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Atribuímos cores aos protagonistas da atualidade e numa semana de campanha eleitoral, o Semáforo Político tem estado a olhar para esse assunto, sempre com os comentários da Judite França e do Bruno Vieira Amaral. Hoje temos como convidado José Miguel Judice, jurista e comentador, e o primeiro sinal verde do nosso semáforo sai para o Miguel Cordeiro.

Hoje estamos no último dia de campanha, mas vamos continuar a distribuir cores e sinais pela atualidade política. Hoje começamos, claro, pelo nosso convidado. Boa tarde, José Miguel Judice.

Boa tarde.

Praticamente 20 dias disse aqui na Rádio Observador que a probabilidade de Rui Rio ganhar as eleições era a mesma de lhe cair um meteorito em cima. Foi a 7 de janeiro. José Miguel Judice, tenho que lhe fazer esta pergunta. Olhando para as sondagens-

Já comprei um capacete.

Tem medo que lhe caia um meteorito em cima?

Não, eu acho que o mais provável continua a ser que Rui Rio não tenha mais deputados do que António Costa. Agora, em todo caso, o resultado dele ultrapassou completamente as minhas expectativas e estou convencido que as expectativas de toda a gente, pelo menos toda a gente que eu me lembre. Mas de qualquer maneira, já comprei um capacete para me proteger do meteorito.

Isto é a prova de que 15 dias de campanha fazem diferença ou podem fazer diferença.

Sim, nem sempre é assim, mas desta vez parece que está a ser assim. Mas eu volto a dizer, é preciso ter cuidado porque mesmo sem acreditar em teorias da conspiração, e um sinal vermelho para alguns há que ser aplicado aos institutos de sondagens, o que eu digo é que objetivamente a subida de Rui Rio foi altamente interessante para mobilizar o eleitorado de esquerda, como o eleitorado de direita foi mobilizado no tempo de Carlos Moedas. Portanto, não estou a dizer que tenha havido uma conspiração. Estou a dizer é que muitas vezes as coisas não são tão corretas como parecem. Vamos ver. Agora não há dúvida que eu acredito que o jogo está aberto.

E vamos esperar que o capacete seja resistente também.

Sim, comprei o melhor que havia no mercado.

Neste momento, e olhando novamente para as sondagens, vemos muitas a apontar para o empate técnico. Acha que esta pode ser uma das eleições mais renhidas de sempre?

Aparentemente, sim, a mais renhida de sempre creio que foi a segunda volta nas presidenciais entre Soares e Freitas. Mas esta também, aparentemente, é muito renhida, não há dúvida. E não apenas renhida em termos dos dois principais partidos, mas renhida em termos dos dois blocos.

Sim, e dos terceiros lugares, por exemplo.

Exatamente, isso tudo. É uma renhidice pegada.

A dispersão também leva a isso. A dispersão de partidos torna o voto mais disperso.

Pois, mas repare, o estarem tão próximos não foi planeado por um Deus onipotente, julgo eu. Aconteceu e, portanto, não há dúvida que está tudo muito empatado.

O facto de cada um agora quando vota num partido, isto tem sido dito, parece que não sabem quem é que está a votar ou que bloco é que pode sair dali. Acha que quando os eleitores vão às urnas fazem essas contas de cabeça?

Não, eu acho que a generalidade dos eleitores, não. Muitos deles votam claramente por clubismo. Quando não gostam do partido em que habitualmente votam, abstêm-se. Não mudam de camisola, é quase como futebol. Isso é a generalidade dos eleitores, estou convencido. Depois há eleitores que decidem muito com base em fatores que são aqueles que estão a viver na altura em que estão a viver, o seu pessimismo, o seu otimismo, as campanhas, o gostarem da cara ou não gostarem da cara dos principais candidatos. E depois há os eleitores, que eu diria mais sofisticados, que fazem essas contas todas, mas penso que são muito poucos.

José Miguel Judice, tem-se falado muito de voto útil nestas eleições. Praticamente todos os partidos falaram desta questão do voto útil. Rui Rio, muito à direita falou-se principalmente sobre esse voto útil. Acha que neste último dia de campanha, há dois dias das eleições, os eleitores sabem, de facto, o que é isso do voto útil e que utilidade é que pode ter o voto-

O voto útil, como alguém dizia, é sobretudo útil para quem o recebe. O voto útil é aquilo também que cada pessoa em cada momento acha que o seu voto deve fazer, se achar que a utilidade do voto é importante. Portanto, eu acho que é muito difícil. Agora, não há dúvida que os dois grandes partidos, que são o que eu chamo os partidos do oligopólio, têm todo o interesse em levar os eleitores a votar neles sem se comprometerem programaticamente com o desejo desses mesmos eleitores. O voto útil é um voto, de certa forma, sem compromisso. Ninguém é obrigado a respeitar o que pensa o eleitor que votou útil. Deve respeitar o voto do eleitor que votou conscientemente em função do programa e das propostas. Mas isso, assim como os impostos e a morte, voto útil vamos tê-lo sempre connosco.

Vamos fazer cenários?

Vamos a isso.

Vamos a isso? Pronto. Então, se tivermos o PS como governo minoritário e voltarmos a ter uma geringonça, agora se calhar de papel passado, para não acontecer o que aconteceu antes, António Costa pode dar-se ao luxo de apresentar o orçamento 2022, como fez outro dia num debate.

O problema é outro, é que se ele apresentar o orçamento 22, é talvez já mais do que aquilo que poderia e deveria apresentar agora Dada a mudança do clima econômico, político e social na Europa e no mundo. Portanto, o grande problema da geringonça é que António Costa dificilmente poderá conseguir que, sem uma rendição absoluta ou uma mudança radical de estratégia dos partidos da extrema esquerda e da esquerda radical, eles possam votar no orçamento. Quer dizer, eles podem mudar de estratégia. Durante seis anos evitaram fazê-lo. Agora, não podem, porque António Costa não vai poder dar aquilo que eles queriam, porque o país não entenderia que tivesse feito uma crise política por causa disso.

Para nada.

E, portanto, ele não pode dar mais do que o seu orçamento, mas mesmo o seu orçamento, eu estou convencido de que ele já está preocupado com ele em alguns aspectos. Eu sei que haverá alguma folga, mas com a folga que há, não significa que os problemas não tenham mudado e, sobretudo, a cultura dominante dos portugueses mudou. Hoje em dia, os portugueses estão se a preocupar com outras coisas. E o orçamento tem de dar resposta a essas outras preocupações: a necessidade do crescimento econômico, a melhoria das condições de vida das classes médias, a subida do salário médio. No fundo, um conjunto de mudanças que manifestamente não eram aquelas que estavam na ordem do dia há seis meses.

E se tivermos no dia 31 um cenário de maioria à direita, com o CHEGA incluído nessa maioria, o que se pode esperar depois de Rui Rio?

Com Costa, desculpe, com Costa com mais deputados do que Rui Rio?

Não, perguntando se Rui Rio conseguir vencer as eleições e acabar por ter essa maioria à direita.

Nessa solução é fácil, ele vai governar e o seu orçamento vai passar. É evidente que é provável que o PS crie uma dificuldade adicional não se abstendo, mas não acredito, com franqueza, que o Ventura seja quem deita abaixo o governo. Conjuntamente com o PS, o deitará abaixo, provavelmente com toda a facilidade. Portanto, nesse caso, nesse cenário que, repito, eu acho o menos provável, não quer dizer que seja o que eu menos gosto, mas é o menos provável, na minha opinião, eu acho que Rui Rio vai governar pelo menos até finais de 2023.

João Miguel Jusidice, não querendo olhar agora para meteoritos, que cenário é que acha que podemos ter na segunda-feira, não querendo apostar aqui na vitória do PS ou PSD, olhando para possíveis coligações que podem acontecer, vê com mais possibilidade acontecer um bloco central ou uma coligação à esquerda?

Ora bem, eu acho que o António Costa não vai fazer uma renovação da geringonça. Um bloco central também não vai. O que ele vai é provavelmente, se for o mais votado, cobrar do Rui Rio a promessa que ele lhe fez.

E é isso que o presidente da República quer?

Eu não lhe perguntei, mas a minha convicção é que sim, quer o presidente da República, quer as entidades patronais, quer a ala moderada do PS, e sobretudo, querem os eleitores, que sabendo que Rui Rio se iria coligar com o PS ou apoiar o PS, o PS ganhara, apesar disso, votaram em Rui Rio. E a mesma coisa se passa com o PS. Sabendo que há um risco, visto da esquerda, que António Costa se transforme num António Costa centrista, ainda assim votaram no PS. Portanto, o eleitorado português, que é basicamente moderado, não está nada preocupado com o acordo entre o PS e o PSD e muito provavelmente deseja que seja isso que aconteça. Não estou a dizer que é a minha opinião, estou a dizer o que eu acho que, de facto, é mais provável que seja a vontade popular.

Essa projeção. Vamos fazer aqui também um balanço da campanha. O João Miguel Jusidice já referiu essa mudança que fomos tendo nos últimos 15 dias. Passando aqui pelos nossos comentadores, Bruno Vieira Amaral, olhando para estas duas semanas de campanha, que cor é que queres atribuir e que balanço é que fazes de tudo aquilo que foi dito ao longo desses 13, 14 dias?

É um sinal verde. Eu creio que a campanha foi esclarecedora. Os debates foram muito bons, ao contrário do que algumas pessoas disseram. Fizeram muitas críticas ao modelo dos debates, sobretudo dos debates a dois. Eu creio que foram muito esclarecedores. Permitiram ver os líderes partidários em diferentes registros, seguindo também diferentes estratégias consoante o líder que tinham pela frente, o outro partido que tinham pela frente. E também há um lado positivo em toda esta campanha, que é o da diversidade da oferta. Ninguém se pode queixar agora de não haver diversidade de oferta política. Não é só a carne bem passada ou mal passada, há aqui oferta para todos, há comida vegan, há cozinha de fusão e até alguns alimentos assim mal cozinhados, um pouco fora do prazo, mas ninguém se pode queixar da inexistência de variedade e de diversidade. Vamos ver se é o suficiente para baixar os números da abstenção. Eu acho que isso era importante. Fazendo um balanço, uma avaliação de como é que correu aos diferentes partidos, eu creio que, no geral, a direita tem mais razões para estar contente com a campanha. Creio que correu melhor a campanha ao bloco de direita. O de Rui Rio conseguiu tornar o resultado incerto à entrada agora para as eleições. Não perdeu terreno, apesar do crescimento da Iniciativa Liberal, consegue conquistar terreno ao PS. A ameaça do CHEGA, pelo menos pelas sondagens, não é suficiente para que as pessoas temam esse papão que António Costa tem agitado. Portanto, eu acho que a campanha foi favorável ao bloco de direita, o que não quer dizer que isto vá resultar numa vitória da direita, numa maioria de direita ou sequer numa vitória de Rui Rio. Mas, tendo em conta o ponto de partida antes da campanha, creio que sem dúvida os partidos à direita foram mais beneficiados por esta campanha.

Judite de França, que balanço fazes da campanha? Que cor queres atribuir?

Eu concordo com a parte dos debates, com a parte da campanha, não, porque acho que se eu não tivesse visto nada, também não teria perdido grande coisa, porque entre gatos e outros faits divers que fazem parte da campanha. Atenção, as campanhas normalmente são muito isto, não há tempo para dizer coisas relevantes, nem para discutir nada em profundidade.

E não houve muita cacetada também.

Sim, mas são aqueles comentários no fim de uma arruada, aquele comentário à trica do dia, etc. Não houve Marcelo Rebelo de Sousa para comentar, que às vezes acontece.

É a grande ausência.

É a grande ausência desta campanha.

Como é que ele aguenta?

Não sei, mas imagino que no domingo haja uma visita a um banco alimentar fora de horas para fazer um comentário. E acho que nesta campanha, o que faz parte do modelo, acho que há aqui uma diferença, mas é uma diferença Covid, que é as pessoas estavam de facto fartas de estar presas em casa e portanto foi tudo para a rua fazer arruadas. E eu acho que isso, independentemente da questão da contaminação, se calhar não a posso separar, mas o fato de ter havido alguma mobilização de pessoas na rua é um bom sinal. É sinal de que as pessoas estão minimamente interessadas, mesmo que sejam, digamos, as mais ferrinho que estão na rua. Acho que há um mínimo interesse, no fundo, de umas eleições, fomos para umas eleições como se elas fossem precisas, no fundo, enfim, elas não seriam precisas. Portanto, eu vou dar assim um tom pastel clarinho, um verde clarinho.

Desmaiado.

Sim, desmaiado. Fica bem na parede, mas não se nota muito. É isso, mais ou menos.

José Miguel Júdice, alguma cor para atribuir em concreto à campanha eleitoral estas duas semanas? Foram esclarecedoras?

Eu acho que foram o que são habitualmente, estou de acordo. Aqui as campanhas servem, sobretudo, para mobilizar os mobilizados, para levar aqueles que depois levem a boa nova, a mensagem, a espalhem, vão falar com pessoas, se tornem mais radicais no apoio, portanto, não serve para mais do que isso. Acho que o Rui Rio perdeu um bocado de gás na parte final da campanha, portanto aí não daria um verde. É evidente que ele surpreende-me todos os dias neste sentido. Pode ser que isto seja a boa estratégia, fazer-se de morto, quase.

Uma campanha muito parecida, deixe-me só interrompê-lo, mas uma campanha muito parecida àquela que fez no Porto em que venceu Fernando Gomes ou em que Fernando Gomes perdeu, não é?

Em que Fernando Gomes perdeu. Não há dúvida. E por outro lado, António Costa acho que exagerou, e acho que tem um semáforo vermelho, porque exagerou nas troca-tintas. Quer dizer, foi uma trapalhada desnecessária, com mudanças quase típicas de fibrilhação auricular. Portanto, acho que devia consultar um médico, porque não se pode em 15 dias mudar tanto de estratégia, dizer tanta coisa e o seu contrário. Agora, não nos esqueçamos que António Costa já tem esses problemas descontados no seu valor, isto é, os portugueses conhecem-no melhor do que conhecem qualquer outro político, sabem as suas qualidades e os seus defeitos, e esse defeito de um certo oportunismo é considerado um parto da persona. E não há dúvida que, como eu digo há anos, e não quero ofendê-lo, não me apetece ofender políticos em regra, é o oportunista-mor do reino, no sentido que é o político que mais atua de acordo com o sentido da oportunidade. E portanto, foi mudando, só que às vezes tropeça-se nos pés. Eu não sei se este final de campanha foi muito forte para os portugueses indecisos e que se queiram ligar a um ser forte com quem possa saber que tem força para enfrentar os problemas, se calhar foi bom. Mas se o português um bocadinho menos assustados, provavelmente foi mau. Eu não sou capaz de prever se é bom ou se é mau, mas eu não gostei deste exagero, a ideia de que o Rui Rio vai trazer o Chega para o poder é um disparate sem nome. Não acho que nem um fanático filiado no Partido Socialista acha que o Rio é um adepto do Ventura, isso não faz qualquer sentido. E portanto, acho que aí exagerou muito, de facto.

José Miguel Júdice, vamos ver o que é que acontece depois no domingo, se acabar por ser uma vitória do Rui Rio que o capacete seja restituído.

Não, já está. E portanto, espero sobreviver, mas se não sobreviver, olhe, é o preço que se paga por andar na rua e também por dizer a sua peça, porque quem não arrisca opiniões nunca tem o risco de meter meteoritos.

Muito obrigado por ter arriscado a opinião aqui na Rádio Observador. José Miguel Júdice neste Semáforo Político. Contámos também com a Judite de França e com o Bruno Vieira Amaral. Fica fechado o Semáforo Político para a campanha eleitoral, mas está de regresso na próxima semana, já para analisar aquilo que vão ser os resultados dessas eleições do dia 30 de janeiro.