que está a situação agora? Eu continuo a ter os cuidados intensivos cheios. Parece-me que em termos de faixa etária, estamos outra vez a caminhar mais para os 50 e tal, 60 e tal. Mas eu não sinto que isto já esteja a abrandar. Se calhar, em termos de números globais, OK, e fico muito satisfeita pelos indicadores da DGS serem de melhoria, mas eu não me arriscaria para já dizer: "Ok, já ultrapassamos isto".

Vamos ter que esperar mais, não é? E vocês vão ter que continuar a fazer aquilo que sabem fazer de melhor. Enfermeira Maria Loureiro, muito obrigada pela sua disponibilidade e pelo seu testemunho e continuação de bom trabalho.

Obrigada.