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Primeira passagem desta semana pelo semáforo político. Condução segura, sem tremores, esperemos, depois desse sismo de 4.7 que abalou a Grande Lisboa, e com o PS a pôr aqui um travão à moção de censura que o Chega ameaça levar a cabo contra o governo, Luís.
Sim, Vanessa. André Ventura fez esse ultimato ao primeiro-ministro, caso Luís Montenegro não desse explicações até esta tarde sobre a empresa da mulher e dos filhos, que pode alegadamente beneficiar com a lei dos solos. Iria avançar desde logo essa iniciativa no Parlamento, mas agora já alargou o prazo para amanhã à hora de almoço. Entretanto, a judite, o líder do Chega vê a moção condenada à partida desde logo pelo PS.
O líder do Chega vê a moção condenada, Luís, porque está condenada, porque não devia sequer nascer, portanto, está condenada a morrer. O André Ventura é aquele clássico caso da fuga para frente. No caso, o desespero é tanto que já é fuga para cima. Já ninguém se lembraria de uma moção de censura nesta altura do campeonato. Foi preciso arranjar uma desculpa esfarrapada, que é esta da imobiliária. Mas enfim, eu percebo que, de facto, o André Ventura esteja preocupado. As coisas têm-lhe corrido particularmente mal. Já não me recordava quanto é que André Ventura tinha perdido nas sondagens entre as eleições legislativas e as europeias. Porque nós ficamos sempre com aquela história de que teve 1.100.000 votos. Teve, mas depois teve 300 mil nas europeias. Portanto, foram 700 mil votos a mais que desapareceram. Ou seja, os votos em partidos de dito protesto desaparecem com muita facilidade, tanto aparecem como desaparecem. E se continua assim, desaparece. E não é mais do que todas as trapalhadas de malas e coisas bem piores e bem mais graves, que são de indivíduos, o que se pode perceber que foram todos muito mal escolhidos, ou alguns foram mal escolhidos, não todos, claro. Alguns foram mal escolhidos, mas é uma questão dos indivíduos. Outra coisa é quando a turba, que é aquele grupo parlamentar, se comporta como se comporta, o que implica que alguns que não têm culpa nenhuma vão no bolo. O que interessa é que no cômputo geral, a imagem que existe é de um partido a quem muitas das pessoas que confiaram o seu voto, o tal 1.100.000, muitos desses não são nem de direita radical, nem de extrema-direita, nem acreditam na castração química, não acreditam em nada disso. São pessoas que estão descontentes com o sistema português, estão descontentes com os partidos, estão descontentes com a sua vida, estão descontentes com o rumo do país nos últimos 50 anos, mas não votaram numa cambada de garotos a fazerem disparates no Parlamento. Quer dizer, também há limites para aquilo que se pode fazer com o nosso voto. E eu acho que André Ventura esticou a corda naquele registo tralhiteiro, porque ele próprio controla esse registo tralhiteiro como quer e é hábil a manusear esse registo tralhiteiro, mas o mesmo não se pode dizer dos venturinhas que estão ao lado e que de repente aquilo ganha uma dimensão de claque. Ganha uma dimensão de claque no pior, uma daquelas claques que deviam ser proibidas de entrar nos estádios. E portanto, depois das cenas gagas de quinta e sexta-feira, isto porque as pessoas normalmente não conseguem acompanhar um debate quinzenal inteiro, a não ser que seja obrigado a isso, como nós. Sobretudo se estivermos lá dentro, ouve-se tudo, porque aquilo é minúsculo, aquilo parece grande na televisão, mas não é, é muito pequenino. Ouve-se tudo de uma ponta à outra, ouve-se o que toda a gente diz. A mim já me aconteceu estar na bancada de imprensa e ter que pedir a deputados que estavam sentados ao meu lado para se calarem com os apartes, porque eu não conseguia ouvir para escrever. Portanto, por favor, apartes mais baixo que eu estou a tentar trabalhar. E portanto, respeitem o meu trabalho. Se isso incomoda, na altura não havia 50 gajos, não é? Na altura não havia 50 gajos aos gritos, que é isto que acontece. Em pateadas, ou pior, em expressões do mais baixo que há. E é mesmo reles.
Portanto, e esta moção de censura é mesmo para desviar atenções.
Esta moção de censura é porque ele não tem nada para fazer a não ser trepar paredes neste momento. André Ventura não há nada que possa fazer a não ser trepar paredes, porque não pode mudar o grupo parlamentar. Quer dizer, pode agora dizer assim: "Vou fazer um pré-vetting e vou começar a mandar embora uns e a mandar vir outros." Não sei se ele pode fazer isso. "Olhe, suspendo estes deputados porque são todos inqualificáveis e quero os próximos da lista." Se ele pudesse fazer isso, talvez ainda haja algumas. Não sei, os próximos da lista podem ser melhores.
Mas a questão é que apesar de tudo, naqueles 50 há alguns, não sei contabilizar-
Mas não se ouvem
...que não têm essa tradição e que até têm experiência parlamentar noutros partidos e que poderiam representar o partido.
Eu diria o mesmo da Diva Ribeiro e viu-se o que deu, não é? Porque a Diva Ribeiro vem do PSD, tem idade e habilitações literárias para saber fazer melhor do que aquilo.
Exatamente. Mas o que eu queria aqui dizer é que eu não sei se o André Ventura está interessado em fazer esse vetting ou se está sequer.
Mas ele sabe que isto o prejudica ou não.
Isto agora causou-lhe um incômodo.
Eu acho que isto o prejudica mais do que o ajuda.
Mas pela estratégia que está a adotar, não parece vindo de uma pessoa inteligente.
Certo. Não, é fuga para frente.
Se há alguém que controla aqueles deputados é André Ventura, portanto, se lhes quisesse dar uma outra instrução, daria
E não tem dado.
Pois, eu acho é que criou um monstro. E agora, de repente, os monstrinhos têm vida própria, porque André Ventura é altamente.
Mas ainda assim calavam-se se ele mandasse.
Sim, claro. O que eu digo é: André Ventura é um coreógrafo. Faz aquela coreografia dele próprio, dos outros e aquilo tudo corre exatamente segundo um determinado guião. Atenção que se nós olharmos para outros partidos populistas na Europa, também há palhaçadas no Parlamento Europeu, como sabemos, mas não são deste nível chão. São coisas piores no sentido de densidade política. Isto é só mal educação. Noutros tempos teriam levado com chineladas e bangaladas e com coisas atiradas de um lado para o outro no Parlamento. Isto agora já não há. Quanto à moção de censura em si, muito brevemente, Luís Montenegro não tem que dar explicações de coisa nenhuma. André Ventura sabe disso muito bem. Pedro Nuno Santos ainda sabe melhor, que também diz que Luís Montenegro não responde aos jornalistas. Respondeu a ele próprio, Pedro Nuno Santos. Não sei se isso foi pouco útil no último debate quinzenal. Nós achamos que o debate quinzenal até foi bastante esclarecedor. Eu não preciso que Pedro Nuno Santos faça o meu trabalho e venha dizer que o primeiro-ministro não responde aos jornalistas. Isso sou eu que digo ao primeiro-ministro, não é Pedro Nuno Santos. Portanto, agradeço, mas esse trabalho eu não preciso. O que eu preciso é que Pedro Nuno Santos diga a verdade. Uma moção de censura agora é só ridículo. Custa-me dizer isto estando como líder da oposição? Custa-me, mas é verdade. O Chega está-se a tornar o pior inimigo do Partido Socialista e Pedro Nuno Santos tinha uma forma de acabar com isto rapidamente, que é dizer: André Ventura está a fazer esta figura triste e escusada porque está apertado, porque é óbvio que não faz sentido nenhuma moção de censura, nem faz sentido falar, ainda para mais para quem tem o passado que Pedro Nuno Santos tem, de ter sido acusado que tinha um carro não sei o quê e que o pai tinha uma coisa e que havia dinheiro. Para quem tem esse passado, mais valia dizer assim: Luís Montenegro não tem explicações nenhumas a dar.
Certo é que já há aqui um precedente que é um secretário de Estado que acabou por cair por causa desta lei dos solos. Sei que não há comparação possível, mas é isso que eu queria questionar agora.
Eu só ainda não consegui perceber a ligação. Eu ouço lei dos solos e o meu Tico e o Teco não conseguem... Porque eu não percebo qual é a ligação entre a lei dos solos e ter uma imobiliária. Não consigo entender.
Deixemos agora então o Cristiano.
De resto, não é uma imobiliária, é uma empresa de consultoria onde cabe o setor imobiliário.
Mas se me conseguisse explicar essa ligação, porque eu vejo os jornalistas a fazer essa explicação, mas é a altura em que eu me perco.
Sim. Sou eu agora.
Agora é a Isabel.
Não, só porque os casos estão ligados e de facto, eu acho que, e isto é uma reflexão, muitas vezes também para nós é fácil estarmos aqui a bater no Chega, que é o suspeito do costume, e não fazemos também uma reflexão sobre aquilo que noticiamos, como é que noticiamos e que consequências é que tiramos e que coisas é que misturamos umas com as outras. Há aqui um caso de uma demissão de um secretário de Estado que teve, eu já o disse aqui, manifesta falta total de bom senso, porque assim abriu duas empresas imobiliárias das quais ele fazia parte enquanto estava no governo. Independentemente de ainda por cima estar a legislar sobre a matéria da lei dos solos, mesmo que não estivesse e que fosse noutro pelouro qualquer. É básico, devia estar no livro de instruções de qualquer pessoa que vai assumir funções governativas, que não é o momento para estar a abrir empresas nenhumas, e muito menos imobiliárias.
Mas confessa uma coisa, quando ouves a lei dos solos e as imobiliárias, dá-te vontade de ir abrir uma imobiliária? Eu tenho certeza que hoje é que pode. Só pode. Eu vou abrir uma imobiliária já agora e quando for email.
Sim, mas em todo caso, o que eu acho que é fundamental é não misturar as coisas, porque houve de facto um caso que resultou numa demissão, justamente. E a partir daí já ouvimos duas histórias. Uma, que o secretário de Estado que veio a seguir, que por acaso foi autarca, que no âmbito das suas funções autárquicas contratou um escritório de advogados onde era sócio o atual primeiro-ministro, quando não era nem primeiro-ministro, nem presidente do PSD, e que então isto é um caso de altíssima suspeição. E agora vem esta questão de uma empresa.
Mas eu acho que o PS não vai querer falar de escritórios de advogados, porque os partidos fazem todos isto. Portanto, melhor não falar sobre isso.
Mas o tema é assim, o primeiro-ministro era advogado na sua vida particular.
Mas o problema é ser um ajuste direto.
Sim, mas isso é uma prática que todas as autarquias têm em relação a muitas atividades, incluindo, sobretudo, a contratação de advogados, primeiramente. Não só as autarquias, mas também o Governo, com os grandes escritórios de advogados.
Nomeadamente porque tem pressa e é preciso um advogado que não é na hora.
Exato. E porque não há juristas com a mesma capacidade de dar resposta aos problemas que se vão colocando, como eles existem no setor privado, e por isso é que há recurso aos advogados. Mas o meu tema nem sequer é esse, o meu tema é o seguinte: é que ao misturar os assuntos e eu pôr tudo no mesmo bolo e eu ir atrás da narrativa de André Ventura, mas não só, e que muitas vezes é protagonizada também pelo jornalismo, tenho que o dizer aqui, de fazer demagogia com estas coisas, o que acontece não é só que as pessoas não querem, ninguém quer vir para a política. É também que nós estamos a circunscrever de tal forma aquilo que um político na sua vida privada deve fazer, que estamos praticamente a dizer que quem não venha da Jota tenha tido qualquer atividade que não fosse estritamente política. Ou seja, saltar de lugares para lugares até chegar ao lugar de primeiro-ministro não serve para primeiro-ministro. Porque qualquer atividade que um primeiro-ministro tenha tido na sua vida privada é passível de ser uma arma de arremesso.
Mas estamos a dizer outra coisa. Estamos a dizer: ou tens dinheiro de família e portanto candidatas-te incólume, sem passado, ou então se não tens dinheiro de família, não te podes dedicar à política.
Mesmo quem tem dinheiro de família, muitas vezes tem negócios e portanto, se todos os negócios são criticáveis, se qualquer atividade que a pessoa teve no âmbito da sua profissão, volto a repetir, isso torna-se impossível.
Sendo que tendo em conta a dimensão que este caso está a ganhar, Luís Montenegro deve ou não deve explicações, pelo menos?
Eu acho que Luís Montenegro já deu as explicações. Deu explicações ao jornal. Pelo menos eu, cidadã, neste caso não falo como jornalista, eu já ouvi as explicações do primeiro-ministro e para mim foram absolutamente esclarecedoras. Portanto, o primeiro-ministro não tem que andar aqui a dar explicações quando André Ventura quer fazer uma manobra de diversão. Eu também quero ser justa com Pedro Nuno Santos, que ele começou logo por dizer que não dava palco às manobras de diversão do André Ventura. Depois podia ter sido mais consequente, mas isso faz parte da política. Ele não poderia ficar só aqui a salvar o primeiro-ministro sem fazer nenhuma crítica.
Precisamos dos nossos cores de semáforo, Raquel.
Só mesmo para terminar, é que há uma consequência com esta prorrogação do prazo de André Ventura. Luís Montenegro amanhã, com metade do governo, parte para o Brasil para uma cimeira luso-brasileira. A ser entregue esta moção de censura amanhã à hora de almoço, o governo já partiu. E o debate tem que ser feito em três dias, na sexta-feira. E portanto, arriscamo-nos a que o governo, aí sim, gaste o nosso dinheiro a viajar todo para o Brasil, para voltarem todos 24 horas depois, sem fazerem o trabalho que teriam para fazer lá para uma moção de censura que não vai passar. Portanto, a minha nota, e aqui abrange também algum jornalismo, é um sinal vermelho para o que se está a tentar limitar aquilo que pode ser a atividade de um político.
Judite, o teu sinal também?
É um vermelho também.
Dois vermelhos para fechar este semáforo político que está de regresso amanhã.