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Verde, amarelo, vermelho, as cores tradicionais, mas há sempre margem para outras cores no semáforo político. Hoje com o rescaldo do debate quinzenal com o Primeiro-Ministro no Parlamento e ainda com os ecos da acusação no processo Tutti Frutti.

E por causa desses ecos, para além de contarmos com o Judite de França, como sempre, está também conosco o rato principal do Observador, Luís Rosa. Bem-vindo. Tem seguido este processo e este caso Tutti Frutti. Ontem tivemos a acusação, há pedidos do Ministério Público para que os visados, os acusados, deixem os cargos públicos, os cargos políticos. Já vimos acontecer com algumas das figuras, mas há o caso de Carlos Eduardo Reis, que para já continua como deputado. Hugo Soares hoje disse que está no estrangeiro, mas há dúvidas sobre o que pode acontecer neste processo. Já devia ter anunciado o afastamento do cargo de deputado?

Sim, pelo menos suspenso, mas vamos por partes. Em primeiro lugar, o Ministério Público pede que os mandatos, nomeadamente dos autarcas que são acusados, possam ser alvo de cassação depois de uma condenação. Ou seja, só depois de uma condenação transitada em julgado é que obviamente pode haver aqui uma pena acessória, seja de se cassar o mandato, seja provocando uma renúncia, seja de inelegibilidade também desses autarcas. Portanto, são duas situações diferentes. No que diz respeito ao que estamos aqui a falar sobre uma pressão do PSD, Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, fez declarações hoje no sentido de que Carlos Eduardo Reis deveria seguir os mesmos passos de Luís Newton, ou seja, devia suspender o mandato de deputado do PSD à Assembleia da República. Sobre essa situação, estamos a falar de um compromisso ético, mas estamos a falar de uma lei. O que eu acho? Eu acho que Luís Newton andou bem quando suspendeu os mandatos. Inês Drummond, hoje líder dos vereadores do Partido Socialista na Câmara de Lisboa, acho que também andou bem ao ir mais longe, renunciando ao mandato. Inês Drummond está acusada de quatro crimes de prevaricação na operação Tutti Frutti. E Luís Newton suspendeu o mandato. Carlos Eduardo Reis, não se compreende, até porque é importante ter aqui uma particularidade muito interessante do caso de Eduardo Reis. Carlos Eduardo Reis era dirigente do PSD na altura destes factos, até foi um membro muito importante da direção de Rui Rio, foi um grande apoiante de Rui Rio, e Carlos Eduardo Reis ainda hoje tem uma vida política no PSD, além de ser deputado do PSD, mas ao mesmo tempo, Carlos Eduardo Reis é desde há muitos anos empresário e utilizando os seus conhecimentos privilegiados sobre o aparelho do PSD, resolveu vir fazer negócios para Lisboa, ao mesmo tempo que era dirigente do PSD. Ora, isso logo em primeiro lugar é muito questionável. Em segundo lugar, é acusado pelo Ministério Público de um número, que agora não sei dizer o número certo, mas de um número significativo de crimes de corrupção ativa, ou seja, na operação Tutti Frutti, de acordo com o Ministério Público, Carlos Eduardo Reis é o corruptor ativo dos políticos do PSD. Portanto, é um caso ainda mais grave do que o caso de Luís Newton, na minha opinião, porque Luís Newton é o corruptor passivo, é alguém que aceitou, de acordo com o Ministério Público, uma vez mais, mercadejar o cargo. No caso de Carlos Eduardo Reis, foi Carlos Eduardo Reis que, de acordo com o Ministério Público, terá corrompido, alegadamente, os políticos. Portanto, eu não sei o que Carlos Eduardo Reis está à espera. Sinceramente não sei. E já agora também gostava de ouvir a opinião de Rui Rio no Twitter sobre a acusação que foi dada a Carlos Eduardo Reis, esperando que Rui Rio utilize o mesmo critério que utilizou para se pronunciar sobre a acusação contra Manuel Pinho, por exemplo.

Certo, mas Montenegro devia tomar aqui uma posição também, perante tudo isto, enquanto presidente do PSD?

Luís Montenegro, nesta matéria, hoje no debate quinzenal, fez várias declarações. Por exemplo, eu achei mais relevante, achei tão relevante a questão das suas declarações sobre Ernani Dias, em que finalmente disse que foi uma imprudência do ex-secretário de Estado, mas sobre esta questão de Tutti Frutti, que é um caso que obviamente do ponto de vista da acusação é uma mancha, não vou dizer uma mancha dada, mas é algo que incomoda muito o PSD, porque apesar de terem dirigentes do PSD que não são propriamente de primeira linha, são dirigentes do PSD, portanto, a imagem do PSD fica aqui manchada. E Luís Montenegro fez declarações no sentido de que entende que as pessoas devem medir politicamente até onde a sua legitimidade política pode estar afetada. No que diz respeito ao PSD, eu acho que o PSD, através da bancada parlamentar, já tomou uma posição, ou seja, entende que os deputados devem suspender funções quando são acusados de crime no exercício de funções públicas, são acusados formalmente pelo Ministério Público, estão sob suspeita formal e devem suspender funções. Eu acho que esse critério é um bom critério. Atenção que o PSD, aquando das últimas legislativas, o compromisso ético que impôs aos seus candidatos a deputados não foi este, foi outro mais moderado. Portanto, está a dar um passo em frente. Eu acho que este critério é um bom critério. É um caso que incomoda o PSD, é um caso que atinge a credibilidade do PSD. O primeiro-ministro reagiu hoje no debate quinzenal e Hugo Soares, líder parlamentar, já tinha reagido tentando se antecipar a uma reação da oposição.

Luís, antes de passarmos a Judite, a cor então é para quem no caso de Eduardo Reis?

Para Carlos Eduardo Reis, eu dou um vermelho Bem encarnado para Carlos Eduardo. Eu acho que já devia ter reagido, já devia, no mínimo, ter suspendido funções. No que diz respeito à atuação do PSD, do Luís Montenegro e Duque Soares, dou um verde, porque eu acho que este patamar é um bom patamar, no sentido de que se alguém é acusado formalmente pelo Ministério Público de crimes no exercício de funções públicas, acho que no mínimo deve suspender funções porque está sob suspeita.

Judite, neste debate quinzenal, claro que o caso Tutti Frutti foi tema. André Ventura quis fugir um pouco a falar sobre isso. Pedro Nuno Santos preferiu outros temas, como a saúde e os transportes. Luís Montenegro teve que quebrar o silêncio, como ouvimos aqui também o Luís Rosa falar sobre este caso e sobre outro também, o de Ernâni Dias.

E sobre o caso de Ernâni Dias, ganhou destaque depois do Observador ontem, na madrugada de hoje, aliás, ter dito que o que o ex-secretário de Estado tinha dito na Comissão de Poder Local no Parlamento, portanto, na véspera, ontem, não é exatamente aquilo que a Entidade da Transparência diz. O ex-secretário de Estado garantiu que tinha pedido à Entidade da Transparência autorização para a criação de duas empresas. A Entidade da Transparência veio desmentir Ernâni Dias. Ou seja, Ernâni Dias não contactou o organismo para saber se podia constituir as duas empresas e, já agora, as declarações de interesse e de rendimentos ainda nem sequer estão validadas. Isto é um extra. Havia aqui terreno fértil para André Ventura criticar o primeiro-ministro e não se coibiu de o fazer. A dada altura, a discussão entre os dois extravasou. Eu acho que ainda não tinha visto os dois tão irritados e, sobretudo, acho que André Ventura irritou-se para lá do seu limite de irritação.

Está a perceber que o PSD está a roubar o seu eleitorado, se calhar?

Eu não sei exatamente por quê. Acho que aquilo que André Ventura não gostou foi de ter usado uma frase que se virou contra si, porque a dada altura disse que a porta da rua era serventia da casa para todos aqueles que estivessem sob suspeita. E Luís Montenegro lembrou-lhe que André Ventura é condenado num processo cível, é verdade, mas foi julgado e condenado. E aí houve então um momento de grande exaltação. Também houve um momento coaching muito engraçado, em que o primeiro-ministro pediu a André Ventura para se valorizar a si próprio e valorizar o lugar que ocupa. Mas a partir daí foi sempre a descambar. Descambou de tal forma que André Ventura acabou a repetir exatamente a mesma frase pela qual foi condenado quando ofendeu a honra da família Cotxi. Foi exatamente a mesma frase e, portanto, não sei se não voltará a ter problemas, eventualmente, pode acontecer.

Até porque ele foi condenado a se retratar. Agora está a fazer o contrário.

Está a fazer o contrário, está a reincidir e disse claramente que não se importava nada de dizer outra vez a frase. E disse uma outra frase, que eu nunca ouvi André Ventura dizer. André Ventura já acusou toda a gente de mentir e isso voltou a fazer. Mas dizer que o primeiro-ministro consegue ser o político mais baixo destes últimos anos, disse esta frase ipsis verbis. Eu acho que de fato André Ventura ficou mais irritado. Houve ali uma escala de irritação que ultrapassou Ventura. Há um termômetro que mede Ventura. Ventura ultrapassou-se a si próprio hoje em decibéis de irritação.

E a tua cor de semáforo vai para Ventura?

Vai para André Ventura, sim. André Ventura eu acho que perdeu um bocadinho aquela sua retórica que serve muito bem o seu eleitorado. Acho que foi para lá disso e, portanto, eu acho que merece um vermelho.

E ficamos a saber que foi condenado, apesar de ser numa ação cível, portanto, não sei. Agora vamos ver que quando alguém for condenado-

Por uma ação cível, não há problema nenhum.

Não há problema nenhum. Portanto, está tudo bem.

Não há problema nenhum.

Muito bem. Olhando aqui para esta parte judicial e para toda esta questão, Judite, há pouco estávamos a ouvir o Luís e para aquilo que Carlos Eduardo Reis tem que decidir ou ainda não decidiu. Só perceber se tu também achas que uma decisão de Carlos Eduardo Reis, quando chegar, já chega tarde.

Eu acho que chega tarde, mas também acho que a de Luís Newton, atenção, o Luís Newton suspendeu o seu lugar de deputado na Assembleia da República, mas não suspendeu o seu lugar na Assembleia Municipal, nem na Junta de Freguesia, nem na presidência da Concelhia. E eu não sei se não vale para tudo.

E o mesmo se aplica aos dois presidentes das Juntas de Freguesia do PSD.

Exatamente.

Vasco Morgado e Fernando Brancamp. Presidente da Junta de Freguesia do Areeiro e presidente da Junta de Freguesia de Santo António. Estão a pensar pelos pingos da chuva, porque são tantos os arguidos, que a comunicação social não consegue se concentrar em todos.

É verdade. Mas Luís Newton tem a liderança da Assembleia Municipal de Lisboa, portanto, não é um cargo menor. Aliás, nenhum destes é um cargo menor. Ser presidente de junta também não é um cargo menor.

Já agora, também é o caso de Ângelo Pereira, que se suspendeu de vereador de Carlos Moedas, mas mantém-se como presidente distrital de Lisboa. Estamos em ano de autárquicas, seja ser presidente distrital de Lisboa do PSD, seja ser presidente da Concelhia do PSD em Lisboa, é ter poder político.

É uma gestão feita com pinças.

Sim, mas Luís Montenegro vai ter que despir um bocadinho o fato de primeiro-ministro e pôr ordem na casa, porque ao líder do PSD compete fazer. Não é fazer a pedagogia, aqui já estamos na altura de tirar o chicote e por toda a gente na ordem.

Eu estava a falar ainda há pouco, eu dei o verde a Luís Montenegro.

Independentemente de Luís Montenegro não estar envolvido, nem sequer estava na liderança do PSD em 2017, 2018, mas isso é irrelevante, porque agora é o líder em causa.

Eu ainda há pouco estava a referir, o meu verde tinha a ver com o fato de haver uma pressão do PSD para que Carlos Eduardo Reis, no mínimo, suspenda o mandato. Eu acho que isso é um sinal positivo que se dá. Agora, esta é outra questão do que agora estamos aqui a falar, seja de dirigentes do PSD, seja de presidentes de junta eleitos nas listas do PSD, acho que o Luís Montenegro também tem que ter uma palavra sobre essa matéria.

E aguardaremos, ver vamos se Luís Montenegro fala também sobre isso ou não. Luís Rosa, Judite França, passaram hoje juntos pelo Semáforo Político.