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São três as cores do semáforo que servem para avaliar temas e protagonistas da atualidade. O verde, vermelho e amarelo são hoje atribuídos pela Judite de França e pela Inês André Figueiredo, jornalista da Editoria de Política do Observador.

E é precisamente por ti, Inês, que vamos começar. Trazes a este semáforo a recomendação ao governo, proposta pela Iniciativa Liberal e que ontem foi aprovada pelo Parlamento. Querem os liberais que o relatório anual de segurança interna passe a incluir a nacionalidade de quem comete crimes e também das vítimas. O que é que te ofereces dizer, Inês?

Exatamente. Basicamente, o PSD, o Chega e o CDS aprovaram essa proposta da Iniciativa Liberal de que falavas. Acho que há aqui três visões que considero importantes. Primeiro, a arrumação parlamentar já deixava perceber que a direita, quando se junta, consegue aprovar o que bem entender muito tranquilamente e mesmo contra a esquerda unida na oposição, que foi o que aconteceu ontem. O que existe atualmente é uma direita que se combate internamente. O PSD e a Iniciativa Liberal fazem ataques ao Chega com acusações de populismo. O Chega critica o PSD e a Iniciativa Liberal por excessiva moderação, até por alguma proximidade à esquerda em alguns temas. Ventura diz até que não conhecem a realidade do país. E há ainda a colagem que tanto o Chega como a Iniciativa Liberal fazem entre o PSD e o PS. Mas a verdade é que esta votação prova que os ataques entre partidos não são impeditivos de ver a direita a concordar e a aprovar medidas sobre temas como a segurança e o mesmo pode vir a acontecer em assuntos como a imigração, porque mesmo que o Chega queira sempre ir mais longe, não vai estar a chumbar medidas que permitam dar um passo em frente naquele que é o caminho que defende. Por fim, um pormenor que considero relevante. A Iniciativa Liberal, que é o partido com menos influência parlamentar, digamos assim, dos três, fica com os louros desta conquista da direita. O tema foi trazido em primeira instância, não sei se todos se recordam, a um debate quinzenal com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, para usar aqui uma expressão que está muito na baila, escancarou as portas à possibilidade da nacionalidade vir a estar presente nesses relatórios. E a Iniciativa Liberal não se deixou ultrapassar, marcou o debate, conseguiu aprovar a proposta. Por isso, se é verdade, e nisto o André Ventura tem toda a razão, que o Chega foi o primeiro a cavalgar o tema da segurança há muito tempo, também é verdade que neste caso deixou-se ser ultrapassado pela Iniciativa Liberal. E nem sequer é em termos de propostas, porque isso o Chega tem várias. É em termos de influenciar a governação, coisa que é mais difícil para a Iniciativa Liberal, porque só tem oito deputados, ao contrário dos 49 mais um do Chega, digamos assim, agora com Miguel Arruda. A mim parece-me, sem querer dar aqui grandes ideias a ninguém, que se o Chega quer este tipo de pequenas conquistas, tem de aprender a conhecer um bocadinho o auditório, como se costuma dizer, porque o próprio Chega diz que, até por exemplo, em questões de impostos, que vota a favor do que o partido acredita ser o melhor, mesmo que não atinja as metas finais a que se propõe. Se calhar esta proposta da IL devia fazer Ventura repensar um bocadinho que pode alcançar alguns feitos, numa altura em que a direita tem uma maioria parlamentar, se não for ao limite em cada proposta, em cada projeto, porque com os anticorpos que tem nesta altura, pode acabar mais vezes ultrapassado, quando até foi pioneiro num determinado tema.

Há aqui um reposicionamento também cada vez mais evidente da Iniciativa Liberal, Inês.

Temos aqui a Iniciativa Liberal. Há pouco tempo, na convenção, falava-se da questão do wokeismo. Rui Rocha disse que o wokeismo era para matar. Ele até usou uma expressão, paz à sua alma. Nós até fizemos um trabalho sobre isso. O que nos explicaram pessoas de dentro da Iniciativa Liberal é que nunca houve propriamente wokeismo dentro do partido, que o que houve era a concordância com diversos temas, que de facto a Iniciativa Liberal concorda, mas que no fim do dia há temas que são prioritários e que se calhar não é preciso andar com determinadas bandeiras, se o que importa são alterações ou conquistas noutros temas. Obviamente, a segurança é um deles, mas há outros. Rui Rocha falou de questões como a defesa, a questão da imigração. Portanto, isto estará de facto na agenda da Iniciativa Liberal nos próximos tempos.

E o teu sinal vai para a Iniciativa Liberal ou para o Chega?

Posso dar um a cada um. Posso dar um verde à Iniciativa Liberal e um amarelo ao Chega, aqui numa assunção de que de facto foram os primeiros a falar sobre este tema e acabaram por ter alguns ganhos de causa nesta proposta.

A Judite de França quer abordar dois temas neste semáforo, a remodelação governamental e o veto do Presidente da República ao diploma da desagregação de freguesias. Começamos por aqui. Judite, fez bem o presidente?

Na minha humilde opinião, fez bem em ter chumbado esta alteração. Era outra alteração, agora era no sentido de aumentar as freguesias. Marcelo Rebelo de Sousa tem estado talvez mais discreto agora e pouco ativo, com a mão na massa. Já passou alguns projetos, alguns diplomas, passou-os com recados, etc. Aqui chumbou mesmo, portanto, não há recado possível. E eu acho que a justificação é perfeita. Primeiro, temos que estudar isto, não vamos fazer outra coisa como fizemos da outra vez, em que à conta da Troika tivemos que andar a juntar freguesias e agora vamos desagregar freguesias quando estamos a seis meses de eleições. Não faz sentido nenhum, de facto. E portanto, ainda bem que Marcelo Rebelo de Sousa tomou esta atitude. Por outro lado Em relação à remodelação, é a primeira. Não atinge ministros, mas ao mesmo tempo dá aos ministros a capacidade de escolherem melhor aqueles que terão sido erros de casting, porque de parte a parte pode ter havido problemas. Algumas pessoas se calhar chegaram lá e também não gostaram de lá estar. E eu acho que isso é normal, acho que isso acontece nas empresas, portanto também pode acontecer no governo. Acho que é um voto de confiança que Luís Montenegro dá aos ministros, porque são os próprios que escolhem. Pode ter havido algumas escolhas diretas do primeiro-ministro, que as houve, e algumas são evidentes até pela proximidade geográfica, quanto mais não seja. Mas eu acho que faz sentido aqueles que estavam ali desenquadrados. Há um que durou um mês e meio. Se calhar não tem jeito, ou se calhar não gostou, ou se calhar a ministra ficou desiludida. Enfim, não sei responder especificamente neste caso. Sei que houve uma mudança porque se considerou que era preciso alterar. Ora, houve oportunidade para isso, à conta de Ernani Dias, abriu a porta a que isso acontecesse. Ainda bem, porque senão íamos estar a arrastar os pés mais tempo para não haver uma remodelação. Cavaco Silva tinha uma perspectiva muito interessante das remodelações, e Luís Montenegro é um grande estudioso da obra e do trabalho de Cavaco Silva, que é: as remodelações fazem-se quando eu quero. Não me interessa se está perto não sei o quê, se o jornal vai escrever, não me interessa nada disso. Fazem quando eu quero. Eu acho que a equipa não está a funcionar bem, aquele elemento e aquele elemento têm que sair. Vou fazer uma remodelação. Claro que quando se faz uma remodelação de secretários de Estado, é considerado quase uma coisa administrativa, de reorganização. Quando se faz ministros, não, porque aí é a assunção de que não só aquele ministro está a funcionar mal, como as políticas que implementou não funcionaram ou funcionaram mal. Aí já são outros quinhentos. Quem acha que a ministra da Saúde vai ser remodelada, eu acho que devia sentar-se sossegadinho, porque Luís Montenegro não tem feitio nenhum para quebrar perante aquilo que é a comunicação social, a imprensa, a oposição.

A pressão mediática.

Pelo contrário, acho que mesmo que ele agora quisesse, não vai fazer só para contrariar. E portanto, eu acho que o facto de sair uma das secretárias de Estado da Saúde, que já tinha sido desautorizada, acho que faz algum sentido. Há ali qualquer coisa que se muda, mas é claramente o bode expiatório da questão, porque não é ela que vai mudar alguma coisa de considerado. Eu só queria deixar uma última nota para o Razi, porque é também um verde para o Razi. Para o Razi não, para a sugestão, para que o Razi passe a incluir-

Para a inclusão da nacionalidade de quem comete crimes.

Já há a nacionalidade para quem comete algum tipo de crimes, como por exemplo, homicídio. Portanto, das duas, uma: ou nós achamos que violação é menos que homicídio, ou achamos que mão armada é o mesmo que violação. A não ser que a gente faça aqui uma gradação de crimes, não faz sentido que uns tenham a nacionalidade da vítima e do agressor ou do perpetrador e outros não tenham. Portanto, ainda bem que dados nunca são a mais. Eu ao longo da minha carreira académica analisei muitos dados e continuo a analisar no meu trabalho e a minha parte mais matemática de análise, acho que é uma coisa muito importante. Analisar dados, não há nada mais importante que informação e não há nada mais poderoso que informação e portanto, fiquei contente também com esta-

O Alvis Silva para acabar com as perceções todas.

Para o bem e para o mal.

Claro, exatamente.

Só faltam os teus sinais, Judite.

Tudo verde.

Tudo verde, tudo corrida verde da Judite de França. É dia da rádio, precisamente. E temos entre nós alguém que hoje se dedica à pena, à escrita, a Inês André Figueiredo.

Mas que tem um passado...

Mas que passou outrora pela rádio. O que é que fez com que hoje possas ser considerada, com toda a legitimidade, uma desertora, Inês André Figueiredo?

Não pode.

Não sou, estou aqui. Eu estou aqui.

Está aqui.

Como Cristiano Ronaldo.

Já agora ficam os ouvintes a saber que vem cá, desde que a gente peça, ela vem.

Sim, é verdade. E a rádio, o que é que diz a ti?

A rádio é uma das melhores coisas do mundo. Associar a paixão da rádio ao jornalismo é o melhor. Nós conhecemo-nos na TSF, foi aí que começou o meu percurso na rádio e nesse dia em que eu percebi que podia fazer rádio foi: "Ok, finalmente cheguei ao sítio que queria e poder continuar a fazer rádio, não tanto como gostava, mas muitas vezes é um gozo."

Mais logo os ouvintes podem ouvir-te na Bicha Suave.

Exatamente.

É verdade. Acho que estás sempre a dar sopa.

É verdade.

Seguramente haveremos de continuar a ouvir a Inês André Figueiredo aqui na antena do Observador, é jornalista da editoria de política e juntou-se hoje à Judite de França no Semáforo Político.