Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Vermelho, verde, amarelo, às vezes qualquer outra cor que os de França e Raquel Bocasis queiram trazer a este semáforo político, a começar por mais uma polêmica no Bloco de Esquerda.
Mais de 70 militantes anunciaram que vão deixar o partido, entre eles está o coordenador da distrital de Portalegre e membros dessa estrutura. É caso para perguntar, Raquel, o que se passa com o Bloco?
É mesmo caso para isso, porque o Bloco nos últimos anos, sobretudo a partir do primeiro governo da Geringonça e do primeiro grande embate eleitoral, que teve uma grande quebra de votação, mas depois acelerando com a transição de Catarina Martins na liderança do partido para Mariana Mortágua, tem vindo a estar no centro de permanentes polémicas. Nós tínhamos aqui há bocado um deputado do Chega, e eu lembro-me de quando o Bloco de Esquerda era o Chega da cena política nacional, no sentido em que era um partido novo, um partido que tinha crescido muito rápido, um partido que tinha um discurso de grande aceitação em vários setores da sociedade portuguesa, que conquistava os jovens universitários, que mostrava um grande dinamismo. Isso não aconteceu assim há tanto tempo, e agora vemos o Bloco de Esquerda em desgaste permanente. E eu estou a fazer esta comparação porque me parece que há semelhanças entre a forma como estas formações políticas aparecem, têm um sucesso muito rápido, mas depois como não se consolidam no tempo. E eu acho que é isso que está a acontecer ao Bloco de Esquerda, muito porque um certo cimento que colava aquelas forças políticas que formaram o Bloco de Esquerda, no fundo, não estava tão bem cimentado assim. Estava, sobretudo, alavancado num líder, que foi o seu primeiro líder, Francisco Louçã. E é justo falarmos também de Miguel Portas, de Luís Fazenda e de Fernando Rosas. Eram quatro homens que vinham de formações políticas diferentes, todas de extrema-esquerda, e que conseguiram ultrapassar um problema que os partidos de extrema-esquerda sempre tiveram, que é o facto de viverem em permanente convulsão e discussão interna. Mas isso foi sol de pouca dura. E depois o partido foi crescendo à semelhança de outros partidos, e foi se aburguesando. Ou seja, aquele partido que baseava todo o seu discurso na antítese com os outros partidos, dizendo que não era igual, que funcionavam de forma diferente, que tinham outro tipo de democracia interna, que tinham outro tipo de valores, que combatiam a corrupção. Em muitos aspectos, há pontos em comum entre aquilo que é hoje em dia o discurso do Chega e aquilo que foi o discurso de Francisco Louçã, sobretudo, por exemplo, quando José Sócrates era primeiro-ministro, e nós ouvíamos Francisco Louçã também naquele tom muito exaltado, a acusar o primeiro-ministro de tudo, vir permanentemente nos debates, acho que na altura eram mensais, com casos concretos para tentar envolver várias figuras da política nacional na altura e das pessoas que ocupavam cargos de poder político na altura. E de repente isso foi se esboroando e o Bloco de Esquerda, nos últimos anos, transformou-se num partido em que há uma elite, que está sobretudo na comunicação social e no Parlamento. É uma elite muito restrita, são quatro ou cinco pessoas que todos nós conhecemos, e o resto do partido desapareceu. E o que vemos é que quando raramente se reúne a Mesa Nacional, que é no fundo o equivalente ao Conselho Nacional do Bloco de Esquerda, ou há convenções, aparecem críticos, aparecem as críticas, sempre com muito menos palco do que noutros partidos, como o Partido Socialista ou PSD, enfim, quase todos os outros partidos, à exceção do Partido Comunista, que também tem ali algumas limitações. Mas praticamente são silenciados os opositores, e a verdade é que neste momento os opositores preferem sair do partido.
E com estas saídas em massa numa distrital pode haver por aqui um alto número de prazos autárquicos.
Nesta saída na distrital de Portalegre, 73 militantes, parece-me que o partido fecha em Portalegre. E há como que uma fuga para frente da direção do partido, que prefere ignorar este mal-estar interno a tentar recompor os cacos. E, portanto, eu acho que isto merece uma reflexão, também para quem nos ouve, para aquilo que são modas, mas que muitas vezes são modas passageiras, porque se baseiam num discurso populista que depois não tem adesão à realidade e que depois não consegue construir internamente. E neste momento, o Bloco de Esquerda é um partido em alto desgaste, sobretudo alavancado naquelas quatro ou cinco figuras e neste momento em Mariana Mortágua. O Chega ainda está noutra fase, mas também é um partido alavancado numa pessoa só, por mais que queiram dizer o contrário, e isso normalmente dá mau resultado. E portanto, eu dou um sinal verde a estes militantes de Portalegre, para não estar sempre a dar sinais encarnados, que estão a dar um sinal ao Bloco de Esquerda, que se não quer desaparecer rapidamente, tem que fazer alguma coisa diferente.
Judite, tu trazes aqui ao semáforo uma notícia de hoje do jornal Público: o Parlamento não tem um código de conduta nem canal de denúncias de corrupção, como era suposto ter. Isto numa altura em que este é um tema, o tema da corrupção, que preocupa. É caso para dizer que o Parlamento não está a dar o exemplo.
Não, e atenção que esta questão do canal de denúncias está incluída, aliás, num Como dizer isto, numa directiva europeia sobre a proteção de denunciantes, que é a Whistleblowing Directive, isto serve para muito mais do que isto. Serve para denúncias de corrupção e de fraude, mas também serve para denúncia de proteção de dados e privacidade, contratação pública, assédio no trabalho e discriminação, violação de regras fiscais, proteção social. Pode até servir para um trabalhador denunciar o roubo de um colega ou uma má prática utilizada na empresa para com o ambiente, para com a proteção alimentar. Isto são denúncias relacionadas com ilegalidades ou infrações graves e a lei não exige que as empresas aceitem as denúncias anônimas, mas obriga-as a proteger a identidade do denunciante, o que fará grande diferença quando, por exemplo, um trabalhador quiser fazer queixa do seu próprio superior hierárquico. O facto de uma organização não ter este canal de denúncias pode ser multado até € 125 mil. É muito dinheiro e eu não sei se o Parlamento vai aplicar a regra e vai, neste momento, desembolsar € 125 mil, porque ainda não implementou o canal de denúncias interno, nem estabeleceu um código de conduta para os funcionários e colaboradores, que é exigido por lei. A assembleia diz que está a ultimar estes mecanismos anti-corrupção.
Pode estar para breve.
Pois, mas não há data definida para entrar em vigor e é bastante estranho que se exija às empresas aquilo que o próprio legislador não faz. Eu sou uma grande fã do canal de denúncias já há bastante tempo, porque esta directiva é de 2022, a lei é 2021, aliás, não 2022, portanto as empresas tiveram muito tempo para se adaptar a esta questão. E estamos a falar de PMEs, as PMEs também têm que ter. Deixa-me só fazer aqui uma referência ao Bloco de Esquerda, porque sei que o nosso tempo corre rápido. Eu acho que o Bloco de Esquerda cometeu aquele erro, que foi a geringonça, que na altura parecia que o grande erro tinha sido da direita ter sido apanhada pela geringonça. Hoje vê-se que o grande erro foi o de partidos como o Bloco de Esquerda e o PCP, que sofreram muito por terem formado, por terem entrado numa geringonça. Há uma perda de relevância, há um fracasso eleitoral que levou à diminuição do grupo parlamentar, há também uma fragmentação à esquerda e depois também há a mudança de lideranças, divergências internas, etc. A questão é que eu acho que o Bloco se esqueceu de que os temas fraturantes são muito bonitos, mas as questões universais que os outros partidos têm falado, nomeadamente o LIVRE, que está à perna. E acho sinceramente que o LIVRE tentou uma comunicação mais positiva, menos confrontacional. E o Rui Tavares tem um espaço no debate político onde o Bloco antes dominava, nomeadamente nas questões de ecologia e de europeísmo, que interessam a esta geração, as gerações mais novas. E eu acho que, neste caso, o Bloco de Esquerda, para recuperar o seu espaço outra vez, tem que ainda fazer um grande caminho. Veremos se não é um caminho demasiado tarde, porque os partidos das pontas por vezes tornam-se irrelevantes.
O problema é que nos partidos o caminho faz-se com todos e com debate político interno, e é isso que deixou de haver no Bloco de Esquerda.
Pois, no Bloco de Esquerda não há, mas no PC também não e resulta, não é?
Resulta.
Quer dizer, resulta há décadas e décadas. A questão é que nenhum destes partidos lida muito bem com a oposição interna.
Pois, mas isso mata, porque os partidos vivem de divergências internas também.
De acordo.
E eliminá-las acaba sempre por ser fatal.
De acordo. Deixa-me só voltar outra vez ao canal de denúncias.
Para dar o sinal.
Exatamente, para dar o sinal e para dizer que eu acho que no caso do Parlamento, aquilo que se tem visto é que em casa de Ferreira...
Em casa de ferreiro, espeto de pau.
Isso. Em casa de Ferreira, não. Em casa de ferreiro. Porque, de facto, o Parlamento tem que dar o exemplo. A verdade é que o Parlamento, o Hemiciclo não dá o exemplo, porque comportam-se como os garotos e comportam-se mal. E outro dia estava a ver uma escola ali nas galerias e a pensar: "O que estes miúdos estão a aprender aqui?" Nada. Estão a aprender o que não fazer e o que não ser quando forem grandes. E eu espero que o Parlamento resolva este problema rapidamente. Não é assim tão difícil fazer um canal de denúncias. Se uma PME consegue fazer, o Parlamento também consegue.
E o sinal?
Tu há bocado falaste em sinais.
O que tu quiseres.
Pois, vou dar um roxo.
Pronto.
Porque eu acho que o roxo às vezes é aplicado à Páscoa, e nós só ainda vamos para o Carnaval, mas eu acho que de facto está na altura da democracia política-
Renascer.
Lá está, muito bem. Tiraste-me as palavras da boca.
É isso mesmo. E fica este roxo da Judite no final deste semáforo político que está de regresso amanhã.