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Verde, vermelho e amarelo. As cores à disposição da Judite França e da Raquel Abecasis para, com um olhar crítico, analisarem e avaliarem alguns dos temas e protagonistas por estes dias. E hoje, Vanessa, vamos começar pela Raquel.

Vai ser um semáforo político sobre o país real que temos. Queres olhar, Raquel, para dois estudos conhecidos hoje, que são o retrato de Portugal, deste país que temos. A Federação Académica do Porto apurou que a maioria dos estudantes universitários quer emigrar. Dados conhecidos hoje que dão conta também, este é um outro estudo, que em 2024 as prestações sociais bateram recordes em Portugal. Vais começar por qual?

Vou começar pelo teu princípio, que é o estudo conhecido hoje da Federação Académica do Porto. E vou ligar os dois estudos, e ligo os dois estudos porque estes dois estudos provam que aquele debate político a que temos assistido nos últimos anos, não é agora, é nos últimos quatro, cinco, seis, sete anos, oito anos talvez, de que a economia está melhor, de que estamos na média europeia, de que está tudo uma maravilha no país e que é o discurso da oposição dizer que as coisas estão mal. E aqui estou-me a referir a anos em que estava o PS no governo e agora já temos, ainda não chegou a um ano, de AD no governo, mas os últimos dados conhecidos, e é curioso que estes estudos surjam numa altura em que os dados da economia dizem que Portugal é um país que apresenta o maior crescimento económico da União Europeia, com crescimento do PIB de 1,9% no ano passado, mais de um ponto acima do resto dos países da União Europeia. Contudo, isto, visto à lupa, não significa que o país esteja melhor. E é aí que faz sentido comparar os países uns com os outros. Neste estudo da Federação Académica do Porto, diz-se que 73%, isto foi um estudo em que o universo são os estudantes universitários do Porto, e o estudo conclui que 73% dos estudantes universitários atuais pensam emigrar. Os que entraram na universidade no ano passado. Portanto, estarão neste momento no segundo ano da universidade. 73% pensam emigrar, 25% já decidiram que vão emigrar, portanto, já não há recuo. E para onde é que eles querem emigrar? Para o Reino Unido, que se calhar nos grandes números económicos está abaixo de Portugal, para a Suíça, essa creio que esteja ainda acima de Portugal, para os Países Baixos, para a Alemanha, que está em crise, e para o Luxemburgo. Ou seja, eles não querem ir para aqueles países, para os Estados Unidos da América, onde vão fazer uma experiência tecnológica ou até de formação, ou de um outro mundo e de uma outra economia, para depois ou ficarem por lá ou eventualmente regressarem. Não, eles querem ir aqui para o lado, para os sítios onde eles sabem que podem ganhar bons ordenados. E aliás, invocam essa razão para quererem sair do país. Nós já temos, note-se, eu ia procurar os números, mas não consegui. Nós já temos um problema demográfico, é o maior problema que o país tem. Nós não temos uma geração mais nova que compense a geração mais velha. E, portanto, se os poucos que nós temos, ainda por cima, se vão embora, se este não é encarado como o maior problema do país e aquele para o qual urgentemente se tem que encontrar uma solução, isto pode acabar muito mal. E aqui entra o outro estudo. E o outro estudo diz o quê? Diz que 2024 bateu o recorde das prestações sociais. Há mais de 500 mil pessoas em Portugal a receber uma ou mais prestações sociais. E por que é que bateu o recorde? Por causa do complemento social solidário para idosos, que atinge neste momento 208 mil pessoas. E, portanto, estes dois estudos, postos um ao lado do outro, demonstram que nós temos um problema com as pensões e com uma geração mais idosa que tem pensões mais baixas e, portanto, precisa deste complemento solidário para idosos. E isso é uma coisa que com o passar do tempo se irá atenuar. Mas mostram o quê? Mostram que houve seguramente muito mais gente a chegar à idade da reforma e a precisar deste complemento solidário para idosos e que muito mais do que metade dos nossos estudantes universitários ou já decidiram que vão sair do país ou vão seguramente sair do país depois de terem sido formados aqui em Portugal.

Isso é uma coisa que os países para onde eles vão agradecem muito.

Exatamente, isto é o retrato de um país sem futuro. E é para isto que se tem que olhar com urgência, porque de resto, nós não comemos o PIB à hora do jantar. Nós comemos aquilo que produzimos, aquilo que somos capazes de criar, a forma como somos capazes de criar um país novo. Não nos adianta nada dizer que temos uns números da grande economia que estão impecáveis ao nível da União Europeia, quando a maior parte dos nossos estudantes universitários quer ir para um país que está em recessão, que é a Alemanha. Mas enfim, qualquer um de nós preferia viver na recessão da Alemanha do que no crescimento económico português. Esta é a grande diferença e estes estudos provam bem isto. E, portanto, eu dou um sinal amarelo aos nossos políticos com a esperança de que olhem para estes estudos seriamente e que possam finalmente tomar medidas, olhar para isto e tentar encontrar políticas que possam resolver este problema, que é um problema que está aqui, não é um problema de futuro, é um problema que já está aqui na esquina.

Judite França, queres acrescentar alguma nota?

Há pouco a Raquel estava a falar dos países para onde vão emigrar estes jovens. Estes jovens vão emigrar para esses países com uma formação excepcional feita em Portugal, porque a nossa formação académica é muito boa, e vão emigrar ficando de borla aos países para onde vão. Mas nós pagamos a sua educação.

E ainda hoje o Ministro da Educação anunciou mais vagas em cursos de medicina e na área da educação, por acaso. Mas depois perdemos esses jovens e provavelmente podem emigrar depois.

É verdade, era outra dado que eu tinha apontado aqui. O estudo diz que a verificar-se esta saída de jovens significa uma perda de 2000 milhões de euros anuais para o país.

Significativo e simbólico.

É fazer as contas.

Judite França, numa semana marcada pela acusação do processo Tutti Frutti, em tom de balanço, pretendes olhar para as consequências ou falta delas, de quem decidiu não deixar os cargos?

Porque o PSD decidiu dar a indicação de que não quer acusados nas listas para as eleições autárquicas. Serão as concelhias e as distritais, no entanto, a validar os outros órgãos locais, nomeadamente as juntas de freguesia. E estamos a falar em órgãos onde estão envolvidos alguns daqueles que estão agora acusados no processo Tutti Frutti. Portanto, os acusados não entram nas escolhas das câmaras e das assembleias municipais, porque isso a sede nacional não deixa, mas nas juntas de freguesia já não é assim. Sendo que há mais de 3000 freguesias, portanto, percebo que não deve ser fácil fazer esse rateio nas 3090 freguesias, acho eu. O problema é que essas pessoas, e nomeadamente no PSD Lisboa isso vê-se, essas pessoas que estão, por exemplo, na Junta de Freguesia da Estrela, é a mesma pessoa que é presidente da concelhia do PSD Lisboa.

Luís Newton.

Luís Newton. Ou então temos, por exemplo, no caso de Ângelo Correia, que deixou o lugar de vereador.

Não é Ângelo Correia, é Ângelo Pereira. Ia só interromper para dizer que o Luís Newton está em fim de mandato.

Está em fim de mandato na junta de freguesia, mas nada o impede de ser candidato, caso a concelhia decida.

A uma outra junta de freguesia.

Ou outra junta de freguesia, pode até não ser candidato a presidente, mas pode estar na lista. Se for o próprio a decidir, e se forem aqueles que estão na sua lista, a concelhia a decidir, torna-se mais fácil que ele entre noutra lista qualquer. Isto estava a dizer no caso de Ângelo Pereira, que é líder da distrital. Portanto, percebemos mais ou menos que quando a sede nacional diz estas pessoas ou pessoas que são acusadas, acusadas em qualquer processo, não tem que ser no Tutti Frutti, não vão ser candidatos autárquicos às câmaras e assembleias municipais, é uma coisa. Mas depois há muitos outros órgãos locais, a junta de freguesia, a assembleia de freguesia, aí a sede nacional já não mete a mão.

Sendo que seria estranho que essas estruturas locais subvertessem aquilo que é o princípio geral definido pela direção do partido.

Não, porque, por exemplo, aqueles que estão agora na Junta de Freguesia da Estrela, que é o caso de Luís Newton, não se demite desse cargo e demite-se do cargo de deputado, onde, que se saiba, não cometeu nenhuma ilegalidade. Portanto, da mesma forma, ouvimos o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, numa entrevista à SIC Notícias, dizer que resolvia o problema muito rapidamente no grupo parlamentar. Então e o resto? É que Hugo Soares é também secretário-geral do PSD. Portanto, estamos a falar de pessoas que não vão deixar e nem deixam os seus cargos. E nós aliás ouvimos aqui Carlos Reis, não Carlos Eduardo Reis, Carlos Reis, que é deputado municipal, que dizia: "Estas pessoas foram eleitas já se sabendo do processo. Foram eleitas em 2021, já se sabia do processo que estava a decorrer."

Sendo que nessa altura eram recuídas, não eram acusadas.

Não eram acusadas, obviamente. Há uma grande diferença.

Como se a acusação não viesse mudar nada.

Claro, há uma grande diferença nisto. E portanto, eu percebo que seja muito difícil fazer vetting a 3000 freguesias, mas acho que garantidamente em Lisboa, não são assim tantas, podia fazer-se. E nós sabemos que o PSD Lisboa é um problema. Não quer dizer que não haja problemas noutras autarquias e noutros órgãos do partido espalhados por este país inteiro, é evidente. Agora, estamos a falar de autarcas e deputados municipais e deputados à Nação também, mas não foi nesse caso que elas foram apanhadas nas escutas, por exemplo, que andaram a distribuir empregos e cargos aos amigos e adjudicações a empresas e a pessoas que depois pagariam esses favores, etc. Não é muito saudável que continuem em cargos em que possam decidir quem são as pessoas nessas listas da junta de freguesia, onde se faziam adjudicações de várias centenas de milhares de euros para espaços de jardim, assessoria de comunicação, etc. E portanto, acho que se não se pode confiar nas pessoas para as pessoas se demitirem e suspenderem os seus cargos, então tem que ser a sede nacional a tomar uma atitude em relação a isso. A mim parece-me mais ou menos evidente. Se o PSD quer de facto ir para as eleições autárquicas sem ter aqui um lastro atrás, que já não será fácil, tendo em conta que a acusação da Operação Tutti Frutti, apesar de também incidir sobre o Partido Socialista, incide sobretudo sobre o PSD.

Portanto, não acreditas, à luz daquilo que aconteceu depois da acusação, que os visados não tomem eles próprios a iniciativa de não avançarem com a candidatura nas próximas eleições autárquicas?

Aquilo que eu acredito é que até este momento não tomaram a decisão de sair. E é isso que eu posso concluir. Não posso concluir mais do que isso, mas isso eu posso concluir.

E que sinal, Judite?

Eu dou um vermelho ao facto destas pessoas já não terem abdicado dos seus cargos.

Tudo corrido, vermelho hoje.

Tudo corrido, vermelho hoje. Sexta-feira, é porque está a chover.

Semáforo Político às coisas atribuídas pela Judite França e pela Raquel Bocas. Semáforo Político está de regresso na próxima segunda-feira.