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Olá Pedro, desde já bem-vindo. Há aqui muita matéria, há muita coisa hoje para falar. Não foi fácil. Há muitos cartões, há muitos lances, há uma expulsão. Vamos então começar. Aos 10 minutos, falta um amarelo para o Ureña?

Sim, na minha opinião, sim. Eu percebo que o árbitro muitas vezes, ou os árbitros, sobretudo em jogos desta natureza, procurem retardar ao máximo muitas vezes as mostragens dos respectivos cartões amarelos, porque se mostra, tem que manter tal critério até o fim. Também compreendo aqueles que são puristas da lei, que dizem que o cartão amarelo tem que ser mostrado no primeiro minuto e no último, e é neste intermédio entre aquilo que é um bocadinho do bom senso e obviamente aquilo que é a lei, que se procura muitas vezes que os árbitros consigam ser assertivos. É um facto que o Ureña chega primeiro à bola e acaba por pontearpear a bola. Pequenina teoria que é o galeno que coloca o pé debaixo do pé que vai ser apoiado no chão. De qualquer maneira, o Ureña é, no meu ponto de vista, um bocadinho imprudente, e imprudente significa que não há cartão amarelo na maneira como aborda o lance, mas depois, é mais do que isso. Acaba por pisar claramente com sola ou peito do pé e, portanto, na minha perspectiva, mais que imprudência, é negligência. O tal não tem em conta o perigo e as consequências do ato para o adversário. Portanto, para mim, seria motivo para cartão amarelo, até depois de acordo com algum critério que o árbitro acabou por, mais à frente, ter em relação, e aí bem, à maior parte dos cartões.

Muito bem, lance mais polêmico ou não, se calhar não. Minuto 19. Vem o livre direto e o vermelho para o Fábio Cardoso.

Sim, vamos analisar aqui dois aspectos. Primeiro lugar, se há ou não há falta. E para mim, sim, é a situação típica do Fábio Cardoso, que ao esticar a perna esquerda, e bem, corta a bola, faz um género de salto com "take", mas depois, e já em deslize, levanta claramente a perna direita. Não é por ação do deslize o contacto, é levanta claramente a perna direita e ao levantar acaba por, eu não gosto muito dessa expressão, mas é a expressão melhor, se percebe, varrer autenticamente ambas as pernas do Neris, ou seja, acaba por derrubar, rasteirar o jogador do Benfica. E portanto, ponto número um, há falta para livre direto. E depois, quando se vai analisar a questão do cartão ser vermelho, é por uma coisa chamada a lei 12, das faltas e incorreções, a página 112, que fala de uma coisa chamada clara oportunidade de golo. E para ser a clara oportunidade de golo, aquilo que as pessoas dizem vulgarmente, ele vai isolado. Ser clara oportunidade de golo significa que tem que haver quatro fatores e que todos os quatro fatores têm que estar presentes para que seja, neste caso concreto, cartão vermelho. O jogador que sofre a falta, neste caso, o Neris, ter a bola controlada, ou seja, mais concretamente, a possibilidade de manter ou controlar a bola, e o Neris leva a bola com ele. Depois, se vai na direção da jogada, portanto, se vai na direção da baliza, e ali ia, a distância entre o local da infração e a própria baliza, e se repararem, cada faixa de terreno são seis metros, aquela verde escura, verde clara. No momento da falta, há duas faixas de terreno da entrada da área, quer dizer, cada faixa são seis metros. Está a 12 metros da entrada da área e, portanto, já está numa distância relativamente curta. Mas depois o fator mais importante, que no meio disto tudo é a posição e o número de outros jogadores, neste caso, do Fogo do Porto, que pudessem intervir em tempo útil. E aqui não vamos analisar quem é que é mais rápido ou menos rápido. Paramos o momento da infração e vamos perceber que há um jogador do Porto que vem atrás, que não tem qualquer hipótese de intervenção, e há um jogador descaído pela zona central, não tenho a certeza de quem é, não sei se é o Varela, mas não interessa. Há um jogador do Fogo do Porto na zona central que está uma faixa de terreno atrás. Isto é mais uma faixa, está seis metros, em termos de distância atrás, e descaído para o lado direito conforme o ataque Neris. Ou seja, o facto de estar mais seis metros atrás, na distância que falta percorrer, sobretudo para a entrada da área, em tempo útil, já não consegue intervir. E portanto, para os árbitros, não se vai lá estar a medir se é mais rápido ou menos rápido. É parar a imagem, perceber que há um jogador que está, neste caso, bem atrás da linha da bola, cerca de seis metros, e que a distância que tem não tem possibilidade de intervir. E portanto, com a distância curta, com a direção da jogada, em direção à baliza, com o jogador, neste caso, Neris, com a bola controlada ou apesar de controlar, e com a impossibilidade de outro jogador qualquer, em tempo útil, à distância que falta percorrer, intervir, estão reunidos os quatro fatores. E eu explico isto assim de forma mais elaborada para depois daqui a uns lances, quando vamos já discutir outro, que também é importante, percebermos por que é que neste caso concreto que estamos a discutir, é cartão vermelho. É que os quatro fatores estavam lá.

Muito bem. Olhe, minuto 29, vamos a ele. É um lance do Trubin, faz uma chamada mancha e não faz penalti sobre o Taremi.

Para mim, não. O Taremi, ao projetar a bola com a perna direita, já dentro da área, o Trubin com a sua mão e luva esquerda, toca claramente na bola. E vão os jogadores em movimentos opostos. Ou seja, é o próprio Taremi que acaba por se projetar e com a sua perna esquerda ir ao encontro da mão direita do guarda-redes Trubin, que saiu-se em mancha, ou seja, mão esquerda e luva para a bola e a mão direita ligeiramente levantada acima da cabeça, mas ao nível do chão. E se repararmos, é o próprio Taremi, que com a sua perna esquerda vai ao contacto, porque vai numa direção oposta, para cima dessa mão, desse braço direito, que é totalmente diferente de um guarda-redes que muitas vezes sai e varre o seu adversário, não obstante tocar na bola. Não foi o caso e, portanto, são movimentos opostos. Toca claramente e única e exclusivamente na bola e o contacto é tão promovido pelo Taremi como o Trubin nesse contacto que existe. E, portanto, para mim, sem motivo para pontapé de penalti.

Minuto 34, ainda na primeira parte, vem o amarelo ao David Carmo. Mal, parece-me, na tua opinião, obviamente. O Artur Soares Dias e o Paulo Soares que estiveram no VAR, que chamaram o árbitro e depois a decisão é bem dada? É mal decidida ou é bem decidida?

Exatamente.

Porque é um dois em um aqui.

A redecidir a decisão. Exatamente. A decisão do árbitro. Vamos voltar outra vez ao mesmo esquema. Primeiro, há falta, sim ou não? Há. David Carmo em relação ao Rafa. O momento de contacto da falta é o joelho esquerdo do David Carmo a entrar pela coxa direita do Rafa. É esse o momento de contacto e há falta. Ponto, paramos. Vamos ver agora, porque era isso que estava em análise, foi isso que para o Artur Soares Dias foi diferente daquilo que o João Pinheiro viu. O Rafa tem a bola controlada e precisava de dominar e controlar a bola, portanto, no fundo, está de posse de bola. A distância é relativamente curta, é parecido, mas é do outro corredor. A direção da jogada é em direção da baliza. E agora vamos ver onde é que está colocado o jogador que pode intervir. Chama-se Zé Pedro, está na zona central, à semelhança do outro que falámos. Só que agora, quando paramos o momento da falta, e isto é que interessa para as pessoas perceberem, não é em termos de terreno de jogo, é em termos de análise técnica do lance. Quando paramos a imagem no momento da falta, onde é que está o Zé Pedro? Está exatamente no enfunilamento da bola. Ou seja, ao contrário do outro lance anterior, que estava a uma faixa de terreno e seis metros atrás, e nós dissemos que para aquilo que falta percorrer não tem possibilidade de lá chegar, quando tens o jogador ao lado, na direção da bola, tu dizes que a distância que falta percorrer até à entrada da área, pelo menos, é suficiente para que esse jogador possa intervir. E também, uma vez mais, não vamos aqui discutir quem é mais rápido. Mais, o jogador, neste caso, o Zé Pedro, está por dentro, está na zona central e quem vai pelo corredor por fora é o Rafa. Se nós invertêssemos isso, se pêssemos o Rafa ao meio a sofrer a falta e o Zé Pedro por dentro, já dizíamos que era cartão vermelho. Para as pessoas perceberem a questão que tem a importância que tem, que é o espaço que falta percorrer e onde é que está a possibilidade de alguém poder intervir nessa distância. Neste caso concreto, bem o cartão amarelo. O Artur Soares Dias tem um entendimento diferente, chama o árbitro porque acha que é cartão vermelho, porque acha que é uma clara pena de gol. Obviamente, discordo completamente e acho que foi uma intervenção que não devia ter sido feita, porque é claro e óbvio que é cartão amarelo, mas no limite poderíamos estar aqui a discutir aquilo que podia ser uma dúvida e, portanto, não sendo claro e óbvio, é um lance de nunca intervenção do VAR.

Explicado, e tem a ver com a dinâmica do próprio lance em si. Minuto 35, amarelo para o Taremi por falar de forma que não é aceitável com o árbitro, protestos.

Pois, eu aqui não vou falar muito, é só dizer que é no momento em que o árbitro vai ao monitor, que é chamado por Artur Soares Dias, que se dá a passagem para o Taremi e a tal conversa/discussão, protesto, o que quer que seja, que levou o árbitro a mostrar cartão amarelo, vou sempre aceitar como boa, só ler depois o relatório. Mas resumindo e concluindo, deve ter sido por, obviamente, não concordar com alguma coisa.

Muito bem, segunda parte, minuto 59, bem o amarelo ao João Neves.

Sim, é um lance em que ele vai atrás do Wendel e depois acaba até o Coco Chupo chocar de frente com o Wendel e percebemos que no ato de corrida, de forma inevitável, isto é, sem querer, mas com falta e com negligência na forma como aborda, o João Neves na corrida acaba por acertar com o seu pé direito, a biqueira do pé direito, no calcanhar do Wendel e, portanto, ainda por cima no calcanhar, que é sempre uma zona de maior perigo em relação àquilo que é a infração sobre o adversário. Portanto, é negligente na forma como se aproxima do seu adversário, isto é, não tem em conta o perigo e as consequências do seu ato para com o adversário, é esta a definição, e por isso livre direto e cartão amarelo bem mostrado ao João Neves.

Onze minutos, aliás, nove minutos após o lance aos 59, aos 68, bem amarelo também para Angel Di María.

Sim, é uma entrada em que ele acaba por acertar na bola e também no seu adversário e com a sola da bota. E portanto, é a situação típica dentro daquele enquadramento que é os pisões de sola, à semelhança do que aconteceu com o tal lance que referi aqui do minuto 10, embora o lance seja diferente. E portanto, no meu ponto de vista, este cartão amarelo foi bem mostrado. Aliás, não tenho dúvidas, isto é, maneira de falar, que aquele minuto 10 tenha corrido agora ao minuto 70 ou 61, o árbitro iria mostrar amarelo.

Entrada já no último quarto de hora, minuto 77, mal o amarelo ao Wendel?

Eu vou dizer que o Wendel, obviamente, projeta o braço esquerdo para trás e impede que o Di María, de alguma maneira, se aproxime e possa ganhar aquela bola. Nessa perspectiva, podemos dizer que ele impediu o movimento do adversário. Certo, mas é que o Di María agarra-se à cara, como tendo sido atingido na cara. E o árbitro mostra o amarelo, porque naquilo que ele pensa que viu, porque foi induzido em erro pelo Di María, é a tal situação de utilização da mão em que acaba por acertar na zona de proteção, que é a cabeça, a cara e o pescoço, que são zonas de proteção e que a FIFA e a International Board querem que sejam sempre de proteção e estes comportamentos, sobretudo quando se utiliza os braços, cotovelos e as mãos. Portanto, o árbitro acaba por ser enganado por aquilo que é o Di María agarrado à cara. Quando vemos a repetição, percebemos que a mão bate ali na zona do ombro e resvala ligeiramente para o pescoço. E portanto, no meu ponto de vista, o árbitro foi induzido em erro e para mim o livre direto por impedir a progressão do Di María era suficiente, o cartão amarelo para mim foi exagerado.

Depois, a última questão disciplinar, bem o amarelo ao minuto 82 ao José Pedro, central do Porto.

Sim, para mim bem. É um lance no limite, em que o José Pedro acaba por ter alguma sorte, porque a maneira como aborda o lance, se tem outro impacto, isto é, outro contacto, se a zona de contacto fosse diferente, poderíamos estar aqui a falar de vermelho, é sobre o João Neves. Ele acaba por acertar com a parte de trás do pé, mas com a sola, digamos que com a zona do calcanhar, no peito do pé do João Neves, que tinha o pé assente no chão. E esta é toda a diferença. Quando um jogador muitas vezes é pisado, o fato de teres o pé assente no chão e ser muitas vezes na zona do peito, é totalmente diferente de ser num calcanhar, que é uma zona muito mais perigosa sob o ponto de vista de poder pôr em risco a segurança do adversário. Ou muitas vezes quando acertam de sola, por exemplo, a meio da perna, que muitas vezes até dobra. E isto faz toda a diferença. Ou seja, esta zona de impacto, o momento do contacto e o que é que contacto em quê, faz toda a diferença. E por isso é que sendo no limite, no sentido de que mais um bocadinho e poderíamos estar a falar de outra cor do cartão, para mim é claramente que é apenas cartão amarelo pela tal negligência e não mais do que isso.

Muito bem, Pedro. Olha, para fechar, continua a tua cruzada. Já te chamo a cruzada.

Exato.

O árbitro deu seis minutos e na tua opinião eram oito.

Pois, a questão é esta: se a UEFA e a FIFA, a International Board, lançaram aqui algumas baias de 45 segundos por cada paragem Para substituições, do tal minuto para comemoração do gol, de contar efetivamente o tempo, muitas vezes das assistências, pelo menos dar um minuto pela assistência e contar esse minuto, as contas são fáceis de fazer. Tivemos quatro paragens, até o árbitro levantar a placa, para substituições, 45 segundos vezes quatro, temos três minutos. Depois tivemos quatro cartões amarelos, porque a parte disciplinar e o tempo que se perde na parte disciplinar também é para contabilizar, em que eu contabilizei dois minutos de tempo perdido nessas, marcar a falta, mostrar os amarelos. Depois tivemos um gol, um minuto para comemoração. Eu na altura até pensava que era mais, depois fui rever, tivemos duas assistências a jogadores dentro de campo. Três minutos de substituições, dois pelos amarelos, cinco, mais um do gol, seis, e pelo menos dois minutos, um minuto para cada assistência, oito. Para mim seria oito minutos o tempo mais correto, mas isso é só um pormenor, mas já que estamos a analisar tudo e tem havido aqui muitas discussões também em torno de gols marcados fora do tempo, etc. Por isso eu trouxe também aqui à colação esta questão.

Então, para fechar. João Pinheiro, Braga, advogado. Arbitragem positiva, negativa, que nota dá ao árbitro, ao João Pinheiro?

Sim, claramente positiva. Eu estava quase tentado a dar um oito, dado o grau de dificuldade, mas vou dar sete, porque eu tenho aqui dois cartões amarelos com os quais não concordo e também não concordo com a parte do tempo. São pormenores, são coisas menores. O jogo foi do grau de dificuldade elevadíssimo, ou não fosse um Sporting de Lisboa-Benfica, Futebol Clube do Porto. E o árbitro esteve bem na maneira como conduziu, como geriu. Percebo inclusivamente, por exemplo, a não mostragem do cartão amarelo à luz do minuto 10, à luz exatamente dessa estratégia, desse bom senso. E portanto, eu diria que no essencial esteve bem. Não tem impacto naquilo que é o desfecho do jogo e o resultado, porque ele, nas decisões mais importantes, nomeadamente aquela que se calhar é a mais importante do jogo, que é a questão do cartão vermelho e do não penalti do Turim, esteve muito bem. E por isso vou dar uma nota positiva, vou dar sete, até porque depois tivemos aqui o VAR, e eu também gosto muitas vezes de colocar o VAR aqui ao barulho, que não esteve bem na sua intervenção, que iria induzir em erro o árbitro. E por isso vou dar uma nota sete por isto tudo, mas o essencial é que a arbitragem foi de qualidade e o resultado deste jogo não tem nada a ver com erros graves que pudessem ter acontecido, porque não aconteceram, as decisões foram boas.

Nota sete para João Pinheiro, nota entregue pelo Pedro Henriques neste "Sem Falta", também sempre disponível para ouvir em podcast da Rádio Observador. Até logo, Pedro, obrigado.

Até logo, obrigado.