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Semáforo Político na Rádio Observador, com a análise da Judite de França e também da Raquel Cassis. Vamos começar, Judite, pelo Partido Socialista, que reuniu este fim de semana, no sábado, em Setúbal. Uma reunião muito antecipada. Esperava-se que se começasse a definir um perfil mais fechado de quem poderia ser o candidato presidencial a ser apoiado pelo Partido Socialista. O que tivemos foi um bocadinho o contrário: abrir a malha, dizer que não há calendário, que não há pressa e esticar a lista de hipóteses a ser apoiados.

Qual é a pressa? Como diria António José Seguro: qual é a pressa?

Portanto, já por acaso há pouco que-

Deixa-me só dizer que Pedro Nuno Santos, na minha opinião, teve muita graça quando fez aquele momento no Parlamento de: "E o candidato a presidente da República é..." e sai de cena. Acho que podia ter começado por responder aos jornalistas: "Mas qual é a pressa? Ainda falta tanto tempo, qual é a pressa?"

Mas tu prometeste há pouco que tens as cores todas do semáforo para a reunião do Partido Socialista.

Tenho, sim senhor. Porque depois da Comissão Nacional, onde o nome de Vitorino, qual Vale de Mor, não foi referido, eu dou um vermelho para Vitorino, porque acho que está mais longe de ser candidato. Dou um amarelo para Pedro Nuno Santos, porque coitado, está ali entalado com o Martim Muniz, e dou verde a António José Seguro, porque saiu mais reforçado desta reunião do que estava anteriormente, e ele já antes se sentia bastante reforçado, o próprio sente-se bastante reforçado.

A vontade é uma coisa que vale muito.

E eu acho que o fato de ter estado 10 anos afastado e ter saído da forma como saiu, imagino com a autoestima muito em baixo. Agora está com a autoestima em alta e eu diria que quem fez a campanha de 2015, das eleições de 2015, ouviu muita coisa, e ouve-se muita coisa na rua, como tu sabes, tu já fizeste muitas campanhas. Quem fez a campanha de António Costa em 2015 ouviu coisas muito feias, nomeadamente de simpatizantes, nem militantes, pessoas que estavam na rua e que a coisa talvez mais agradável que lhe chamaram foi traidor. Exatamente porque aquela manobra para ganhar António José Seguro foi uma manobra que o próprio permitiu, ao fazer primárias daquela forma à americana, em que até os simpatizantes votam. E se tivessem sido os militantes a votar, António Costa não tinha ganho, porque Seguro era o secretário-geral do partido, fazia, como se costuma dizer, o roteiro da bifana e portanto, as estruturas locais estavam com António José Seguro. Aquilo que aconteceu foi, e eu conheço muita gente que votou em António Costa, que nem sequer é militante.

Sim, houve muitos não militantes que se inscreveram.

Que não têm de Seguro a mesma opinião que tinham os militantes. E aliás, o qual foi a pressa foi sobre isso.

Eu diria que até pessoas de outras fações políticas tiveram interesse em votar nessas eleições.

Claro que sim. Dito isto, e porque qual é a pressa, até podia ser um slogan, eu decidi inventar um. Não resisti. Eu gosto muito de acrônimos divertidos e inventei um ASAP, que é de António Seguro, de António e de Pedro, porque Pedro Nuno Santos está entre dois Antónios, como diria um Marco Paulo e um Toy, se se juntassem, havia dois Antónios. Mas parece-me que o António de que o partido está a gostar mais neste momento é de António José Seguro. Não porque gostem mais de António José Seguro, tirando aqueles que são os seus apaniguados históricos e que estão órfãos há 10 anos. Há 10 anos o pai partiu para comprar tabaco e nunca mais voltou e portanto, esses estavam órfãos. Mas há uma série de dirigentes do Partido Socialista que sabem bem o que a casa gasta com António Vitorino. António Vitorino é agarrem-me senão eu candidato-me, mas como o próprio disse uma vez, não há festa aniversitância em que não apareça a dona Constância, referindo-se a si próprio como o nome que era sempre encontrado para qualquer cargo. A verdade é que António Vitorino decidiu, um, fazer uma vida profissional privada, com muito sucesso, e também decidiu estar fora de Portugal em instituições europeias e internacionais também com muito sucesso. E de facto, para quem tem esta mundividência, Portugal parece pequeno. Ou pode parecer. E pode parecer pequeno e chato. Porque depois há a campanha e depois há o escrutínio jornalístico que descobre uma CISA, que nem era uma CISA na altura, nem era uma coisa que ele tinha que pagar, que António Vitorino tinha que pagar. Mas eu acho que António Vitorino até aproveitou: "Epá, tenho aqui uma CISA, vou-me embora." Porque aquele governo era um governo muito difícil, muito duro, de maioria relativa, etc.

E claramente António Vitorino não está moldado para esse escrutínio rigoroso e apertado.

Não está moldado no sentido de não lhe apetece.

Sim, exatamente.

No sentido de não rejeitou liminarmente essa possibilidade.

Porque é cedo. Qual é a pressa? É cedo para rejeitar liminarmente, mas também começa a ser tarde para se pôr completamente de fora.

Começa a ser tarde para avançar, já? Já é tarde para avançar?

Não, pelo menos para ter uma manifestação de interesse, nem que seja particular com a direção do partido.

Eu acho que os socialistas que entretanto aparecem nas televisões, comentam aqui na rádio, merecem saber um bocadinho mais do que sabem até agora, porque olhando à volta, já toda a gente tem candidato. Quer dizer, não tem o PC e o Bloco, não têm candidato, mas aí é fácil de saber que vai ser um candidato do PC e do Bloco.

Dizias que Vitorino teve uma vida muito por fora do país, mas António José Seguro também esteve quase uma década de anos sabáticos.

Mas esse ano sabático de António José Seguro só lhe fica bem. Não andou por aí a infernizar o vizinho.

É um positivo para ele nessa luta interna?

Tu podes dizer que se tiveres 20 anos, não conheces António José Seguro. É um facto. Mas tiveste 30, lembras-te de António José Seguro. Tiveste 40, 50, 60, 70, lembras-te que era o líder da oposição. E foi um líder da oposição que eu acho curioso, porque de facto passa-se de bestial a besta com muita facilidade. António José Seguro era um enfant terrible, que aparecia nos comícios. Era um Pedro Nuno Santos. Antes de Pedro Nuno Santos, havia António José Seguro. Aparecia no comício do José Sócrates para pôr as hostes todas anti-José Sócrates, que também é uma coisa que é currículo. Ser anti-José Sócrates é currículo hoje em dia. E depois passou a ser um líder considerado brando, suave.

Estava-me a ocorrer uma expressão, mas por cerimônia não digo.

Pior.

Mais feiosa.

No fundo, considerado um líder fraco. Eu acho que foi o líder que as circunstâncias também lhe permitiram naquele tempo.

Foi líder no tempo da troika, exatamente.

Era mais fácil ser líder agora, ser líder em 2015.

Tinha a herança do pedido de assistência financeira.

Na altura, tinha um partido, tinha uma maioria absoluta no Parlamento que mostrava à evidência, para quem quisesse acreditar ou ver, ou lhe apetecesse acreditar, que estava a fazer tudo aquilo que podia fazer. E na altura ouvia todos os dias: "A culpa é vossa, a troika está aqui por vossa causa". Portanto, António José Seguro estava numa posição difícil e acho que não teve arte para sair dessa posição. Foi posto numa posição difícil e não teve arte para sair. Agora é diferente. Foram 10 anos fora, é a prova provada de que um político pode trabalhar noutra área, fazer currículo, empresas, etc. Ainda por cima é um currículo bonito. Agricultor por um lado.

Professor universitário por outro.

Professor universitário por outro, teve outros negócios, azeite. É uma coisa que fica bem.

Tem vida para além da política.

Tem vida, esteve nas Caldas de Rainha.

Aproveitar zona Oeste.

Exatamente.

Amadureceu.

Não vinha aqui àquelas reuniões e a aqueles jantares.

Conspirativos.

Conspirativos no pub, aquelas coisas.

Não teve esses desgastes.

Não teve esses desgastes nem quis. E eu acho que isso não deve ser fácil. Agora, pensando humanamente, uma pessoa que fazia política todos os dias há 20 anos, desaparecer por simplesmente da política. Não deve ser fácil. Imagino que do ponto de vista-

E agora volta.

Agora voltou, mas volta com o cadastro limpo. E aquela suavidade de líder da oposição, que era tão criticável, pode ser boa em Belém. Talvez as pessoas precisem de suavidade e calma em Belém, depois de Marcelo Rebelo de Sousa, que é muito intenso. Portanto, é isto. Eu acho que António José Seguro saiu melhor e António Vitorino saiu pior. Então, verde para Seguro.

António José Seguro.

Vermelho para Vitorino e é um amarelo para Pedro Nuno Santos, que eu continuo a achar que não tem responsabilidade nenhuma nisto. Acho que é ele e as suas circunstâncias. Eu sei que toda a gente acha que ele é culpado. Eu não acho, acho que é ele e as suas circunstâncias e não lhe facilitaram nessas circunstâncias. Ainda agora querem falar em Sampaio da nova, que é só para-

O que Pedro Nuno Santos está a passar agora, pelo que António José Seguro passou à sua época, enfim, com contextos diferentes, mas ser líder da oposição não é fácil e sobretudo não é fácil dentro dos próprios partidos, mais do que para os de fora.

Tu tiveste líderes da oposição que estragaram as eleições presidenciais. Sócrates é o melhor caso. Sócrates convenceu Mário Soares de que o povo ainda ia votar nele e foi por isso que Mário Soares avançou. E depois eu fiz essa campanha e percebeu-se na rua que o povo já não queria votar em Mário Soares. Mário Soares não sabia disso, porque também estava fora há não sei quanto tempo. E António José Seguro foi culpado disso. Sócrates. Guterres não conseguiu inquinar a candidatura de Sampaio, porque Sampaio em fevereiro disse: "Vou ser candidato", com um ano de avanço. E António Guterres queria outro candidato, viu-se na circunstância. Portanto, ao contrário dos outros secretários-gerais, este não está a tentar arruinar as eleições presidenciais. E portanto, acho que está de facto com algum azar.

A Raquel Albuquerque traz a este semáforo político o congresso das direitas patriotas em Madrid este fim de semana.

É, porque nós podemos ter a tentação de olhar para estes encontros como uma coisa original e um clube de amigos que está ali no seu cantinho a festejar-se mutuamente. Mas eu olhando para aquele friso que vimos este fim de semana em Madrid, fiquei pensativa sobre o que nós estamos a perceber sobre aquilo que se está a passar e para onde é que nos dirigimos. Porque nós temos Ventura, que é neste momento o terceiro partido em Portugal, que apesar, vamos ver agora que impacto tiveram estes casos no eleitorado do Chega, mas as sondagens continuam a mostrar que não houve ali uma circunstância particular há um ano e que o Chega tende a valer mesmo aqueles 18% que teve nas eleições. Temos a Abascal, que já teve altos e baixos, mas que está outra vez numa fase, quanto mais o governo de esquerda em Espanha se deteriora, mais a Abascal vai recolhendo simpatias. Depois temos um primeiro-ministro, Viktor Orbán, da Hungria. Temos Marine Le Pen, que daqui a poucos meses, com quase uma certeza, não se pode dizer absoluta, porque em política nada é seguro, mas eu acho que é desta vez que Marine Le Pen consegue ser eleita presidente da República Francesa e que tem, neste momento, um peso no Parlamento francês determinante Temos um senhor holandês, Geert Wilders, que é o partido dominante da coligação de governo na Holanda. Temos Giorgia Meloni, que é a primeira-ministra italiana. Temos o senhor, que não sei se estava lá, Herbert Kickl, que é o dirigente da FPÖ austríaca e que está, neste momento, a negociar com o Partido Popular, com os populares austríacos, a formação de um governo. Portanto, de repente, a pouco e pouco, vemos que estes partidos estão a tomar o poder em quase todos os países europeus e que agora se juntam com um suplemento estimulante, que é a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a sua aparição constante, a sua máxima do "Make America Great Again", agora é "Make Europe Great Again". O grande patrocinador daquele encontro chama-se Elon Musk. Houve um livro que se escreveu antes da Primeira Guerra Mundial, que se chama "Os Sonâmbulos". E eu acho que nós, de repente, estamos todos um bocado sonâmbulos. E isso faz-me também referir aqui um artigo que hoje Marçal Grilo escreveu no "Público", em que faz também uma reflexão sobre as mudanças políticas na Europa e aqui em Portugal e, no fundo, interpela os partidos que têm estado no poder, sobre a sua responsabilidade e sobre a forma como estão a reagir a este tipo de fenómenos, um pouco por todos os países. E no fundo, o que Marçal Grilo diz é: aqui em Portugal, por exemplo, PS e PSD, em vez de perceberem o fenômeno que está a acontecer e tentarem entender para resolver os principais problemas do país, não estão a fazer o contrário. E isso é o que leva as pessoas a quererem mudar o panorama político, independentemente das suas convicções. É, no fundo, verem a permanência de problemas que se eternizam por décadas, que não têm solução. Pareço agora André Ventura a falar, mas é os partidos do costume, com as soluções do costume, que no fundo são não soluções, porque há uma dificuldade grande em resolver os principais problemas com que as pessoas se enfrentam, porque isso obriga a políticas que nem sempre são muito atrativas para o eleitorado, obriga a fazer ruturas, obriga a fazer reformas. E o facto de nada disso acontecer, um pouco por toda a Europa e aqui em Portugal também, está a levar a que estes partidos comecem a tomar o controlo um pouco por todo o continente. Eu estive a fazer umas contas, estes partidos têm três grupos parlamentares no Parlamento Europeu. Se por acaso se juntarem, que é uma ambição que vão tendo, embora haja alguns desentendimentos internos, estes três partidos somados somam 187 deputados no Parlamento Europeu. O PPE, que é o partido com mais deputados no Parlamento Europeu, tem 188. Portanto, isto dá-nos uma noção daquilo que está a acontecer, que não bate certo com o discurso dominante, que parece não querer ver esta realidade e não perceber porque é que isto está a acontecer. E daí eu me ter lembrado do tal título dos sonâmbulos, porque nós parecemos sonâmbulos ao olhar para as nossas políticas nacionais. Aqui estou a falar de toda a Europa, mas em particular aqui também de Portugal, como se tudo estivesse na mesma, quando as pessoas estão absolutamente cansadas de não verem soluções, de facto, para os problemas e por isso vão atrás de quem lhes vende soluções rápidas e fáceis. Portanto, para não me alongar muito mais, eu dou aqui um sinal amarelo aos partidos aqui em Portugal, em particular a PS e PSD, para que percebam aquilo que está a acontecer e não acordem quando for tarde demais.

Para evitarem essa situação de sonambulismo. Raquel, a beca-cis a fechar este semáforo político. Amanhã temos nova edição.