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Todas as tardes sinalizamos a atualidade no Semáforo Político. Estes dias são marcados, obviamente, pela campanha eleitoral e hoje à Judite França e ao Bruno Vieira Amaral junta-se a diretora adjunta d'O Observador, Filomena Martins, também um nosso convidado de hoje, que é o eurodeputado Francisco Guerreiro. Mas o primeiro sinal verde é, como sempre, para a Vanessa Cruz.

E verde lembra a natureza, uma cor associada ao PAN, que tem dado o que falar nesta campanha eleitoral por causa dos possíveis entendimentos com PS e PSD. O PAN, que é o antigo partido do nosso convidado de hoje, Francisco Guerreiro. Boa tarde, obrigada por estar conosco.

Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite.

Como é que olha para as críticas de falta de posicionamento do PAN em relação à esquerda e à direita?

Já não sendo militante no PAN, mas conhecendo profundamente, pelo menos a ideologia política de quando eu pertencia ao partido, realmente havia aqui uma diferenciação que fazia com que o partido conseguisse ter a porta aberta a possíveis negociações, tanto ao centro-esquerda como ao centro-direita. A meu ver, isso era porque era um partido progressista, porque tinha um ideário que se vincava na transição, na descarbonização da economia, com obviamente uma visão diferente sobre a responsabilidade que os seres humanos têm para com os restantes animais. E depois, naturalmente, defendia matérias que eram muito prementes na nossa sociedade, como a defesa do SNS, do Estado Social, entre outras.

Mas apesar de já não fazer parte do partido, eu não resisto a perguntar-lhe com quem é que considera que o PAN devia entender-se no pós-eleições.

Não me cabe a mim decidir isso e sei que pelas pessoas que compõem a Comissão Política Nacional será muito difícil o PAN fazer um acordo com o centro-direita. Até porque uma das razões que me levou a sair do partido era porque claramente havia uma subjugação ao PS e por isso também houve uma validação de todos os orçamentos de Estado. E por isso também António Costa fez questão de frisar que o PAN seria uma boa opção ou uma opção viável para fazer um acordo de governação.

E falando nessa subjugação ao PS, não sei se leu hoje o artigo de Manuel Alegre no Público, dizendo precisamente que não compreende como é que é possível o PS ficar dependente do PAN, tem duras críticas ao partido, diz que o PAN subverte o primado da pessoa humana, os fundamentos humanistas da sociedade. Se tivesse de atribuir um semáforo às declarações do histórico socialista, qual é que seria?

A mim parece-me que seria um vermelho, porque claramente há linhas vermelhas que muitos socialistas não se reverão, nomeadamente Manuel Alegre, quando se fala da tauromaquia, por exemplo, mas num cenário pós-eleitoral, quando se juntarem ambas as forças, depois terão que negociar quais serão as pontes que avançarão no acordo de estabilização ou pelo menos que se espera de estabilidade. Agora, o que me parece é que o Manuel Alegre valoriza demasiado o PAN, porque o que tem acontecido em sondagem atrás sondagem é que o PAN tem vindo a decrescer. As autarquias foram um sinal claro desse decrescimento e se calhar não valoriza outras forças que poderiam ser alternativa, nomeadamente o LIVRE, que tem feito uma boa campanha, uma campanha muito sóbria e que nos debates com o Rui Tavares conseguiu realmente passar a sua ideia de uma sociedade descarbonizada. Portanto, eu acho que aqui há uma falta de visão política também, porque poderá haver outros elementos que se juntarão a esta possível ecogeringonça ou associação à esquerda do PS.

Francisco Ferreira, deixe-me só fazer aqui um ponto prévio. O PAN acabou por ser, de alguma forma, um voto de refúgio para quem não tinha muito bem a certeza para onde é que se queria voltar. Pode voltar a ser esse voto de refúgio, mas agora que falou no LIVRE, fez-me recordar uma outra história. Sente-se de alguma forma próximo de Rui Tavares por estar no Parlamento e estar como um independente, fora de um partido, como aconteceu aliás com Rui Tavares com o Bloco de Esquerda?

Não, eu sei que o LIVRE está na mesma família política que nós, portanto, nos Verdes Aliança Livre Europeia, comunga de muitas visões de como descarbonizar a sociedade. Agora, eu não sou militante do LIVRE, não me revejo nalgumas propostas do LIVRE. Agora, o que por exemplo é verdade é que o Rui Tavares falou de uma medida que tinha sido uma bandeira inicial do PAN, que era a questão da implementação de um rendimento básico incondicional, e claramente fez aqui uma surpresa positiva no sentido de agarrar uma bandeira, não ter medo de a defender e trazê-la a debate público. O PAN, ao contrário, quando era uma bandeira sua, hoje em dia já nem sabe o que é um rendimento básico incondicional, portanto, já fala em condicionalidades e claramente não sabe defender a medida, passado mais de oito anos de ela estar no programa, em vários programas eleitorais. Portanto, aí também me pareceu bastante positivo. E se me aproximo de algumas posições do LIVRE e da maneira de estar do Rui Tavares, sim, é normal.

Portanto, o seu sinal verde vai para o LIVRE e não para o PAN. Já agora, Francisco Guerreiro, antes de passarmos aqui aos próximos semáforos, sempre vai filiar-se no Volt quando terminar o mandato de eurodeputado?

Olha, é uma pergunta bastante pertinente, até porque li o programa do Volt e apesar de achar que é um partido bastante relevante e que deve ter o seu papel, não só em Portugal, mas no seio do Parlamento Europeu, não me irei filiar porque eles defendem o nuclear em Portugal e para mim sempre foi uma linha vermelha Portanto, não há qualquer evidência que a descriminalização em Portugal necessite de centrais nucleares, mesmo que sejam da dita última geração. Há muitas questões ligadas com a própria intensificação deste tipo de energia, portanto, a concentração em grandes conglomerados empresariais. Indo ao contrário do que eu defendo e do que o movimento de descriminalização defende, que é a descentralização de produção de energias 100% limpas e renováveis. Portanto, ao defender uma linha, que para mim é uma linha vermelha, poderia dizer que seria como defender a tauromaquia, neste caso, eu não me poderei associar ao VOTO.

Quer dizer que não vai filiar-se em qualquer partido? Estávamos a falar há pouco do LIVRE.

Não, não tenho qualquer expectativa de me filiar. Tinha esta intenção de reforçar o VOTO, mas claramente eles defendem o nuclear em Portugal e a implementação de centrais nucleares em Portugal.

Portanto, é uma linha vermelha.

Para mim é uma linha vermelha, mas desejo o melhor e o Tiago é um excelente presidente e uma excelente pessoa, portanto, desejo o melhor à campanha, mas claramente para mim é uma linha vermelha.

Vamos voltar aqui ao PAN, porque a Judite França tem um sinal a atribuir ao partido Pessoas-Animais-Natureza.

Eu acho que neste momento o PAN, depois de ter tido uma campanha anterior e uma votação anterior absolutamente fulgurante, perdeu um bocadinho desse fôlego. Também acho que não correram muito bem os debates da Inês de Sousa Real. Sousa Real também vem um bocadinho prejudicada pela história das estufas, parecendo que não. Mesmo que dentro de uma bolha das redes sociais tenha sido muito notícia, transpirou cá para fora. E parecendo que não, há ali uma sensação de incoerência.

Esta história do eu tenho dois amores?

É, sim.

Não ponhas a música.

Mas o PAN está, neste momento, a apelar ao mínimo denominador comum, que é: em dúvida, vote PAN. Se não sabe se há de votar PS ou PSD e quer ser útil ao PS ou ao PSD, vote PAN. E eu acredito que haja muitos eleitores que sacudindo a responsabilidade, façam isso. Decidam: "Vou votar PAN, porque mal não faz."

Há aqui uma curiosidade, que naquela ferramenta que nós temos do Observador, que permite minutos descobrir com que partidos mais nos identificamos.

O votómetro.

Sim, o votómetro, com que partidos mais nos identificamos. O PAN aparece sempre, ou quase sempre, entre os preferidos de todos os que fazem o teste.

Mas isso tem uma razão.

Tem, eu acho que a razão é que as medidas do PAN são quase sempre de centro, são tão transversais ou não existem, porque encaixam em qualquer lado.

Ou não têm, ou são de centro.

Ou são de centro, são transversais. Porque fogem dos temas principais, daqueles que causam maiores divergências ideológicas e fora aqueles que são as causas naturais do partido, dos animais e da natureza. E por isso ficam ali. Portanto, as pessoas ao responderem, estão lá sempre, dentro daquelas respostas.

Recordam-se que nas últimas eleições legislativas, André Silva foi muito obrigado a falar de temas não confortáveis para o PAN, Segurança Social, IRS, etc. E teve dificuldades na altura, porque de facto o PAN tem um scope bastante limitado. Agora, eu acho que o PAN quer ser, neste momento, uma espécie de apoio, seja do PS, com D ou sem D. Portanto, tendo em conta que tem esse centrismo, pode servir como contrapeso a qualquer um dos partidos.

E o Bruno Vieira Amaral tem sinal amarelo também para um dos cenários pós-eleitorais PS/PAN.

O meu sinal amarelo é mais para esse eventual cenário ser agitado como um papão por algumas pessoas. Eu acho que é importante haver clareza nos cenários pós-eleitorais, nos possíveis, só que às vezes a clareza possível é o vamos ver, que ontem Rui Tavares disse no debate. Eu acho que dentro dos partidos, à esquerda e à direita, há pessoas que ainda não perceberam que com a geringonça isto mudou tudo. E também a dispersão de votos pelos vários partidos, que também veio para ficar, veio alterar substancialmente o funcionamento da nossa democracia. Para uns será melhor, para outros será pior, mas esta é a realidade, e não vale a pena queixar-se da realidade e agitar esses papões, como vimos agora a propósito de uma possível aliança pós-eleitoral entre o PS e o PAN. No cenário em que o PS só precise dos deputados do PAN para alcançar uma maioria, é normal que o PAN venda caro esses deputados. O PAN está a fazer pela vida, que é o que todos os outros partidos fazem. E não se trata de ter um partido com 4% dos votos a mandar num partido que tem 40% dos votos, mas de entender que dois deputados, e até um, eventualmente, têm mais valor num contexto em que bastem esses deputados para alcançar uma maioria. Não se pode pedir a um partido como o PAN, nem a outro qualquer, que abdique do poder que essa conjugação de resultados lhe possa conferir. Se não o fizer quando esses dois deputados, um deputado, quatro deputados, cinco deputados, tiverem essa importância, quando é que vai fazer valer esses deputados? Aquela conversa de que os portugueses não votaram no partido A ou B para o governo só porque teve

Quatro ou cinco deputados já não cola. Até porque os portugueses votam e depois são os partidos que têm que cozinhar de acordo com os ingredientes que têm ao seu dispor.

Portanto, o Bruno Vieira Amaral aqui a compreender a estratégia do PAN. Vamos falar também agora de um tema que está a marcar este terceiro dia de campanha eleitoral. Filomena Martins, tens um vermelhão para o Serviço Nacional de Saúde depois da demissão de 12 chefes de urgência no Hospital de Beja.

Tenho vermelhão.

E agora entra Safado Blanco, se faz favor.

Tenho o vermelhão, não é pela Fafá, não é por ser de Beja. É mesmo porque o SNS está a rebentar pelas costuras e ninguém quer admitir isso. E é por causa desta demissão dos 12 chefes de medicina interna de Beja, mas não porque é agora de Beja, porque já aconteceu em Faro, em Almada, em Santarém, em Leiria, em Santa Maria, no Porto. Eu já não consigo elencar porque o problema tem sido tão grave. E o meu problema aqui é o não reconhecimento do problema, porque diz-se que uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade. Mas um problema do tamanho do que tem o SNS, por muito que se finja que não existe, ele não vai desaparecer. E este não é um caso que baste assobiar para o ar, nem que se varre para baixo do tapete.

Há pouco, Francisco Rodrigues dos Santos, o líder do CDS, usava aqui uma imagem, disse que o Partido Socialista é o coveiro do Serviço Nacional de Saúde.

Eu não sei se é ou não é, eu sei que há um problema, é um problema muito grave. Este ano, pela primeira vez, diz que há mais candidatos do que vagas. Ficaram por preencher 50 lugares do internato médico, porque os jovens não querem ir para o Serviço Nacional de Saúde. E isto, se houvesse mais red alerts, alertas vermelhos em bom português, não havia. As demissões em massa têm-se sucedido, os motivos apresentados são sempre os mesmos: falta de condições, falta de recursos humanos e exaustão. E o governo bem pode insistir no discurso que nunca se investiu tanto na saúde, nunca se contratou tantos médicos, muitos a prazo por causa da pandemia, é preciso dizê-lo, e muitas vezes esquecem-se de o dizer, mas há mais de um milhão de portugueses que continuam sem médico de família. A minha mãe só nos últimos seis anos teve cinco médicos diferentes e uma pessoa de 77 anos, a dona Murtinha volta aqui à conversa, precisava de acompanhamento médico constante para perceberem o que ela tem, o que é que a seguida. Na minha família, lá em casa, somos três e ninguém tem médico de família. E o SNS é uma questão conjuntural, não é estrutural. Está a ser remendado há vários anos, vende remendo em remendo, quando precisa de uma reestruturação, de uma reforma profunda, que a esquerda não aceita por puro preconceito ideológico. E é preciso dizê-lo assim, de uma forma crua. E eu não percebi ainda porque que o tema, por exemplo, da gestão da pandemia, que é uma questão do SNS, não entrou nos debates, porque ela foi péssima. Logo ao início, para começarmos a conversa ao nível da questão da comunicação, em que tudo muda de um dia para o outro nas regras. Agora é a história dos votos dos confinados, vamos ver como é que acaba daqui a uma hora, que tem sido inacreditável. E é o facto de termos sido primeiro um país exemplar, depois o país milagre, depois o primeiro das vacinas, que só faz com que no momento seguinte passemos dos melhores para os piores. Agora, por exemplo, nas vacinas, é preciso dizer que nas doses de reforço, nós estamos a meio da tabela da União Europeia. Já não somos os melhores. E no fundo desta pirâmide são sempre os mais pobres, aqueles que têm como único recurso os hospitais públicos e que esperam horas desde madrugada por consultas urgentes, meses por consultas regulares e anos por exames e operações. E eu continuo a trazer a dona Murtinha para a conversa, que está há dois anos à espera de uma ressonância magnética por causa de uma operação à coluna que fez também depois de esperar cinco anos.

Portanto, um verbalho muito carregado para o Serviço Nacional de Saúde, aqui pela Filomena Martins. Francisco Guerreiro, vou voltar a si. Hoje foi um dia importante para o Parlamento Europeu, com a eleição de Roberta Metsola para presidente. Ela já foi criticada, por exemplo, pela posição antiaborto que tem, mas promete representar as posições oficiais. Acredita nisso? É uma boa escolha? Se quiser sinalizar aqui também com uma cor.

Eu acho que é um laranja. Eu acho que foi a escolha da maioria. Aliás, acho que não, foi a escolha da maioria, sendo que nós também apresentámos a nossa candidata, a sueca Alice Kunken. E nós tínhamos algumas profundas divergências, porque no processo de discussão, quais seriam as prioridades da Metsola, os liberais, os socialistas e os sociais-democratas mais uma vez fecharam sem copas e excluíram-nos desse debate. E portanto, matérias como é que o Parlamento se poderá reestruturar para ter debates mais interessantes, com respostas mais diretas, e não aquelas que nós conhecemos, que é simplesmente um minuto a um minuto e meio de uma pessoa, de um eurodeputado a debater para uma câmara vazia e para muitas vezes nem estar lá a comissão. Essas matérias não foram incluídas. Questões de transparência também ligadas com os fundos que os eurodeputados recebem, portanto, maior fiscalização, uma série de questões ligadas também com a pandemia e a possibilidade de votarmos remotamente ou de instituirmos um sistema misto para garantirmos que até reduzimos a pegada ecológica e poupamos recursos ao Parlamento Europeu. Uma série de matérias que nós gostaríamos de pelo menos tentar avançar e criar aqui alguns pontos de entendimento para podermos apoiar a candidatura da Metsola.

Portanto para os Verdes, no Parlamento Europeu, há um laranja para esta escolha da nova presidente do Parlamento Europeu.

Sim, até pelas posições relativamente à interrupção voluntária da gravidez.

Exatamente. Já agora, Francisco Guerreiro, sabemos que o voto é secreto, mas tendo em conta as suas críticas de há pouco, o PAN não é mesmo uma hipótese para si, para a cruzinha que vai pôr no boletim nas próximas eleições?

Não, não será para mim, mas certamente irei votar. Vou ver hoje também o debate entre os partidos ditos mais pequenos, mas claramente tenderei o meu voto a colocá-lo num partido que seja pró-europeu, ambientalista e que claramente defenda o rendimento básico incondicional.

Tem só há um, então.

Está a falar de um único.

Tendencialmente, sim, mas lá está, ainda terei que ver mais debates e ainda não li os programas de todos os partidos, porque em boa consciência tenho que o fazer e depois só assim terei liberdade de fazer o meu voto.

Obrigada, Francisco Guerreiro, o eurodeputado português no Parlamento Europeu esteve hoje no Semáforo Político e nós voltamos amanhã com um novo convidado.