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Última viagem desta semana com passagem garantida pelo semáforo político na Rádio Observador e com a ajuda das nossas polícias sinaleiras. Raquel, não sabes, mas tivemos aqui o Ricardo Conceição esta semana e ele era o polícia sinaleiro, e eu disse que tu eras a polícia sinaleira desta semana.
Polícia é uma condição em que eu espero nunca me encontrar.
Mas melhor do que polícia sinaleira é utilizar a terminologia antiga, que era cabeça de giz. Lembras-te? Cabeça de giz é mais giro.
Portanto, as nossas polícias sinaleiras aqui apresentadas, Raquel Albecas e Judite França.
Sendo que, Raquel, vamos começar por ti. Queres ir ao veto presidencial e à desagregação das 135 união de freguesias? É um dos temas em destaque, mas antes disso, é o tema central da nossa discussão. Já vamos à questão das freguesias. Esta discussão em torno do Chega e a discussão em torno dos insultos é um tema forte da nossa tarde política. O que tiramos de toda esta discussão neste final de semana?
Eu acho que agora sim, a verdadeira face de um partido que cresceu muito rapidamente, com um processo de recrutamento que só pode levantar as maiores dúvidas, e que agora resulta nisto. Não é de agora que o ambiente no Parlamento se deteriorou, e muito. Mas ontem eu diria que aquela deputada, que eu aliás nem me lembro bem do nome, nunca tinha ouvido falar dela.
Diva Ribeiro.
Diva Ribeiro.
Era do PSD, antes de ir pro Chega.
Fugiu-lhe a boca pra verdade. E disse com o microfone aberto aquilo que há muito tempo estes deputados diziam de microfone fechado, com variadíssimas queixas. É justo dizer, também, que se calhar motivados por algumas provocações, os insultos e as provocações não são um exclusivo da bancada do Chega. Agora, o que faz a diferença é que estes deputados do Chega não conhecem limites nem fronteiras. Eu tenho passado o dia a ouvir falar de má criação, de falta de sentido de urbanidade. Mas eu diria ainda mais, eu acho que aqui não é uma questão sequer nem de instrução, de serem deputados que vêm de várias zonas do país. O André Ventura usou muitas vezes a expressão de que as pessoas queixam-se dos deputados do Chega, mas que o Chega representa aquilo que é o país. Ora, o país não é isto que vimos nos últimos dias, ouvir uma deputada dizer a outra deputada, responder ou defender-se de uma pergunta de outra deputada com as características físicas, sendo ainda por cima aquela deputada conhecida por toda a gente por ter um problema físico, que é a cegueira. Usar isso para dar uma resposta a uma deputada adversária, eu acho que não há nenhum português que compreenda. Acho que efetivamente hoje a Alexandra Leitão usou a expressão certa para aquilo que se passou ontem e que se tem passado nos bastidores, que é bullying. E bullying é crime.
Eu nem sei se isto é bullying, se é ofensa. Eu acho que isto é ofensa.
Se eu na escola, ou qualquer um dos nossos filhos na escola, se dirigir a um colega com qualquer problema físico, nos termos em que aquela deputada ontem respondeu à Ana Sofia Antunes, seguramente teria um procedimento disciplinar e poderia ser alvo de acusação de bullying, porque foi exatamente isso que aconteceu. E é exatamente isso que acontece em imensos momentos. E isso não tem a ver com instrução, nem com o uso de algumas expressões populares. Aquilo que em muitos momentos nós vemos nos deputados do Chega é boçalidade, que é uma coisa que não tem nada a ver com instrução, tem a ver com selvageria, com pessoas que acham que não conhecem bem as fronteiras entre aquilo que é um comportamento humano e aquilo que é um comportamento de outro animal qualquer. E é isso que eu acho que se tem passado no Parlamento, que tem provocado, é certo, outro tipo de provocações. O André Ventura, aliás, hoje faz referência a esse episódio, mas isto, de facto, era algo a que nós não assistíamos antes. Aliás, são históricas as relações de amizade de deputados de diferentes bancadas.
Históricas e muitas vezes até são alvos de críticas.
De diferentes bancadas em todos os momentos destes 50 anos de história democrática. E eu acho mesmo que estão a atravessar fronteiras que são muito difíceis de entender. Eu não sei se isto se resolve com novas regras dentro do Parlamento, porque eu acho que a certa altura não é possível definir todas as possibilidades de violação de regras que se possam fazer dentro do Hemiciclo. Agora, eu acho que há procedimentos criminais e acho que de facto o bullying é crime e quem se sente vítima de bullying deve proceder criminalmente. E acho, como dizia o Hugo Soares, e estou com muita curiosidade de perceber nas próximas sondagens, que já apanharão esta coleção de casos que temos vindo a saber, em que estão implicados os deputados do Chega e estes episódios que estiveram à vista de todo o país, até que ponto é que o eleitorado do Chega está ou não está satisfeito com a representação do partido.
Então propomos só, Raquel, que antes de ir às freguesias, como pré-anunciado aqui pelo Miguel Cordeiro, vamos dar aqui boleia à Judite França, porque acho que falar também deste tema do Chega.
Eu também acho que já ultrapassamos a fase da má educação. Não acho que isto seja bullying, eu acho que isto é ofensa e ofensa é crime. Bullying é outra coisa.
Mas bullying é crime também.
Sim, mas isto não é bullying. Bullying é, sei lá. Não, eu acho que isto é ofensa. É ofensa, difamação
Sim, como uma coisa pior do que uma ofensa.
Mas ofensa está no Código de Processo Penal, tem uma moldura penal. E eu bem sei que os deputados têm historicamente imunidade parlamentar para serem soltos nos debates, mas noutro tempo isso dava para duelos à porta da Assembleia da República. Pareces morta, drogada, já não sei qual era a outra.
Aberração.
Aberração.
Sendo que veio depois o líder parlamentar do Chega dizer que essas expressões que acabaste de referir não eram para a deputada, eram para Isabel Moreira, que estava a tirar fotografias.
Tanto melhor.
Convincesse-me melhor.
Isto dava, no mínimo, para umas chulotas bengaladas, como disse em tempos João Soares sobre a Augusta Boileira, que era crítica cultural quando Soares era Ministro da Cultura e na altura o post, se bem se recordam, valeu-lhe a demissão, porque António Costa fez questão de comentar o caso e dizer que um ministro nem à mesa de café deixa de ser ministro. Ora, os deputados não percebem a honra nem a importância de ser deputado, nem a forma como devem ser vistos como exemplo. Nomeadamente agora as galerias têm estado cheias com as escolas, que ficam a ver aquele triste espetáculo. Os deputados do Chega, nem na assembleia, nem no Parlamento, se comportam como deputados, é o contrário. Não é nem à mesa do café deixam de ser deputados. É que nem no Parlamento são deputados como deve ser. E não se podendo resolver com bengaladas ou com duelos ao tempo de Ramalho Ortigão, tem de se resolver de outra forma. Eu sei, e todos sabemos, que somos jornalistas, que não há quem não relate que desde que o Chega chegou ao Parlamento, as condições de salubridade daquela casa caíram consideravelmente. Andar nos corredores, por exemplo, pode ser um momento embaraçoso com comentários destes deputados às mulheres, sobre o que vestem, sobre o fato de serem gordas ou magras. Isto acontece com jornalistas, acontece com deputadas, percebeu-se hoje por aquilo que disse Alexandra Leitão. Já se tinha percebido pelo que tinha contado a Inês Sousa Real. E isto não é um piropo em frente a uma obra, porque aí eu acho que os comentários são mais elevados do que aqueles que ouvimos hoje. Isto é a altura para Aguiar Branco resolver o problema, depois de ter demonstrado que era muito democrático e tinha grande letralidade para o Chega, porque a liberdade chegou ao fim. Chegou ao fim essa linha moderada. Isto se quiser manter a sua própria reputação e a reputação da Assembleia da República, porque Aguiar Branco arrisca-se a ser o grande responsável por permitir que a Assembleia se transforme numa espécie de saco de gatos ou no fungagá da bicharada, em que se ouve coisas do outro mundo, que não é de agora. Muitas vezes as coisas não se percebem porque quem está em casa está a ouvir os microfones que são direcionais e, portanto, só está a ouvir aquilo que dizem as pessoas. Mas basta estar no Parlamento, que na outra ponta, por exemplo, onde está o Bloco de Esquerda e o PC, que parece que é longe, mas não é, ouve-se tudo. Ouve-se tudo o que os deputados dizem. E portanto, esta ofensa à honra, este bullying, chamem-lhe o que quiserem, é algo absolutamente inacreditável. E isto é ofensa a pessoas com deficiência, portanto é agravado. Agrava-se ainda. E eu acho que os votantes do Chega podem começar a reavaliar o seu voto, porque reavaliar o voto por aquilo que fez Miguel Arruda ou Nuno Pardal, não faz muito sentido. Porque são pessoas individuais. Pode-se dizer que o vetting do Chega é fraco, mas também se pode dizer que em 50 tiveram azar. Agora, desta forma, pensando que afinal quem não se comporta como devia, talvez não mereça a confiança do eleitor.
E que cor então para estes portugueses de bem?
Para os eleitores ou para os...?
Para os do Chega.
Para os eleitores do Chega?
Sim.
Não, os eleitores do Chega não.
Não, para os deputados do Chega, para a bancada do Chega. Que supostamente serão portugueses de bem.
É um preto, porque costuma-se dizer que borra minha cara de preto, se não sei o quê. É uma expressão que se usa muito, que foi cunhada politicamente pelo José Magalhães, que uma vez perdeu uma aposta depois de ter dito que borrava a sua cara de preto. Eu acho que eles merecem um preto, não é um vermelho. Enfim, é um dia triste para a democracia parlamentar portuguesa.
Raquel Abrucia, e os 30 segundos para o veto presidencial, à desagregação de freguesias.
30 segundos, dou só a minha opinião. Ainda bem que o Presidente da República vetou, apesar de se ter contrariado em declarações que tinha feito anteriormente em relação a esta matéria. Não é possível pensar-se que, primeiro, uma reforma que foi feita com algum custo volte para trás desta maneira. Segundo, que se pretendam instalar em seis meses 301 novas freguesias logo a seguir das eleições autárquicas. E portanto, acho que ainda bem que houve este veto. Espero que os partidos da maioria, sobretudo o PSD, que está no governo, pense muito bem se é isto que quer fazer, desfazer uma reforma que o seu próprio partido fez, porque eu não vejo o país aos saltos a pedir novas freguesias, como já vimos noutros tempos. Acho que era uma reforma que era necessária. Não há nenhum motivo para voltar para trás. Há pouco falávamos de Pedro Passos Coelho, que acabou por sacrificar até o seu percurso político à custa de tentar fazer reformas que eram necessárias ao país e agora, a propósito de nada, ver uma tentativa de responder a reclamações bairristas, não me parece que seja o melhor caminho para o país e portanto, espero que este veto faça com que esta desagregação de freguesias volte atrás.
Sinal verde de saída.
Sinal verde a Marcelo Rebelo de Sousa, apesar dos sinais amarelos de todas as declarações que fez antes deste veto.
Sinal verde de saída também para o Semáforo Político, que está de volta na segunda-feira.